Crise com promotores, TV e futuro: por que 2019 será decisivo para o Liberty na F1

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Proprietário dos direitos comerciais da F1, o grupo Liberty Media terá pela frente o ano mais desafiador desde que assumiu o controle total da categoria, em janeiro de 2017. Afinal, houve tempo suficiente para apresentar alguns resultados concretos do trabalho já realizado, enquanto que, ao mesmo tempo, precisa lidar com a necessidade de definição sobre aspectos futuros da F1 que antes estavam amarrados contratualmente pela gestão anterior.

A temporada de 2021 foi estabelecida há tempos como o ponto chave para as mudanças nas entranhas da F1. Se trata do primeiro ano após o término do atual Pacto de Concórdia, que é o acordo entre categoria e equipes que estabelece todas diretrizes comerciais e técnicas do Mundial. Então, será a oportunidade para que o Liberty aplique de forma mais certeira sua visão geral para a categoria.

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Até então, o grupo liderado por Chase Carey, Sean Bratches e Ross Brawn somente teve poder de atuação em assuntos periféricos da F1, especialmente no que diz respeito a divulgação, marketing e mídias. E o contraste em relação ao que era feito anteriormente é visível: a F1 saiu de seu isolamento e se aproximou mais das pessoas, enquanto que, no campo digital, investe mais em produção de conteúdo original, com vídeos e reportagens especiais em seu canal no YouTube, um podcast oficial, uma nova plataforma de streaming (falaremos dela mais abaixo) e shows feitos sob medida para redes sociais. O trabalho feito em eSports também é tido como uma ferramenta importante para a atração e manutenção de uma nova fatia de público.

Em relatório divulgado no começo de 2019, a própria categoria se mostrou satisfeita com o trabalho feito nesta frente. Ela cita um crescimento na “base de fãs”, subindo de 503 milhões para 506 milhões. Mais importante que isso: 205 milhões destes fãs estão abaixo dos 35 anos de idade, sendo que 62% do total tem 45 anos ou menos. Ainda de acordo com a F1, isto a coloca em pé de igualdade com outras grandes ligas esportivas do mundo, como NFL, NBA e a elite do tênis, com idade média de público de 39 e 40 anos.

 “Em 2018, o número de usuários das plataformas de mídias sociais da F1 cresceu significativamente, com o número total de seguidores no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube chegando a 18,5 milhões (53,7% mais do que em 2017), confirmando a F1 como o esporte de grande projeção que mais cresce nas plataformas de mídias sociais”, continua o relatório

São números importantes, o que também ajuda a espantar a pecha de que a F1 é esporte de gente velha. Por outro lado, é válido ponderar que tal crescimento já era previsível: a categoria por muito tempo assumidamente deu de ombros para divulgação em mídias sociais, de modo que o Liberty, ao realizar um arroz com feijão de maneira correta nesta área, possibilitou que os números disparassem e fizessem um pouco mais de jus ao alcance da F1.

Chase Carey, diretor executivo da F1 (Aron Suveg/Red Bull Content Pool)

Além disso, a linguagem adotada pela F1 em sua comunicação indica uma preocupação maior em esclarecer alguns dos meandros técnicos das corridas. Isso vai desde a formulação dos gráficos de televisão que detalham estratégias dos pilotos até as mensagens de rádio ou o novo (e menos complexo) método de identificação dos tipos pneus em um fim de semana. O desejo em usar inteligência artificial para facilitar essa linguagem audiovisual é mais um passo rumo a uma F1 mais intuitiva, e, consequentemente, mais atrativa a um novo público.

A estratégia de comunicação parece caminhar bem, você pode pensar. Mas o desafio como um todo por parte do Liberty envolve outros aspectos que terão de ser considerados com certa dose de urgência.

