Jo Ramírez exclusivo: título de Senna e a “conquista do mundo” pela McLaren

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São poucos os que podem se gabar de terem visto com os próprios olhos a história da F1 sendo feita. Jo Ramírez é um deles: em seu longo período como coordenador de operações da McLaren, ele presenciou diversas eras lendárias da categoria, incluindo o início, a ascensão e a explosão da rivalidade entre Ayrton Senna e Alain Prost dentro do time.

O primeiro capítulo disso tudo veio em 1988, quando Senna chegou à equipe e logo de cara desbancou Prost para conquistar seu primeiro título mundial. O processo foi acompanhado de perto por Ramírez, que classificou a temporada como um dos maiores momentos de seu longo envolvimento com o automobilismo.

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Afinal, para o veterano mexicano, a temporada representou muito mais do a coroação de um piloto que dava seu primeiro passo para se tornar um dos maiores da história. A campanha como um todo serviu para evidenciar o poderio da McLaren, que, à época, obteve um dos domínios mais acachapantes e lendários que o esporte já viu.

Ramirez, Gordon Murray e Senna compuseram o Dream Team da McLaren em 88

Ramírez compartilhou suas impressões sobre a época em conversa exclusiva com o Projeto Motor. “Foi provavelmente o melhor ano da minha carreira no esporte”, diz, sem hesitar. “Vencemos 15 dos 16 GPs, com dois pilotos absolutamente fantásticos, e qualquer um deles poderia ter sido campeão. Ayrton venceu oito corridas e Alain ganhou sete, então isso mostra o quão coeso o time estava. Foi um belo ano.”

1988 representou o auge de uma combinação implacável. Além de um Senna faminto pelo estrelato e um bicampeão estabelecido em Prost, a McLaren, liderada por Ron Dennis, também contava com o poderoso motor Honda, um chassi que aplicava com perfeição um conceito inovador e um corpo técnico de primeira qualidade – com gente do calibre de Gordon Murray e Steve Nichols na supervisão de tudo.

Ramírez acrescenta: “Foi bom termos a oportunidade de contar com os dois melhores pilotos do mundo, com um motor magnífico. Tínhamos um bom pacote geral na McLaren, tanto técnica como comercialmente, com o patrocínio da Marlboro. Tudo se encaixou, e é muito difícil ter isso nesse meio. As coisas engrenaram corretamente e não fizemos nada de errado. Por pouco não ganhamos todas as corridas.”

O duelo Senna x Prost

Foi dentro deste cenário que Senna teve sua primeira oportunidade real de ingressar no grupo de campeões mundiais. O terreno estava montado: o conjunto perfeito proporcionou a dois dos grandes pilotos da história a ocasião de um duelo direto e franco. O primeiro capítulo, em 88, foi vencido pelo brasileiro.

Porém, por mais que Senna e Prost viriam a protagonizar uma das rivalidades mais explosivas que o esporte já viu, a primeira temporada da parceria era diferente do que se veria depois.

“Quando Alain tinha o carro perfeito, ninguém podia vencê-lo. Mas um dos pontos fortes de Ayrton é que ele conseguia improvisar. Quando ele não tinha um bom carro, ele mudava sua pilotagem e ajustava sua pilotagem ao carro, e isso dava resultados”, diz Ramírez

Ramírez dá sua visão: “Os dois ainda se davam muito bem [em 88]– se respeitavam pelo que faziam. O ano seguinte começou a dar tudo errado quando Senna descumpriu o acordo em Ímola, mas 88 foi a temporada dos sonhos.”

Um dos aspectos mais fascinantes da rivalidade entre Senna e Prost é o fato de que ela contava com duas figuras altamente habilidosas, mas com estilos de pilotagem contrastantes. Cada um tinha uma vantagem em relação ao outro, e, em 88, foi Senna que conseguiu tirar mais proveito de sua característica.

“Quando Alain tinha o carro perfeito, ninguém podia vencê-lo. Mas o quão frequentemente você tem o carro perfeito? Talvez 10, 15, 20% das vezes? Quando ele tinha, era imbatível”, cita Ramírez.

“Mas um dos pontos fortes de Ayrton é que ele conseguia improvisar. Quando ele não tinha um bom carro, ele mudava sua pilotagem e ajustava sua pilotagem ao carro, e isso dava resultados.”

O mexicano continua: “Alain era um piloto melhor para acertar o carro que Ayrton – Ayrton não mudava muitas coisas. Com certa frequência, quando Ayrton não conseguia usar o acerto correto, ele dizia: “Deixe o carro igual ao de Prost.” Aí ele sabia que conseguiria vencê-lo.”

“Ayrton conseguia explorar a potência do motor melhor do que Alain, que não conseguia fazer igual. Era incrível – Ayrton mantinha sempre a rotação alta, e Alain não conseguia repetir isso nas curvas. Essa era a maior diferença em classificação entre os dois.”

“Mas era bom demais, porque ficávamos encantados em ver como ambos lutavam, com Ayrton à frente em algumas vezes, com Alain em primeiro em outras. Foi um ótimo ano.”

No primeiro capítulo da épica batalha, Senna se sobressaiu. Na penúltima prova da temporada, no dia 30 de outubro de 1988, o futuro tricampeão teve uma das atuações mais inspiradas de sua vida em Suzuka para colocar os pés no olimpo do automobilismo.

Para Ramírez, aquela campanha também representou o ápice. Absolutamente ninguém no mundo teria imaginado que venceríamos tanto assim. Nós conquistamos o mundo. Eu sempre me cutucava para me dar conta de que eu vivi de perto com duas lendas do automobilismo.”

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.