Interlagos é bom. Mas já foi um dos circuitos mais legais do mundo

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Todos os anos, a maioria dos pilotos faz elogios ao atual traçado de Interlagos. Nenhum coloca o circuito brasileiro entre os mais legais – normalmente Suzuka e Spa -, mas em geral, as palavras são sempre positivas.

Realmente, a versão atual da pista concede oportunidades de ultrapassagens, principalmente ao final da Reta dos Boxes, na freada do “Esse” do Senna. Só que em comparação com a que existia até 1989, e diferença é muito grande.

Projeto original de Interlagos, com o traçado antigo e projeto para área de estacionamento e até mesmo um estádio
Projeto original de Interlagos, com o traçado antigo e projeto para área de estacionamento e até mesmo um estádio

O traçado que foi abandonado no final dos anos 80 tinha 7.960 metros. Para se ter uma ideia, o atual tem 4.314m. A transformação foi bem grande. E as características também foram bem mudadas. Não que o que temos hoje seja ruim, mas faltam curvas de alta e de raios diferentes.

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Atualmente, o traçado conta com dois pontos de grande aceleração (Reta dos Boxes e Oposta) e um grande miolo mais lento. Algumas tomadas ainda são desafio, como o Laranjinha e combinação do Mergulho e Junção.

Só que o Antigo Interlagos também contava com esses pontos e muito mais. Era um traçado mais desafiador, com curvas de todos os estilos e várias feitas em alta velocidade. Além disso, seu formato permitia ainda o uso do anel externo, algo que seria próximo de um oval de 3,2 km de extensão.

A mudança aconteceu ao final de 1989, quando o Rio de Janeiro desistiu de continuar a sediar o GP do Brasil e logo São Paulo se candidatou para receber a corrida. Entrevistei em 2013, pelo site Tazio, Chico Rosa, administrador de autódromo paulistano por décadas, que contou como Ecclestone topou na hora a proposta de retornar à capital paulista, porém, além de exigir uma reforma na pista, ainda fez algumas exigências por questões mercadológicas por conta do crescimento da Indy.

“Minha proposta era usar a 1, a 2 e fazer um bus stop na 3. Pegar a reta da 4 para a Ferradura e, no meio da reta, fazer um esse de alta e pegar o Laranja como está hoje. Mas o Bernie não queria a 1 e a 2 porque aí ele mantinha a pista externa e ele tinha um receio da Indy. Foi aí que se inventou o Esse do Senna”, explicou Rosa.

(confira a entrevista completa no vídeo abaixo)

O traçado realmente ficou menos desafiador e veloz em relação ao antigo Interlagos. Porém, continuou como um dos destaques do calendário. Um dos motivos, é impossível não admitir, se dá por conta do tempo em São Paulo. Tanto em março, quando a corrida acontecia até há alguns anos, quanto novembro, a chuva sempre é um fator que pode surgir na corrida.

 

O outro, como o próprio Chico Rosa lembrou, é uma mudança das pistas pelo mundo, principalmente as que recebem a F1, que descartou os traçados com características mais “insanas” e “perigosas”, além de excluir os circuitos muito longos, inclusive com obras em ouros autódromos, como Hockenheim, Silverstone, antigo Osterreichring e, mais recentemente, o Autódromo Hermanos Rodríguez.

“[Interlagos] Demanda menos dos pilotos do que era antes. Mas em compensação, a evolução do automobilismo começou a correr para as pistas que o [Hermann] Tilke fez, que são completamente sem graça. São todas no plano… Interlagos, então, sobrou junto com Spa e Suzuka como as três pistas interessantes do mundo, pelo ponto de vista dos pilotos”.

Uma reversão ao antigo Interlagos é improvável, se não for impossível. Importante admitir que, dentro da estrutura do autódromo e de seu terreno, espremido no meio de um bairro populoso, dificilmente seria possível atender às regras de segurança, com boas áreas de escape, entre outros.

