Le Mans 1966: a prova banhada a vingança e com final polêmico

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Apesar de dominada por um modelo, o Ford GT, a edição de 1966 das 24 Horas de Le Mans tem uma história daquelas que entram para o rol de romances do automobilismo. Tanto que um filme produzido em Hollywood será lançado em novembro de 2019 baseado nos fatos que levaram a esta corrida e com o apelativo nome “Ford vs Ferrari”.

 

 

 

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Com certeza falaremos mais deste filme aqui no Projeto Motor durante o ano e mais próximo de seu lançamento, mas aproveitando a semana de Le Mans, vamos contar aqui por que esta prova ficou tão marcada na história do evento.

Tudo começou três anos antes, em 1963, quando o proprietário da Ford, Henry Ford II, ficou sabendo que Enzo Ferrari estava pensando em vender sua marca de carros de rua. O americano logo se interessou pelo negócio, abordou o italiano e gastou alguns milhões com advogados e contadores realizando auditorias e tudo mais que é preciso para uma aquisição deste nível.

Só que na fase final de negociações, Ferrari começou a mostrar alguma insatisfação. O italiano queria manter total controle sobre a equipe de competição, só que a Ford queria colocar no contrato que ele não poderia correr nas 500 Milhas de Indianápolis, já que a marca americana não o queria como competidor por lá.

Ferrari resolveu então cancelar o negócio e deixou Ford furioso e sedento por uma vingança que desse uma lição no italiano. E ele logo viu que o que mais doeria em seu – agora – rival seria uma derrota dentro de uma pista de corrida, preferencialmente na Europa. Como a escuderia de Maranello vinha dominando Le Mans no início dos anos 60, ficou claro para Ford que um triunfo retumbante na prova de Sarthe teria um bom retorno de marketing para sua empresa e ainda um tapa de luva de pelica na Ferrari.

Sendo assim, a Ford começou a correr atrás de um parceiro para desenvolver seu novo carro na Europa e entrou em negociações mais avançadas com Lotus, Lola e Cooper. A primeira já era uma parceira dos americanos em outras categorias, mas o proprietário Colin Chapman não se empolgou muito com a ideia. Além de temer perder o foco de sua equipe em seus projetos principais, como a F1, ele teve tinha dúvidas se tinha a estrutura adequada. Assim, pediu um preço alto demais que lhe seria obviamente negado, além de exigir que o futuro carro fosse batizado de Lotus-Ford. A Cooper não tinha experiência com carros GT e protótipos, então, acabou sendo descartada pelos próprios executivos da Ford.

A escolhida acabou sendo a Lola, de Eric Broadley, que vinha crescendo bastante no mercado europeu como construtora tanto de monopostos como carros-esporte, e que já vinha trabalhando com motores Ford em seu Mk6. No entanto, o acordo costurado excluiu a empresa Lola, se tornando uma parceria direta da Ford com Broadley, que supervisionaria o desenvolvimento do novo modelo e teria o compromisso com os americanos apenas por um ano.

O Lola MK 6 foi a base do projeto do Ford GT

Broadley ainda contratou o engenheiro John Wyer, ex-Aston Martin, e a Ford enviou a Inglaterra um técnico próprio, Roy Lunn, para participar da empreitada. A base do modelo seria o próprio Lola Mk 6. Para se ter ideia da preocupação de Henry II com o projeto, a empresa abriu uma nova subsidiária no Reino Unido, a Ford Advanced Vehicles Ltd, exclusivamente para administrar tudo que envolvia a campanha.

O primeiro carro já ficou pronto e foi exibido ao público em abril de 1963, poucos meses depois da controvérsia entre Ford e Ferrari, e foi batizado de Ford GT/101. A estreia nas pistas do modelo aconteceu mais de um ano depois, após intenso trabalho de desenvolvimento, nos 1.000 Km de Nurburgring de 64. O resultado acabou não sendo muito animador, com uma quebra de suspensão, apesar de boa velocidade.

Três semanas depois, o Ford GT, carinhosamente chamado por muitos de GT 40 por conta de sua altura de 40 polegadas (1,02m), foi para Le Mans em sua primeira tentativa de bater a Ferrari. Um dos modelos até liderou a corrida no primeiro trecho da prova, mas no final das contas, os três carros inscritos pela marca acabaram abandonando. Na frente, a Ferrari terminou com as três primeiras posições, sendo com dois participantes da equipe oficial da marca.