Liberty sem tempo a perder

2021 é um marco importante para as pretensões do Liberty, de modo que o grupo não quer perder tempo para fazer mudanças. Há algumas pautas já conhecidas publicamente que são desejo dos proprietários, como o teto de gastos, uma remodelação na fórmula de distribuição financeira entre as equipes, além do regulamento técnico em si – que, para o público, ainda não foi além de algumas artes conceituais divulgas de forma não intencional no ano passado.

Para conseguir aprovar todas suas agendas e ao mesmo tempo agradar a gregos e troianos, o Liberty terá de mostrar uma grande habilidade de bastidor. No entanto, o grupo falhou em fazer caminhar sua proposta de regulamento de motores para 2021, e a pouca velocidade com que as demais pautas avançam faz ligar o sinal de alerta.

Tal cenário cria uma situação de total impasse. Ninguém sabe ao certo como serão as diretrizes básicas da F1 de 2021 para frente, sendo que nem mesmo está garantida a participação das equipes. E, para piorar, outras partes que vinham discretas no debate público decidiram colocar a boa no trombone.

Na noite de 28 de janeiro, a Associação dos Promotores de corridas da F1 (FOPA, da sigla em inglês) bateu forte na gestão do Liberty Media e em sua postura diante da (in)definição do futuro da F1.

A FOPA conta com a participação de promotores de 16 GPs do calendário (Austrália, China, Azerbaijão, Espanha, Canadá , França, Áustria, Grã-Bretanha, Alemanha, Hungria, Bélgica, Itália, Singapura, México, Estados Unidos e Brasil), e seu comunicado levantou preocupações em três principais pontos da categoria na atualidade:

1) Não é do interesse de longo prazo do esporte que os fãs percam acesso gratuito a conteúdo e transmissões;

2) Há uma falta de clareza sobre as novas iniciativas da F1 e a falta de engajamento com os promotores para sua implementação;

3) Novas corridas não deveriam ser introduzidas em detrimento dos eventos existentes, apesar de que a FOPA está encorajada pelos modelos de negócios alternativos que estão sendo oferecidos aos possíveis novos eventos.

Um dos promotores que se expressaram publicamente sobre o assunto foi Stuart Pringle, da etapa inglesa, que classificou a estratégia do Liberty como “desarticulada”, o que, ainda segundo suas palavras, deixa todos descontentes.

Promotor do GP da Grã-Bretanha criticou duramente o Liberty (James Moy/Force India)

É válido ponderar que a FOPA foi formada com a bênção de Bernie Ecclestone para fazer um contraponto ao crescente poder obtido pelas equipes na tomada de decisão dos rumos da categoria. A proximidade com o antigo chefão da F1 pode explicar por que o posicionamento tão contundente da FOPA veio a público só agora, até porque alguns dos pontos de queixa são resquícios da própria gestão Ecclestone.

Das 21 provas confirmadas para 2019, apenas Bélgica, Suzuka (que não faz parte da FOPA) e Alemanha negociaram seus acordos já na fase Liberty Media. Todos os outros tiveram de lidar com Ecclestone. Então, não há mais a mesma familiaridade de negociação e de barganha que havia antigamente com o já deposto mandachuva.

De qualquer forma, a FOPA levantou três pontos importantes para a F1 no momento. Como o segundo se trata de um impasse já mencionado, analisaremos o que está por trás do primeiro e do terceiro.

Televisão aberta, fechada ou online?

Naquele mesmo relatório divulgado pela F1 citado anteriormente, mencionou-se um aumento na audiência televisiva total em 2018 em relação a 2017, saltando de 1,755 bilhão para 1,758 bilhão. Brasil, China e Estados Unidos, nesta ordem, são citados como “os mercados mais populares” da F1 pela TV.

No entanto, a audiência ao vivo das corridas sofreu uma leve queda parcialmente graças à Itália, que deixou as transmissões abertas para se dedicar a um modelo pago. Ponto para o argumento da FOPA.

