Intensa preparação na base tirou surpresas dos novatos na F1

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Nem todos os pilotos novatos que chegam à F1 possuem uma estrutura de apoio de grandes programas de formação de equipes da categoria. E o artifício tem se mostrado cada vez mais importante na preparação para que estes jovens cheguem ao Mundial mais preparados e com menos sofrimento para o último degrau na longa escada do automobilismo.

Nos últimos anos, alguns nomes se tornaram exemplo não só de precocidade na entrada para a F1, mas também ao de cara demonstrarem um bom desempenho quase que imediatamente. Max Verstappen é notoriamente um dos destaques, porém, outros estão repetindo seu caminho de alguma forma.

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Trabalho intenso nos simuladores é uma parte importante, porém, os times também investem em preparação física e principalmente mental de seus jovens pilotos. Os principais nomes são acompanhados desde que entram nos programas por psicólogos, preparadores físicos e nutricionistas. Acabou o tempo de um novato sentir o peso de um carro de F1 em suas primeiras corridas ou se assustar com o avanço da mídia e de patrocinadores.

Charles Leclerc teve sua formação nas categorias de base pela Academia Ferrari. Ele chegou à F1 em 2018 e logo começou a demonstrar bons resultados ao liderar o time dentro da pista. A marca italiana então o alçou logo em sua segunda temporada em sua equipe e ele não vem decepcionando. Com alguns altos e baixos, como já era de se esperar, ele é o piloto de 2019 com mais pole positions (sete) e conquistou duas vitórias contra uma de seu companheiro de equipe, o tetracampeão Sebastian Vettel.

Questionado pelo Projeto Motor se algo neste processo todo de entrada na F1 o surpreendeu, ele admitiu que o número de pessoas trabalhando na equipe é a única coisa que o chamou a atenção, pois em termos de trabalho com carro e engenheiros, o tempo com a Ferrari antes de entrar no Mundial o preparou para o que ele teria que enfrentar.

“Acho que não me surpreendi com muitas coisas porque estava na Academia Ferrari e eles me prepararam muito bem para a F1. Provavelmente a quantidade de pessoas que trabalham em dois carros, achei uma loucura. É muito mais do que nas categorias de base. Isso é uma das coisas”, disse.

Charles Leclerc completa em 2019 sua segunda temporada na F1
Charles Leclerc completa em 2019 sua segunda temporada na F1, primeira pela Ferrari (Foto: Ferrari)

O monegasco lembrou que viverá para 2020 uma situação inusitada. Após subir ano-a-ano de categoria, e trocar de equipe na F1 logo ao final de sua primeira temporada, a continuidade na Ferrari significa que ele poderá desenvolver um trabalho de desenvolvimento que ainda não teve chance.

“A evolução nos últimos dois anos tem sido muito boa. Mas ainda tenho muito que melhorar. Essa será a primeira vez, acho que desde os tempos do kart, que eu vou ficar na mesma equipe de um ano para o outro. Então, será muito interessante ver o que eu levo de um ano para o outro. Como vamos conseguir desenvolver o carro no longo prazo. Isso será interessante.”

Novatos na F1 em 2019

A F1 teve a entrada de alguns novos pilotos nesta temporada que chamaram a atenção. Alex Albon na Toro Rosso e depois Red Bull, Lando Norris na McLaren, George Russell na Williams e até mesmo Antonio Giovinazzi na Alfa Romeo. O italiano já tinha participado de dois GPs em 2017 em substituição a um lesionado Pascal Wehrlein, mas só agora teve a oportunidade de uma temporada completa.

“Aprendi que F1 não é fácil”, diz na conversa com o Projeto Motor, com um sorriso no rosto. “A experiência faz diferença. Se eu olho como estou hoje e como estava em Melbourne, sou completamente diferente sobre como eu abordo o final de semana. Eu já tinha pilotado antes, mas agora estando a temporada toda, é bem diferente. Agora sei como o final de semana segue e isso tudo deixa tudo muito mais fácil”, continua.

Depois de muito tempo de espera, a Ferrari promoveu Giovinazzi a piloto titular na Alfa Romeo em 2019
Depois de muito tempo de espera, a Ferrari promoveu Giovinazzi a piloto titular na Alfa Romeo em 2019 (Foto: Alfa Romeo)

Nenhum dos pilotos se mostrou muito surpreso com o que enfrentou na F1 até o momento, mas admitiram que as demandas fora da pista são as maiores. Preparados pelas suas equipes para o que enfrentariam dentro da pista e até do lado psicológico em relação à pressão enfrentada na categoria, eles admitem que os compromissos podem ser um pouco extenuantes.