Nos últimos anos, muitos estudos foram realizados para que pelo menos parte do traçado tradicional voltasse a ser utilizado, mas os projetos nunca realmente caminharam. Uma grande reforma nos boxes aconteceu nos últimos dois anos e a expectativa agora é do que será do Autódromo com os planos do prefeito eleito de São Paulo, João Dória Jr, que promete privatizar por completo o complexo.

De qualquer maneira, fica a história.

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Marcelo Carvalho de Freitas

    Primeiro GP Brasil sem o Senna foi em 94 e não em 95, né gente.

  • Gustavo Segamarchi

    Seria um sonho se retornasse o antigo traçado de Interlagos, ou pelo menos parte dele.

    Mas, como está escrito na matéria, atualmente está meio impossível de isso acontecer.

    Ao ver que o Tio Bernie ficou com medo da Indy naquela época, eu até me espantei, mas o próprio projeto motor já fez umas análises explicando que justamente nesse período, a Indy(Na época acho que era CART) chegou a ameaçar a F1, e realmente, uma época em que a Indy(CART) era muito melhor do que é hoje.

    O medo da FIA é o maior responsável por termos circuitos encurtados e também mutilados, como é o caso de Hockenheim. Aliás, pediram para o Tilke assassinar a saudosa Hockenheim.

    Me dá uma angústia tremenda olhar essa foto e ver que Hockenheim é só aquele pedacinho :-(

    http://www.f1i.com/wp-content/uploads/2013/12/Hockenheim-copie.jpg

    • Leandro Farias

      Tilke mais cumpre ordens do que qualquer outra coisa. Os assassinos de Hockenheim foram os ambientalistas politicamente corretos que mandaram mudar aquele trecho!

  • Dox

    Considero o traçado antigo de Interlagos um dos 5 melhores do mundo.
    Digo isso para não ser bairrista, pois na verdade eu o acho o melhor.
    Fazer um miolo forrado de curvas de raios e arcos variados para depois cravar o pé num oval de 3,2km não tem preço.
    Alem de pilotar, ainda há o desafio de achar aquele acerto para estas situações.
    Acho, sim, que daria para ressucitá-lo com o que foi gasto num estádio da Copa.

  • Pablo Habibe

    Eu ainda acho Interlagos bem perigoso no trecho da Junção até o esse do Senna. Essa parte da pista poderia receber os muros usados nos ovais americanos, com sistemas de absorção de impacto. No mais, são os carros que tem de ficar mais seguros.

    Se desse para usar esse tipo de muro em todo o anel externo, a pista antiga poderia ser usada para provas de turismo. Mesmo assim, acho que a “bus stop” antes da curva três teria de ser usada em nome da segurança. Com ela ou não, seria o oval mais desnivelado do mundo e muito interessante.

    Se os boxes e o resto da estrutura em torno fosse transferido para a a reta entre a subida do Lago e a Curva do Sol, seria removido o maior obstáculo para o retorno do Interlagos antigo.

    Hoje em dia, quem curte as pistas clássicas tem de torcer para que elas fiquem longe da F1, que vem desfigurando ou destruindo completamente essas preciosidades desde os anos 80…

    • Dannny369

      Verdade. Veja o que já vão fazer em Monza para o ano que vem.

  • Luiz S

    Essa do tio Bernie ter cagaço da Indy é de doer.

    • Leonardo Louzeiro

      na época não era não, Indy era fortíssima, pau a pau com a NASCAR

      • MPeters

        Na verdade, mais forte que a NASCAR, ela perdeu muita popularidade quando ocorreu a cisão.

      • Luiz S

        Eu lembro Leonardo, mas sei lá, podia fazer um contrato vetando a Indy em Interlagos e manter as curvas 1 e 2, que eram bem legais. Cheguei a ver a stock no circuito antigo

        • Jota De

          Havia uma categoria chamada Turismo 5000… eram os Galaxie’s, Dodge’s Dart/Charger, Maverick’s, e um ou outro Opala ou algum importado… rodavam no externo, meio alucinados. Acidentes entre a 1 e a 2 eram frequentes.

          Em outro site descreveram o S do Senna como lendária… mas lendárias mesmo eram a 1, a 2, e a 3 do circuito antigo…