A F1 tem seguido caminhos distintos no modelo de transmissão de TV em algumas praças importantes. A Itália vê as corridas ao vivo somente em televisão fechada, com exceção do GP em Monza. A Inglaterra terá formato semelhante em 2019: em contrato firmado ainda com Ecclestone, a Sky Sports, emissora paga, passará todas as provas, sendo que o Channel4, aberto, terá direito somente à corrida de Silverstone e aos melhores momentos em horário alternativo.

Em contrapartida, a China estourou seus números de audiência ao entrar na emissora aberta CCTV. A Alemanha também fugiu da TV paga e está com exclusividade na abrangente RTL.

É uma situação com a qual a F1 ainda não descobriu totalmente como lidar. A ida a canais fechados aumenta a entrada de dinheiro na categoria, uma vez que tais emissoras colocam à mesa propostas polpudas para transmitir as corridas – e a verba proveniente dos direitos de transmissão é uma das principais fontes de renda da F1. Por outro lado, isso também tende a provocar um abalo nos números de audiência, o que pode afugentar patrocinadores e impactar nas vendas de ingressos das provas – daí a preocupação dos promotores.

Estima-se que o canal fechado Sky Sports pagou US$ 150 milhões para transmitir com exclusividade a F1 em 2019 na Inglaterra. Este valor pago é 43% maior do que nos moldes de 2018, que previa a divisão das transmissões entre a Sky e a TV aberta Channel4

Neste amálgama de fatores, a F1 dá indícios de querer chegar a um modelo “híbrido”: parte das corridas em TV aberta, parte em emissoras fechadas e parte em seu próprio sistema de streaming. A transmissão online, aliás, foi um fator decisivo para a saída das corridas de F1 da emissora NBC Sports nos Estados Unidos, já que a categoria não queria abrir mão da implementação da F1 TV em território americano – e a NBC não queria ter a concorrência da própria F1 pela audiência das provas. Ou seja, isso mostra que a nova plataforma online faz parte da estratégia de longo prazo da categoria. O sistema de transmissão “híbrido” tem trazido resultados em outros esportes, de modo que a F1 tem de fazer todas as adaptações e costurar os acordos para que o formato se encaixe com suas necessidades.

Miami, o GP que causou mal-estar sem sair do papel

Além dos direitos de transmissão de TV, outra fonte de renda farta da F1 são as taxas pagas pelos GPs para a realização das provas. Há a constante queda de braço entre categoria e promotores nas negociações, mas a própria F1 abriu um precedente que fortaleceu a resistência do outro lado da mesa.

Japão foi uma das poucas provas que chegaram a um acordo com o Liberty (Divulgação)

O plano que consistia na entrada do GP de Miami ao calendário era diferente do que acontece com as demais etapas. Em vez de pagar uma gorda taxa e tentar recuperar o investimento por meio dos ingressos vendidos, a intenção de Miami era estabelecer um esquema de divisão de riscos e recompensas: sem taxas cobradas, mas com o compartilhamento de receita entre promotores e F1. A corrida não foi para frente, mas o fato de que a F1 se dispôs a aceitar um modelo de negócios que reduz significativamente os riscos para os promotores deixou os organizadores de outros GPs incomodados, especialmente após o próprio Liberty garantir que teria como prioridade um tratamento especial a corridas clássicas do calendário.

O GP da Grã-Bretanha, insatisfeito com as taxas astronômicas, já havia recuado e rescindido seu contrato com a F1 para depois da edição de 2019 (explicamos este caso aqui). A intenção é negociar um novo acordo em melhores termos de 2020 em diante. E há outras quatro corridas que não possuem contrato para o ano que vem: Itália, Espanha, Alemanha e México (esta última que, mesmo membro da FOPA, repudiou publicamente o comunicado da associação). Portanto, a fim de manter o calendário preenchido, a F1 terá de resolver uma série de negociações em paralelo, e muitas provas tentarão tirar proveito da brecha que o caso de Miami deixou aberta.

