Ilha de Man: a terra que transporta ases do presente aos perigos do passado

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Paixão ou loucura? Destemor ou insanidade? Se o motociclismo, per se, costuma ocupar uma nuvem cinzenta entre estados de espírito, a centenária TT Ilha de Man está sempre a meio passo do abismo da loucura. Praticada desde o princípio do século XX, a prova ocupa hoje, sem sombra de dúvidas, o posto de competição de cunho mundial mais insana (e arriscada) do esporte a motor.

Ao longo de duas semanas, competidores de todas as partes do globo colocam a pele e a saúde mental à prova percorrendo trechos citadinos, campesinos e montanhosos (por que não andar a 160 km/h ao lado de um penhasco, não é mesmo?) do traçado de quase 61 km que circunda a ilhota britânica. Mais de 100 pessoas já pagaram tamanha ousadia com a própria vida em 98 edições de prova (contando a deste ano, que terminou na última semana).

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Traçado do Snaefell Mountain Course, onde acontecem TT Ilha de Man e GP de Manx
Traçado do Snaefell Mountain Course, onde acontecem TT Ilha de Man e GP de Manx

Só em 2017 foram três vítimas. O britânico Davey Lambert pereceu logo na corrida de abertura da classe Superbike, após se acidentar nas proximidades de Greeba Castle, durante a terceira passagem de prova. Ele debutava na competição. Já o holandês Jochem van den Hoek sofreu uma colisãoi fatal na altura do quilômetro 18 durante páreo da divisão Superstock. Poucos dias antes, conquistara seu melhor resultado na Superbike. Por fim, o irlandês Alan Bonner caiu na região das montanhas enquanto participava de uma sessão classificatória. Corria em Man desde 2014. A suas famílias nossos sinceros sentimentos.

Fato é que a Ilha de Man e também o GP de Manx, outra competição realizada no local, sustentam uma lúgubre porém sedutora conexão com o passado. Nenhum evento automobilístico ou motociclístico implica tantos riscos a seus participantes. Enquanto outras categorias reduziram drasticamente o número de fatalidades, Ilha de Man e Manx raramente passam alguma edição sem registrar óbitos. O último ano em que isso ocorreu foi 2001. Antes, 1982.

Mas, afinal, por que um desafio tão perigoso continua a atrair centenas de participantes todos os anos? Melhor do que tentar explicar com palavras é mostrar. Assista ao vídeo abaixo, a bordo de Guy Martin e sua Tyco Suzuki enquanto persegue Michael Dunlop (sobrinho da lenda Joey Dunlop e atual detentor do recorde do circuito) e sua BMW, para ter uma pequena noção.

Ainda não captou o espírito? Este outro clipe vai deixar tudo muito mais claro para o douto leitor:

O passado explica o presente

Para deixar mais clara a essência da TT Ilha de Man contaremos a seguir duas histórias importantes relacionadas à prova, que já fez parte do calendário do Mundial de Motovelocidade (atual MotoGP). A primeira delas acabou de completar seis décadas: a edição de 1957 é até hoje a corrida mais longa já realizada no Mundial. Seu vencedor foi Bob McIntyre, ás ironicamente conhecido por levar suas máquinas ao limite (muitas vezes além), e que por isso colecionou mais quebras e abandonos do que glórias ao longo da carreira, interrompida de forma precoce em 1962.

Pois “Bob Mac” estava implacavelmente sólido naquelas duas semanas de maio/junho em Man. Correndo pela italiana Gilera, o escocês se tornou o primeiro ás da classe Senior a romper a média de 100 mph (160 km/h) em uma volta lançada. Depois, dominou o páreo para vencer com mais de dois minutos de vantagem sobre John Surtees, o segundo colocado. A prova teve duração de 3h02min57s2. Uma verdadeira saga.

A outra é menos alegre: em 1972, portanto 45 anos atrás, o italiano Gilberto Parlotti sofreu uma queda terrível enquanto liderava a segunda volta da divisão Ultralightweight, para motocicletas de 125 cc. O motivo? Chovia muito e a visibilidade nas estradas montanhosas simplesmente inexistia. Abaixo há um resumo da disputa – sem imagens do acidente, é verdade, mas em que é possível ao menos entender com precisão como estava o clima naquele dia.

Competidores começaram a questionar a decisão de realizar o páreo sob aquelas condições. Um em especial, ninguém menos que Giacomo Agostini (um grande amigo de Parlotti), anunciou um boicote pessoal ao evento, alegando que ele não oferecia o nível de segurança que uma etapa do Mundial de Motovelocidade exigia. O recado do multicampeão foi ouvido, e a TT acabou excluída da rota do campeonato desde então (e provavelmente para sempre).

Se a MotoGP renegou a Ilha de Man, os apaixonados pelas duas rodas jamais a abandonaram. Ano após ano, mesmo com tantas tragédias, aquele pequeno pedaço de terra de 572 km² continua a exercer fascínio ímpar sobre os fãs do motociclismo. Quem acompanha ou corre a prova entende que dela faz parte um elemento agro que não pode ser evitado enquanto ela existir. Assim também era no passado. No cômputo final, a TT Ilha de Man é o único séquito motorizado a preservar a sensação real e latente de brincar com a morte. Às vezes, infelizmente, a morte se cansa da brincadeira.

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Luigi G. Peceguini

    O piloto do primeiro acidente do vídeo só voou..ele sobreviveu?

    • Cláudio Henrique

      Sobreviveu, inclusive voltou a competir

      • Luigi G. Peceguini

        Pqp isso que é paixão

  • Paulo Silva

    Queria entender como exatamente é a corrida, é time trial? Se sim, qual o formato exatamente?

  • Leandro Farias

    Isso dá ideia pra um interessante 10+: Ases do automobilismo que mais correriam risco de morte em Man.

  • Gabala

    Tava pesquisando sobre a ilha e me lembrei do evento. É fantástico e perigosíssimo ao mesmo tempo. O romantismo, a nostalgia e o desafio que a pista oferece são os possíveis atrativos para os pilotos que se arriscam por lá