Indy 500 tem os mesmos favoritos de sempre, e isso é péssimo

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Scott Dixon, Tony Kanaan, Hélio Castroneves… Parece que estamos falando dos favoritos à vitória nas 500 Milhas de Indianápolis de 2015, mas não: estamos falando da edição de 2006, nove anos atrás, em que esses três ases, respectivamente pole position, quarto e quinto colocados na ordem de largada para a prova deste domingo (24), também estiveram nas duas primeiras alas do grid.

Ver figuras tão carimbadas na lista de postulantes à vitória da prova mais tradicional do automobilismo americano não chega a espantar. O que chama a atenção é saber que, nove edições depois, o trio ocupa posições praticamente inalteradas na carreira. Dixon e Castroneves seguem há mais de uma década em suas escuderias, Ganassi e Penske, enquanto Kanaan deixou a Andretti em 2011 e, após quase largar a carreira e encontrar guarida na KV, voltou a um time de ponta como companheiro do neozelandês.

Marco Andretti, oitavo no grid de domingo, era estreante em 2006, e impressionou ao quase roubar vitória de Sam Hornish Jr. Até agora não passou de promessa.
Marco Andretti, oitavo no grid de domingo, era estreante em 2006, e impressionou ao quase roubar vitória de Sam Hornish Jr. Até agora não passou de promessa.

Os três também venceram uma Indy 500 cada desde então: Dixon faturou a de 2008; Castroneves, a de um ano mais tarde; Kanaan saiu da fila em 2013.

Óbvio que muitos méritos precisam (e devem) ser creditados aos pilotos. Em uma competição que permite certa longevidade, Dixon, Kanaan e Castroneves souberam se adaptar às mudanças de regulamento e chassi ao longo dos anos, e colhem os frutos dessa capacidade até hoje. É bonito ver dois competidores na casa dos 40, caso de Tony e Helinho, manterem-se competitivos e motivados por tanto tempo, desafiando adversários que, às vezes, têm metade de sua idade.

Só que há um aspecto bastante negativo nesse preâmbulo: se esses nomes não têm seus habitáculos em equipes de ponta ameaçados, é porque a Indy tem tido dificuldade em renovar seu quadro de pilotos. Quando falamos em “renovação”, não é apenas no sentido de compor o grid, mas sim de quem entra para ser protagonista. Praticamente nenhum nome da nova geração tem sido capaz de sacudir uma ordem de forças há tanto tempo estabelecida.

Atual campeão da Indy, Will Power já era profissional em 2006: estava na coirmã Champ Car.
Atual campeão da Indy, Will Power já era profissional em 2006: estava na coirmã Champ Car.

Mesmo os demais favoritos, caso de Will Power (segundo), Justin Wilson (sexto), Sébastien Bourdais (sétimo) e Juan Pablo Montoya (15º), já tinham carreira consolidada no automobilismo profissional em 2006, portanto não podem ser classificados como “novos” talentos.

Simon Pagenaud (terceiro na grelha) e Josef Newgarden (nono) acabam por ser os únicos entre os mais jovens a demonstrar potencial para vitórias e títulos. James Hinchcliffe seria outra aposta, mas o forte acidente nos treinos livres o tirou de ação. O mesmo não se pode dizer sobre Carlos Huertas, Sage Karam, Conor Daly, Stefano Coletti e Gabby Chaves, que pouco empolgam. Sem opções, a Indy precisa apelar a dinossauros como Alex Tagliani, Oriol Servià, Townsend Bell, Ryan Briscoe e até Buddy Lazier para completar a lista de 33 participantes.

Falta interesse pela base

Afinal, por que isso acontece? Para nós, do Projeto Motor, boa parte da resposta está na Indy Lights, principal certame de acesso. Basta ver o resultado das 100 milhas de Indianápolis, prova mais importante do ano, realizada na sexta-feira (22). Foram ínfimos 12 participantes. Desses, cinco são refugos do automobilismo europeu, incluindo o vencedor Jack Harvey e o ex-F1 Max Chilton. Somente sete, portanto, são nomes legitimamente formados pela e para a Indy. É um número pífio.

Com índices baixos de audiência, a principal categoria de monopostos dos Estados Unidos não consegue atrair jovens volantes e criar um ciclo consistente de renovação. A grande maioria opta pelas divisões regionais da Nascar, deixando à concorrente apenas as sobras. Com isso, o processo de renovação da Indy avança em ritmo mastodôntico.

Somente 12 pilotos participaram da etapa de Indianápolis da Indy Lights em 2015. Desses, apenas sete são formados pela e para a Indy. É um número pífio.

É claro que gostaríamos de ver Dixon, Kanaan e Castroneves brigando entre os ponteiros por mais alguns anos, assim como Power, Bourdais, Montoya e Wilson. Mas também queremos mais. Queremos um confronto de gerações, em que o destemor dos jovens e a experiência dos veteranos proporcionem, de maneira concomitante, um espetáculo emocionante e atraente para os fãs.

Com essa base que aí está, será difícil alcançar tal objetivo em curto prazo. Ou a Indy trabalha para voltar a ser um celeiro de novos talentos, ou ficará na dependência de suas velhas estrelas até que elas não terem mais energia para iluminar a categoria sozinhas. E isso não está tão distante de acontecer.

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.