Não é novidade que a F1 passe por crises de bastidores às vésperas de momentos importantes. Quem não se lembra da ameaça da finada FOTA para a criação de uma categoria paralela, quando a associação das equipes estava insatisfeita com as negociações para o Pacto de Concórdia de 2010 em diante? Contudo, a presença constante de Bernie Ecclestone, à sua maneira, proporcionava um desfecho minimamente favorável a todos. Desta vez, o Liberty terá de mostrar a mesma habilidade – ainda por cima tendo de conter a animosidade pública de um lado que ela não esperava.


10 histórias que resumem o que foi a F1 em 2018:


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Ernesto

    Acho que há uma falha na análise ao comemorar o aumento da audiência de 503 para 506 milhões (0,5%) já que o número de provas aumentou 5% (de 20 para 21) o que significa que a audiência por prova caiu.
    Alem disso, de nada vale todo o enfoque sobre os conteudos midiáticos e as atualizações de cenários dos eventos, já que ele próprio está desinteressante, pois não há corrida mais chata hoje em dia do que as de F1, que proporcionam muita previsibilidade e pouco combate, não só pelo domínio da Mercedes como pela impossibilidade de ataques para avanços de posições ao longo das corridas, acompanhados da artificialidade do DRS, e é esse o ponto que não está sendo enfocado, ou que não estão conseguindo obter soluções inteligentes para o problema, e a perda de interesse do público e dos promotores por este esporte só tende a crescer.

    • Fala, Ernesto. Só para deixar claro, esse aumento de 503 para 506 milhões é na chamada “base de fãs”, ou seja, a estimativa do número de pessoas que se interessam a ponto de assistir várias provas, comprar produtos, ir às corridas presencialmente, etc. Esse número não se refere à audiência em si.

      A F1 também chegou a anunciar que a audiência total subiu, mas ela modificou sua metodologia para medir isso. Sem contar que a audiência ao vivo das provas diminuiu em relação a 2017 (em dados relativos, não absolutos). Então, apesar de a F1 ter dado uma “maquiada” nas coisas, ela mesma sabe que a questão não é muito animadora.

  • Martino Vilarenga

    Ótimo texto e muito bem embasado. Essa revolta me parece ser causada pela estranheza em negociar com alguém que não tenha os traquejos do tio Bernie, que conhecia todos do avesso e sempre dava seus jeitinhos. É só ver o Thamas do GP do Brasil, que é c* e calça com o Ecclestone há um tempão e é um dos diretores dessa associação de promotores. Aí chega um americano bigodudo, duro de negociação com a velha matilha e que abre as pernas pra uma corrida nova em Miami? Claro que o assunto não iria morrer ali.

    Muitas dessas reclamações dos promotores dá para jogar na conta do Bernie, porque não foram todos os problema da Fórmula 1 que surgiram de dois anos pra cá. Mas ninguém nunca falou nada, e agora querem fazer pressão pública. Fico realmente com medo de como será o desfecho disso tudo.

    • Fala, Martino. Obrigado por seu comentário.

      O GP do Vietnã vai ser no molde clássico de taxa alta + retorno através de ingressos. Geralmente a F1 não tende a ceder a esses destinos “exóticos”, porque basicamente estes países querem usar a F1 como vitrine para tentar ganhar apelo turístico. Podemos dizer que o Vietnã precisa mais da F1 do que a F1 precisa do Vietnã, então não há muita base de barganha para que o Vietnã consiga se livrar da taxa.

      Já com Miami não é bem assim. É um destino já bem estabelecido turisticamente, e seria interessante para a F1 a consolidação de uma corrida por lá. Aliás, mais corridas nos EUA é algo que a F1 quer, portanto ela precisa ceder um pouco para tornar a proposta mais atrativa a estas cidades, aliviando os riscos. Então, faz mais sentido uma proposta que chegue a um meio termo. Mas, claro, isso gera o risco de desagradar os demais promotores.

      Abraços

      • Ernesto

        Duas corridas de rua, Bruno … muito triste isso, pois não há competição decente neste tipo de autódromo, quando se trata dos carros mais rápidos do mundo, e se não forem os maiores em dimensão.