Quatro Rodas

Jim Clark: como um filho de fazendeiros se tornou um dos gigantes da F1

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Era 7 de abril de 1968. Em uma chuvosa Hockenheim, é realizada a etapa de abertura do Campeonato Europeu de F2, que contava com alguns dos nomes de maior prestígio do automobilismo do Velho Continente. Jean-Pierre Beltoise triunfa na primeira bateria, seguido de perto por seu compatriota Henri Pescarolo. Mas isso ficou em segundo plano: um acidente grave na quinta volta entraria para a história das corridas. Jim Clark havia morrido.

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A tragédia envolvendo o escocês, um dos pilotos mais cultuados de todos os tempos, representou um verdadeiro choque, mesmo que, àquela época, fatalidades em corridas de carro fossem relativamente corriqueiras. Visto com os olhos de hoje, o automobilismo daqueles tempos parecia uma verdadeira carnificina.

Contudo, Clark havia atingido tal patamar de excelência que fazia com que as pessoas, de forma inocente, o vissem como imune aos perigos que acometiam os outros “meros mortais”. Mas a realidade foi cruel: o bicampeão mundial de F1 e detentor dos principais recordes da categoria, que gozava de plena forma física e técnica aos 32 anos de idade, partiu impiedosamente em um piscar de olhos.

Clark

Até atingir uma reputação quase que divina, o piloto teve uma origem incomum. James Clark Jr, filho de donos de uma fazenda de ovelhas no interior da Escócia, flertou com o automobilismo ainda jovem e passou a se envolver em competições por influência de um amigo, também vindo de um lar de fazendeiros.

A princípio, a família Clark não via com bons olhos o hobby perigoso (e caro) do único filho homem da casa. Porém, seu talento natural ao volante o fez insistir mais na paixão: passou por competições locais e nacionais até chegar, em 1959, em sua primeira prova de maior notoriedade, as 24 Horas de Le Mans.

Nesta época, também participou da corrida Boxing Day, em Brands Hatch, quando viu seu caminho se cruzar na pista com o de Colin Chapman, que viria a se tornar seu grande aliado na carreira. Naquele dia, em uma curta prova de GTs, Clark vinha liderando e abrindo vantagem, mas foi atrapalhado por um outro carro que rodou à sua frente, o que o fez ser superado por seu futuro patrão.

Entretanto, a habilidade apresentada valeu mais que qualquer resultado. Chapman foi atraído pelo jovem e tímido escocês e o trouxe para debaixo de suas asas. Era questão de tempo até que a combinação Jim Clark/Colin Chapman/Lotus debutasse na F1.

PARÂMETRO DE EXCELÊNCIA

Jim Clark, sempre com sua Lotus, em busca de mais uma vitóriaPor ter chegado à F1 ainda inexperiente, em 1960, levou certo tempo para que Clark conseguisse converter sua aptidão em resultados. Só que, a partir do momento em que deu o salto para protagonista, os resultados foram assustadores.

Ao todo, foram acumuladas 25 vitórias e 33 pole positions, o que colocou o escocês no posto de recordista de sua época. Junta-se à conta o número de hat-tricks(pole, vitória e volta mais rápida, também antigo recorde) e de Grand Chelems, com oito, algo que permanece inalcançado até hoje. O nível da concorrência também não deve ser ignorado – afinal, Clark dividiu a pista com gente do calibre de Graham Hill, Bruce McLaren, John Surtees, Dan Gurney, Jackie Stewart, entre outros.

Clark Lotus
Chapman e Clark: uma das parcerias mais eficazes da história

Evidentemente, as máquinas desenvolvidas pelo também genial Chapman eram a plataforma perfeita para que Clark mostrasse a que veio. O escocês era dotado de uma tocada precisa, suave e absurdamente veloz, de modo que, mesmo sendo competitivo, ele se envolveu em raros acidentes em sua carreira – um deles, diga-se, foi a tragédia de Monza-61, que vitimou o postulante ao título daquele ano, Wolfgang Von Trips, e mais 15 torcedores. O episódio assombrou Clark por um bom tempo.

Em seus dois títulos mundiais, Clark foi avassalador. Em 63, com o Lotus 25-Climax, venceu sete de dez corridas e marcou 100% dos pontos possíveis, já que o regulamento previa quatro descartes. O ponto alto da campanha (e uma das melhores atuações individuais de sua carreira) veio em Spa-Francorchamps, quando, sob um dilúvio, largou em oitavo, assumiu a ponta ainda na primeira volta e venceu com quase cinco minutos de vantagem para o rival mais próximo, Bruce McLaren.

