Hora de admitir: Hungria tem sido GP mais legal da F1 nos últimos anos

0

Foi-se o tempo em que o fã da F1 olhava o calendário e, ao constatar que a próxima etapa seria o GP da Hungria, suspirava em lamentação: “Xi. Lá vem aquela corrida chata”.

No último quinquênio não tem sido assim. Pelo contrário: está difícil achar outro circuito que, de 2011 para cá, tenha oferecido uma soma tão rica de disputas, reviravoltas e emoções. O Brasil protagonizou a épica decisão de 2012; o Canadá foi palco das corridas malucas de 2011 e 2014; a Bélgica sempre proporciona boas corridas. Nenhuma dessas pistas clássicas, porém teve capacidade de gerar três páreos de tirar o fôlego nesse período. Hungaroring sim.

Não foi só lá na frente: também houve muitos enroscos na chamada "zona da pasmaceira"
Não foi só lá na frente: também houve muitos enroscos na chamada “zona da pasmaceira”

O GP mais recente, disputado no último domingo, ainda está fresco na memória do nobre leitor: atuação completamente errática de Lewis Hamilton, choque decisivo entre Nico Rosberg e Daniel Ricciardo valendo o segundo lugar, muitas ultrapassagens, exacerbo de punições, acidente assustador de Nico Hulkenberg, carro de segurança, pelotão reagrupado, atuações de destaque de Daniil Kvyat e Fernando Alonso, e triunfo soberbo de Sebastian Vettel, equiparando o alemão às 41 vitórias de Ayrton Senna. O melhor espetáculo da temporada até aqui.

No ano passado, outra edição para não se esquecer: em meio à fraca chuva que caiu sobre Budapeste, Ricciardo brilhou e, com ultrapassagens decisivas, faturou a segunda corrida da carreira, sendo acompanhado por um combativo Fernando Alonso e por um improvável Lewis Hamiton, recuperando-se de problema mecânico que o deixara em último no grid, na cerimônia de premiação. Reveja:

Voltando a 2011, a água interferiu de novo em prova vencida de forma estupenda por Jenson Button, numa tarde cheia de surpresas (vide a rodada de Hamilton enquanto ponteava de forma isolada) e “pegadinhas” táticas. Assista:

Uma pista curta, estreita e travada como a magiar não costuma sediar páreos tão movimentados assim. O que mudou nos últimos cinco anos? Há explicação: algumas das mudanças pelas quais a categoria passou recentemente, impopulares no âmbito geral, acabaram caindo como uma luva em um GP tão peculiar quanto o húngaro. Exemplos:

  1. Interferências de Hermann Tilke – goste você ou não do arquiteto alemão, o fato é que, em Hungaroring, suas intervenções foram certeiras. Alongar a reta dos boxes e deixar a curva 1 mais “bicuda” enfim criou condições mínimas de briga por posição.
  2. Asa traseira móvel – detestada pelos fãs é um item muito bem-vindo em Budapeste. Devido às características do traçado, o dispositivo ajuda o piloto a encostar e emparelhar com o rival no fim da reta principal, e nada mais: ele ainda terá que dividir frenagem e curva com o rival.
  3. Curvas de raio longo e média velocidade – combinação menos nociva possível para quem quer perseguir outro bólido: a turbulência é menor do que aquela gerada em pernas de alta e, ao mesmo tempo, quem defende posição não consegue “estilingar” tanto quanto faria ao sair de um grampo.
  4. Presença mais constante da chuva – ok, é um fenômeno natural e alheio à ação humana, mas não deixa de ser curioso que a chuva, antes rara em território húngaro nos fins de semana de F1, recentemente tenha decidido aparecer com frequência. Ótimo.

“Poxa, mas se a evolução mais recente da F1 fez bem logo para o GP da Hungria, tem alguma coisa errada aí, certo?”. Não necessariamente. É claro que o ideal seria promover uma competição agradável e emocionante em todos os eventos. Mas também há pontos positivos a se extrair, que podem servir de exemplo para outras etapas do certame.

Além disso, apesar de todas as limitações, Hungaroring possui qualidades. Trata-se do circuito permanente mais diferente do calendário, uma pista de baixa velocidade que ajuda a mexer com o status quo da ordem de forças (Red Bull e McLaren que o digam). Pistas travadas não costumam causar simpatia, mas se o autódromo em questão for capaz de proporcionar espetáculos como os últimos vivenciados na Hungria, por que reclamar?

Piquet vs. Senna: uma das cenas mais famosas da história do automobilismo ocorreu em Hungaroring
Piquet vs. Senna: uma das cenas mais famosas da história do automobilismo ocorreu em Hungaroring

Fora que, mesmo antes deste quinquênio mágico, Hungaroring já foi palco de muita coisa boa: a estreia da F1 no leste europeu; a lendária ultrapassagem de Nelson Piquet sobre Ayrton Senna; a fantástica recuperação de Nigel Mansell, vindo de 13º para vencer; a confirmação do tão esperado título do Leão; a quase-vitória de Damon Hill com a pequenina Arrows; o espetacular stint de Michael Schumacher contra as McLaren; o tetracampeonato do alemão; a primeira vitória de Alonso; a primeira de Button, numa atuação memorável, sob chuva.

Com todos os seus defeitos e qualidades, o GP da Hungria já é parte importante do universo da F1. Por toda sua história e, especialmente, pelo que tem proporcionado em tempos recentes, não merecia ser tratado com tanto desdém. Sendo assim, por que ainda tem gente que pede com tanta veemência pela sua saída do calendário? Deve ser o preconceito. Se alguém me garantisse que as próximas edições da prova serão tão boas quanto as últimas, eu não hesitaria em pedir: fica para sempre, Hungaroring!

Confira a análise do GP da Hungria feita pela equipe do Projeto Motor no Debate Motor:

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.