Indy se antecipa à F1 ao transformar carros em painéis ambulantes

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A evolução das transmissões das corridas ao longo dos últimos 20 anos criou uma nova dinâmica no automobilismo. Por um lado, trouxe ao fã que está em casa uma experiência muito mais viva, com imagens de excepcional qualidade, gráficos completos e câmeras a bordo (tema explicado soberbamente pelo ínclito Lucas Berredo neste texto aqui) capazes de deixar o telespectador com a sensação de que está praticamente no controle do bólido. Um espetáculo.

Painel tem 20 cm de comprimento, 18 cm de altura e apenas 3 mm de largura
Painel tem 20 cm de comprimento, 18 cm de altura e apenas 3 mm de largura

Por outro lado, contribuiu para afastar o fã dos autódromos. Afinal, se é possível ter tudo isso mastigadinho, sentado no conforto do sofá de casa, por que sofrer de pé numa arquibancada, sob o sol escaldante – ou, ainda pior, debaixo de chuva -, para ver os carrinhos passando ao longe sem nem ter a visão completa da pista ou saber que raios está acontecendo? É um pensamento que contraria toda a experiência sensitiva de ver uma prova ao vivo (o ruído dos motores, o cheiro da gasolina, a sensação de ver o automóvel rasgando a reta a uma velocidade absurda), mas que está baseada em uma lógica compreensivelmente pragmática.

Como motivar esse cara acompanhar de perto um evento automobilístico? A Indy vem tentando encontrar uma resposta a essa pergunta já há alguns anos. E é preciso admitir: por mais que a categoria pise na bola em diversos pontos, está muito mais aberta a tentar algo novo do que a F1, ainda imersa numa aura de mistério que mais vem atrapalhando sua evolução do que o contrário. Incluir vários circuitos urbanos no calendário é um exemplo: trata-se de tentar deixar o espetáculo o mais próximo possível do público, imergindo-o naquela atmosfera.

Nem sempre dá certo, mas isso não desestimula a série de seguir tentando. A mais recente novidade é um painel de LED, instalado de ambos lados sobre a carenagem da tomada de ar superior, com o objetivo de mostrar aos espectadores do autódromo, em tempo real, informações como a posição de pista dos competidores. No vídeo abaixo, o diretor de inovação da Indy, Jon Koskey, explica (em inglês) o funcionamento do dispositivo, que vinha sendo testado desde março e estreou oficialmente na etapa de Mid-Ohio, realizada no último domingo. Confira:

Basicamente, a ideia foi inspirada em competições menores dos Estados Unidos que já usam painéis para identificar quem ocupa que colocação ao longo de uma etapa, porém aprimorada: os dados de posicionamento são atualizados a cada setor da pista, e não apenas uma vez por volta, e há informações complementares como o tempo cronometrado de um pistop e até se o piloto está com o push-to-pass acionado para tentar uma ultrapassagem. As cores dos números mudam de acordo com o tipo de informação passada.

Nós, do comitê editorial do Projeto Motor, achamos o conceito bastante interessante, embora a aplicação ainda seja estranha. O curioso é que, nesse ponto, os americanos anteciparam uma ideia que a própria F1 chegou a testar há não muito tempo, e que não levou adiante: durante o teste para jovens pilotos de Abu Dhabi do ano passado, a Force India experimentou um componente aerodinâmico, acoplado acima do santantônio, que continha dois painéis digitais semelhantes aos da Indy em suas laterais.

A ideia, pasmem, partiu de Anthony Hamilton, pai do bicampeão mundial e atual líder do campeonato, Lewis Hamilton. Chamado de “Info Wing” (“asa informativa”, numa tradução livre e tosca para o português), o apetrecho logo caiu no esquecimento e não há previsão de que seja aproveitado no campeonato. Enquanto isso, GPs como o da Inglaterra oferecem, de forma isolada, o aluguel dev aparelhos para que as pessoas acompanhem dados da classificação em tempo real, a preços nada módicos.

Force India experimentou a "Info Wing", asa munida de dois paineis laterais de LED semelhantes aos da Indy, durante o teste para jovens pilotos de Abu Dhabi em 2014
Force India experimentou a “Info Wing”, asa munida de dois painéis laterais de LED semelhantes aos da Indy, durante o teste para jovens pilotos de Abu Dhabi em 2014

Seja por meio disso ou das placas de LED da Indy, provavelmente estamos falando de uma forma embrionária de “conversar” com o fã que está lá para ver o evento ao vivo, e que merece ser tão bem tratado quanto aquele que está em casa assistindo pela TV. A tecnologia está aí para isso.

"Info Wing" da F1 foi criada pela empresa do pai de Lewis Hamilton, mas ninguém deu muita bola
“Info Wing” da F1 foi criada pela empresa do pai de Lewis Hamilton, mas ninguém deu muita bola

Você já deve ter ouvido falar no Google Glass, um par de óculos interativos que projetam nas lentes, a partir de câmeras e gráficos virtuais, informações da ampla base de dados do Google. O conceito ainda não vingou, mas outras empresas já desenvolvem equipamentos semelhantes: a marca de automóveis inglesa Mini, por exemplo, testa um óculos pensado para “aumentar a visão” do motorista enquanto este dirige.

Não se espante se, num futuro não muito distante, o cidadão que comprar o ingresso para uma corrida esteja adquirindo um combo, que dá direito também a um aplicativo para celular ou tablet, a um par de óculos ou qualquer outro dispositivo que lhe dê, por meio de internet sem fio, acesso a informações completas sobre a corrida, como classificação, gráficos, conversas via rádio e muito mais.

Quem sabe, com o tempo, o fã do automobilismo não possa unir a paixão de presenciar uma corrida pessoalmente com a conveniência de receber tudo mastigadinho, como na TV. Esse é o grande sonho. Transformar os carros em painéis ambulantes é só o começo.

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.