Contudo, foi em 65 que Clark atingiu seu estado de graça. Desta vez majoritariamente com o Lotus 33-Climax, marcou mais seis vitórias com requintes de crueldade, o que novamente possibilitou que fossem alcançados todos os pontos possíveis na campanha.

"Ano perfeito" em 65 alçou Clark a status de celebridade
“Ano perfeito” em 65 alçou Clark a status de celebridade

Naquele ano, Clark se ausentou do GP de Mônaco por um motivo especial: embarcou, ao lado de Chapman, na aventura de cruzar o Atlântico e domar as 500 Milhas de Indianápolis. O resultado novamente foi um massacre: deixou para trás ninguém menos que AJ Foyt, liderou 190 de 200 voltas e fez história.

Isso, aliás, simboliza uma das grandes virtudes que explicam o fascínio em torno de Clark. É verdade que era hábito da época que os pilotos, mesmo os mais renomados, se aventurassem em outras categorias – por necessidade financeira ou pelo puro prazer de guiar. Contudo, a tocada versátil do escocês também trazia sucesso nos lugares pelos quais passava, seja em outras provas da USAC, na Tasman Series, F2 ou em categorias de turismo.

O que torna a questão ainda mais intrigante é a impressão de que, por detalhes do imponderável tipicamente do automobilismo, Clark poderia ter um currículo ainda mais notório. Os conjuntos desenvolvidos por Chapman podiam se mostrar velozes na mesma medida que eram frágeis, o que trouxe consequências em campanhas potencialmente fortes do escocês.

Em 62, por exemplo, Clark liderava na África do Sul e rumava para uma vitória que consequentemente lhe daria o título, mas um vazamento de óleo interrompeu qualquer sonho com a taça. Dois anos depois, novo drama vivido na decisão, no México, quando viu um problema mecânico abrir caminho para o triunfo de John Surtees nas voltas finais.

Já em 67, o potencial ficou exposto por ter sido, de longe, o piloto que mais registrou poles, vitórias, melhores voltas e quilômetros na liderança. Entretanto, a falta de confiabilidade foi novamente o calcanhar de aquiles, o que, dizia-se, começava a abalar a confiança do escocês no trabalho desenvolvido por Chapman.

Neste aspecto, a temporada de 68 era uma oportunidade valiosa. Depois de fechar a campanha anterior com duas vitórias, Clark abriu o novo ano com mais um triunfo com seu Lotus 49, na África do Sul. Além e colocar o piloto de forma isolada na ponta do livro dos recordes, deixando para trás as 24 conquistas de Juan Manuel Fangio, o resultado era o presságio de um campeonato verdadeiramente competitivo.

Foi quando veio a fatídica corrida de F2 em Hockenheim. Clark partiu da sétima posição e tentava se sobressair no pelotão em um traiçoeiro asfalto molhado. Na quinta volta, o Lotus 48-Ford escapou quando se aproximava da Ostkurve, trecho pelo qual os carros passavam a aproximadamente 240 km/h, e foi em direção à parte externa.

Configuração de Hockenheim na época da morte de Clark
Configuração de Hockenheim na época da morte de Clark

Não havia guard-rails de proteção, de modo que o carro mergulhou com tudo nas árvores da famosa floresta. O Lotus, com sua nova pintura do patrocínio da Gold Leaf, virou metal retorcido, despedaçado após o impacto. Clark não resistiu. 50 anos após o ocorrido, a teoria que ainda é a mais aceita é de que houve um furo em um pneu que provocou a escapada.

Foi mais um lembrete, da pior forma possível, de que o automobilismo era cruel sem distinção entre gênios e novatos que são pegos no contrapé da inexperiência. Clark, afinal, teve de conviver com a morte desde suas primeiras provas na F1, incluindo com a fatalidade um companheiro de equipe. Desta vez, na Alemanha, a vítima foi si próprio.

O que seria de Clark (e da F1) se o desfecho de 7 de abril de 68 não fosse trágico? O escocês engataria mais e mais conquistas e ampliaria seu legado? Ou, na verdade, como alguns suspeitavam, a aposentadoria já se aproximava? Infelizmente, nunca saberemos. Entretanto, a sua história exatamente como foi, com seus prós e contras, foi suficiente para alçá-lo ao grupo mais exclusivo das lendas das pistas, em um legado que permanece vivo meio século após sua despedida repentina.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.