“O quão pouco tempo que tenho em casa. Acho que é maior coisa”, afirmou Norris sobre a maior exigência. “Todo resto, pessoas me explicaram antes. Falaram sobre as coisas difíceis, o que eu deveria esperar. Então, nada foi um grande choque. O que acho que foi uma coisa boa para a rotina, que me preparou bem. Não sei. Tem várias coisas que têm sido bem difíceis, mas eu sabia que seriam. Então, nada me surpreendeu tanto”, seguiu o inglês, que participou do programa de desenvolvimento da McLaren e hoje é titular da icônica equipe.

A equipe de Woking tem no seu passado o caso clássico de Lewis Hamilton, que se filiou ao time aos 13 anos de idade e passou por todas as categorias de base até a estreia na F1 com apoio da organização. Depois disso, ela tentou algo parecido com Kevin Magnussen e Stoffel Vandoorne. Agora, ela coloca suas fichas em Norris.

“Acompanhamos ele por três anos nas categorias de base até chegar na F1”, explicou Mark Norris, diretor de operações do time. “Ele teve acesso durante todo este tempo à nossa estrutura na fábrica, a conversas com os engenheiros e outros integrantes da equipe. Ele passou três anos ouvindo e aprendendo para que não houvesse surpresas quando chegasse a sua vez”, seguiu.

Russell, que também desenvolveu um vínculo com a Mercedes desde cedo, na base, é outro que não viu muitas surpresas sobre o que poderia encontrar na F1 além das demandas fora do carro. O britânico estreou em 2019 pela Williams e apesar das dificuldades do time, tem se destacado ao dominar totalmente seu companheiro, Robert Kubica, e até fazer boas provas e classificações. Na Hungria, por exemplo, ele surpreendeu ao levar o fraco carro da equipe ao Q2 e ficar com a 15ª colocação do grid.

George Russell no cockpit da Williams
George Russell no cockpit da Williams, seu primeiro carro de F1 (Foto: Williams)

“Acho que a grande surpresa é o quão congestionado é um final de semana. Você tem uma ideia de quando está no circuito, mas nunca imaginei o quanto seria com o pessoal, imprensa, fãs, sessões de autógrafos, reuniões com a equipe… É tudo sem parar”, apontou.

“Nas primeiras corridas, eu só queria deixar todo mundo feliz. Mas quando eu percebi que é um consumo de energia muito grande, você percebe que tem que manter o foco na pilotagem. Todas essas coisas vêm junto, mas você começa a pensar melhor em como abordar tudo isso para manter seu estado mental e físico”, continuou.

O que eles ainda podem evoluir

Não é porque eles não se surpreenderam com nada que existe algum tipo de conformismo. Norris, por exemplo, explicou que sente a necessidade de ser mais contundente sobre as suas escolhas para o carro.

“Acho que tem muitas coisas que preciso melhorar na minha pilotagem, mas principalmente fora da pista. O meu feedback, desenvolvimento do carro durante o final de semana. Ser mais exigente com os engenheiros. Dizer o que quero do carro, e não apenas perguntar se podemos fazer isso ou aquilo. Acho que melhorei em algumas dessas coisas, mas ainda preciso evoluir mais.”

Lando Norris estreou na F1 em 2019 pela McLaren
Lando Norris estreou na F1 em 2019 pela McLaren (Foto: Mark Sutton/McLaren)

Giovinazzi teve um começou de temporada complicado na Alfa Romeo. O italiano deu a volta por cima na segunda metade do ano e vem conseguindo com alguma regularidade bater o experiente companheiro, Kimi Raikkonen, campeão de 2007. Ele acredita, no entanto, que ainda pode evoluir em termos de ritmo de corrida com questões de melhor administração de pneus e visão estratégica da prova.

“Acho que melhorei muito depois das férias de agosto no ritmo de corrida, em que eu estava sofrendo na primeira parte da temporada. Mas acho que preciso evoluir ainda mais. E isso envolve um pouco de tudo para conseguir um resultado melhor”, apontou, sem esconder o alívio por já ter seu contrato renovado para 2020.

O lado do experiente

Vendo que os mais jovens não se surpreendem mais, o Projeto Motor resolveu fazer a mesma pergunta para o piloto mais experiente do grid: Kimi Raikkonen.

O finlandês, que caso complete seu contrato com a Alfa Romeo em 2020 se tornará o piloto com mais GPs na história da F1, pensou, gaguejou um pouco e respondeu da forma condizente com sua habitual personalidade nas entrevistas.

“São as mesmas pessoas com quem viajo ao redor do mundo, são as mesmas coisas sobre as que falamos. Não vem nada à minha mente de algo ainda me surpreenda.”


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.