A rivalidade entre Ferrari e Ford foi a grande motivação das marcas, principalmente a americana, em Le Mans 1966

O carro continuou competindo na temporada internacional de endurance com resultados muito longe dos esperados. Foi então quando a Ford resolveu colocar outro nome no comando do projeto: Carroll Shelby. Ex-piloto, o texano estava ganhando espaço no automobilismo americano como projetista e desenvolvedor de carros de competição.

Sob seu comando, veio a primeira vitória do modelo: na Daytona 2.000 de 1965, com os pilotos Ken Miles e Lloyd Ruby. Um mês depois, Miles e Bruce McLaren ficaram em segundo nas 12 Horas de Sebring. Porém, nada de triunfos fora dos Estados Unidos.

Mesmo assim, Shelby seguiu com o desenvolvimento para 66 da evolução do modelo, conhecido como Ford GT Mk II, usando um motor de 7 litros. O novo carro venceu as 24 Horas de Daytona (a primeira no formato de 24 horas do evento), as 12 Horas de Sebring e, desta vez, chegou como um dos favoritos a Le Mans.

Tradicionalmente, o Clube D’Oeste, organizador das 24 Horas de Le Mans, tem um convidado especial para dar a largada da prova. Desta vez, a pessoa chamada foi simplesmente Henry Ford II, o que tornava a ocasião ainda mais especial para a marca americana em território europeu.

A Ford levou sete Ford GTs para Le Mans em 1966, sendo cinco correndo sob a bandeira oficial da marca

Equipes e pilotos foram surpreendidos por uma garoa que começou a cair instantes antes da largada. Assim, logo nas primeiras voltas os carros tiveram que ir aos boxes para trocas de pneus, causando uma confusão na classificação. Algumas horas depois, a chova apertou e causou tensão ao cair da noite.

Aos poucos, os principais concorrentes começaram a sofrer com problemas, principalmente as novas Ferrari 330 P3, que tiveram superaquecimento e abandonaram. O Chaparral 2D, que fez um bom início de prova, também ficou pelo caminho e na metade da corrida os Ford GT já dominavam as quatro primeiras posições.

A dupla formada por Dan Gurney e Jerry Grant estava na ponta quando a equipe mandou os Ford começarem a diminuir o ritmo para garantir o resultado, porém, Ken Miles e Denny Hulme, no outro Mk II, não obedeceram e seguiram apertando o ritmo em busca da vitória. Os líderes acabaram abandonando a prova por conta de uma junta do motor que estourada, o que começou a causar apreensão entre os integrantes da Ford.

No trecho final da prova, vendo que a vitória estava no papo, a equipe, querendo usar a ocasião como publicidade, questionou os comissários da ACO se seria possível causar um empate entre seus carros ao cruzarem a linha de chegada. A resposta foi que o regulamento previa que neste caso, o carro que tivesse largado mais atrás no grid seria declarado vencedor por ter andando uma quilometragem maior.

Mesmo com a resposta, querendo uma foto histórica, o chefe da equipe, Leo Beebe, ordenou Miles e McLaren a cruzarem juntos a linha de chegada, o que significaria que o primeiro teria que abrir mão da vitória.

Decisão da Ford acabou tirando a vitória de Miles e Hulme

Assim, a Ford conseguiu sua foto e a dupla neozelandesa Brunce McLaren e Chris Amon ficou imortalizada pela conquista da vitória por terem largado 20 metros atrás de Miles e Hulme, que lideravam a corrida até então. Miles, para mostrar que não estava conformado com a decisão, ainda tirou um pouco o pé na chegada para os carros não chegarem totalmente juntos, dando uma cutucada em seus chefes.

O inglês ficou tão frustrado com a decisão e que chegou a fazer um protesto formal contra a própria equipe, que foi rejeitado pela ACO. Além de perder a vitória de Le Mans, ele deixou passar a chance de ser o primeiro piloto da história a vencer a prova de Sarthe, Daytona e Sebring (as três maiores corridas do endurance mundial) no mesmo ano, algo que até hoje nunca foi realizado. O inglês acabou morrendo em um acidente apenas dois meses depois quando testava uma evolução do GT 40.

O Ford GT ainda venceria mais três vezes as 24 Horas de Le Mans de forma consecutiva até 1969 com evoluções do modelo, cumprindo a missão do projeto.

Além do filme a ser lançado, a história também foi contada no livro “Go Like Hell”, de 2009, e no documentário “A Guerra de 24 Horas”, de 2016.

 


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.