Hulkenberg é apenas o 24º titular da F1 a triunfar em Le Mans

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As listas estão na moda. Eis aí o buzzfeed para não deixar mentir. No último domingo (14), Nico Hulkenberg entrou em uma delas. Para quem gosta de automobilismo, trata-se de um ranking bastante importante.

Ao receber a quadriculada das 24 Horas de Le Mans 2015, o alemão – que competiu ao lado de Earl Bamber e Nick Tandy no protótipo 919 Hybrid #19, da Porsche -, tornou-se o 24º competidor a triunfar numa das provas mais tradicionais do automobilismo mundial no mesmo ano em que foi inscrito como titular em uma das escuderias da F1. Tendo em vista todos os que tentaram, estamos falando de um número bastante restrito.

Para evitar qualquer confusão em relação ao critério que estamos usando, deixamos claro que estamos falando só de pilotos escalados como representantes principais por uma equipe. Não vale ser um dos chamados “tapa-buracos”, aqueles que entram, seja por qual motivo for, como substitutos no meio do campeonato (é o caso de André Lotterer, campeão de Le Mans no ano passado, pela Audi, e que entrou no lugar de Kamui Kobayashi no GP da Bélgica daquele certame).

Lista conta só com pilotos escalados como representantes principais de uma equipe. Não vale ser um dos chamados ‘tapa-buracos’

Voltando a falar de Hulkenberg: o germânico já gravaria o nome na história do automobilismo só de ajudar a Porsche, maior vencedora disparada do evento, com 17 triunfos, a quebrar um jejum de 17 anos. Porém, o piloto da Force India foi além: quebrou uma marca que seguia inalcançável desde 1991, quando Johnny Herbert e Bertrand Gachot, então pilotos de Lotus e Jordan na F1, levaram o lendário Mazda 787B a ser o primeiro (e até hoje único) carro japonês a conquistar La Sarthe.

Mazda 787B, vencedor das 24 Horas de Le Mans de 1991 pelas mãos de Johnny Herbert, Bertrand Gachot e Wolker Weidler
Mazda 787B, vencedor de Le Mans em 91 pelas mãos de Johnny Herbert, Bertrand Gachot e Wolker Weidler

Como tudo começou

A lista de titulares da F1 que venceram Le Mans foi aberta por Louis Rosier, logo na primeira temporada oficial do campeonato de monopostos. Em 1950, o francês usou um Talbot T26C para se inscrever, com equipe própria, às rodadas de abertura da série, Inglaterra e Mônaco. Com o Grand Sport T26, variante preparada para competições de longa duração, Rosier disputou e venceu a corrida de 24 horas ao lado do filho, Jean-Louis Rosier, também por time particular. Um feito absolutamente memorável.

Louis Rosier e seu filho, Jean-Louis, apresentam o Talbot T26 com o qual venceriam Le Mans em 1950
Louis Rosier e seu filho, Jean-Louis, apresentam o Talbot T26 com o qual venceriam Le Mans em 1950

Depois dele, outros grandes ases compuseram a lista: Peter Whitehead, conduzindo um Jaguar XK-120C de Peter Walker, em 51; o classudo Maurice Trintignant e o rechonchudo José Froilán González, parceiros da Ferrari na conquista de 1954; Mike Hawthorn, que levou o Jaguar D-Type ao triunfo na trágica edição de 55, recentemente lembrada pelo Projeto Motor; o esquecido Ron Flockhart, ás da BRM, vencedor da edição 1957 com um Jaguar da esquadra Ecosse; Roy Salvadori e Carroll Shelby, em 59, liderando a glória da Aston Martin em Le Mans e, pouco depois, um fracasso retumbante da marca inglesa na F1 (já contamos essa história aqui).

A prática ganhou ainda mais força na década sequente: Olivier Gendebien, grande nome das competições de endurance da época, embora ofuscado na F1, faturou Sarthe em 1960 sendo piloto oficial da Ferrari; Phil Hill fez igual, pela mesma esquadra, nas duas edições sequentes, assim como Lorenzo Bandini em 63; Jochen Rindt e Masten Gregory, de Cooper e Centro Sud (equipe privada), levantaram a taça em 65 com uma Ferrari 250LM particular da North American Racing; Bruce McLaren, já com time próprio nos monopostos, levou o Ford GT40 de Carroll Shelby a ser o primeiro carro americano campeão da prova; Dan Gurney, da All American Racers, replicou o feito, também correndo para Shelby, em 67; Pedro Rodríguez, da BRM, foi o vencedor de 68, a bordo de um GT40 pertencente a John Wyer; Jackie Oliver, ás da BRM, levou a edição de 69, também correndo para a JW.

Jacky Ickx merece um parágrafo à parte. Segundo maior vitorioso da história de Le Mans, o belga vivia seu auge em 1969, ano em que defendeu a Brabham e se sagrou vice de Jackie Stewart. Nessa mesma estação, atuou como companheiro de Oliver em Le Mans e obteve a primeira de suas seis coroas. Em 75 e 76, já na fase crepuscular de sua carreira nos monopostos, foi titular de Lotus e Williams na F1, respectivamente, e venceu Sarthe por duas operações diferentes: primeiro, com um Mirage-Ford bancado pela petrolífera Gulf; depois, a bordo de um Porsche 936 oficial.

Jacky Ickx viveu uma temporada quase perfeita em 69: venceu em Sarthe pela primeira vez e se tornou vice-campeão da F1
Jacky Ickx viveu uma temporada quase perfeita em 69: venceu em Sarthe e se tornou vice da F1

Feito cada vez mais raro

Os anos 70 começaram a indicar o fim do ciclo em que volantes da F1 competiam de forma abundande em Le Mans: Henri Pescarolo, da Williams, e Graham Hill, da Brabham, dividiram o alto do pódio na edição de 1972, como companheiros da Matra. O 21º membro do clube, no entanto, surgiria apenas seis anos depois: Didier Pironi. Volante da Tyrrell, o francês ajudou a conterrânea Alpine a registrar seu único triunfo no páreo de resistência, conduzindo o protótipo A442 empurrado pelo motor Renault.

Antes de Didier Pironi, vencedor em 78 com o lendário Alpine-Renault 1442B, F1 não via um titular seu triunfar em Le Mans havia seis anos; depois, hiato foi de 13 primaveras
Antes de Didier Pironi, vencedor em 78 com o peculiar Alpine-Renault 1442B, F1 não via um titular seu triunfar em Le Mans havia seis anos; depois, hiato foi de 13 primaveras

A partir de então, a crescente profissionalização da F1 passou a afetar o elo de forma ainda mais incisiva. Tanto que, depois de Pironi, foi preciso esperar 13 anos até que Herbert e Gachot inscrevessem seus nomes no rol. Agora, passaram-se mais 24 carnavais entre a conquista deles e a de Hulkenberg.

Mas não é bom se iludir demais: embora a vitória do alemão tenha sido muito legal, e possa servir de inspiração para vários colegas, os contratos milionários e altamente restritivos da F1 atual, especialmente em relação aos pilotos mais importantes, não vão deixar que a prática se popularize de novo. Por isso, não se espante se tivermos que esperar mais 24, quiçá 30, anos até conhecermos o 25º nome a adentrar o rol.

Até lá, Hulkenberg tem mais é que comemorar. Antes da prova, escrevemos que ele poderia encontrar no Mundial de Resistência a oportunidade cada vez mais distante na F1. A chance apareceu. Que o mais novo campeão de Le Mans saiba fazer bom proveito.

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.