Lotus vermelha? Brabham pintada com graxa? Pinturas raras da F1 – parte 3

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Os parcos porém fieis leitores assíduos do Projeto Motor já perceberam que, de semana em semana, estamos levando adiante a cada vez mais numerosa seção sobre pinturas raras usadas por escuderias tradicionais da F1. Tudo começou com a primeira parte, em que mostramos a Ferrari azul e branca usada na gira norte-americana de 1964, a belíssima Jordan preta e dourada do shakedown de 1991, uma versão com bico branco da Williams FW11 e diversas outras excentricidades.

Na semana sequente partimos para a segunda parte, destacando obras de arte como a Ligier Gitanes camuflada de 1993, a McLaren laranja da pré-temporada de 97 e a Force India colorida com vinho e branco nos ensaios de debute, em 2008. Havia também bizarrices como a McLaren azul dos GPs norte-americanos de 78 e 79, a Jordan amarela e azul conduzida por Ralph Firman numa exibição em Macau, em 2003, e a Larrousse “toalha xadrez” de 1994.

PARTE 1: leia clicando aqui.
PARTE 2: leia clicando aqui.
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Doravante, o trabalho de caçar histórias tão únicas e restritas ficou difícil de se fazer sozinho. Tivemos de recorrer à ajuda externa. Além da colaboração de Bruno Ferreira e Lucas Berredo, membros do comitê editorial deste empreendimento, buscamos auxílio de confrades como Emanuel Fogagnoli, Ricardo Souto e Vitor Veine, a quem agradecemos pela colaboração. Graças a eles, temos mais duas partes do especial garantidas. Nesta terceira, mostramos 15 novos casos que vão duma Ferrari amarela até um Williams inteiramente branco, passando pelo estranhíssimo caso do Brabham pintado com… graxa? Confira:

1. Ferrari “amarela belga” (1958)

1958 - Ferrari amarela

Conhecido por seu talento nos páreos de rali e protótipo, Olivier Gendenbien disputou alguns GPs de F1 pela Ferrari entre o fim dos anos 50 e início da década seguinte. No da Bélgica de 58, por ser sua terra natal, Enzo Ferrari autorizou que Gendenbien corresse com uma versão antiga do chassi D246 pintada de amarelo, as cores pelas quais os ases belgas eram identificados nas pistas. Com o interessante visual da tinta áurica contornando o símbolo do cavalo rampante, Olivier largou e terminou na sexta posição, marcando um simbólico pontinho.

2. Matra Caltex verde musgo (1968)

1968 - MatraIniciando sua primeira temporada completa na F1, a Matra (já contamos a bela história da montadora francesa neste outro artigo) inscreveu Jackie Stewart e Jean-Pierre Beltoise com dois modelos diferentes para o GP da África do Sul, que abriria o certame. Enquanto o gaulês testaria o MS7, basicamente um chassi de F2, equipado com o recém-saído do forno V12 de fabricação própria, o escocês iria para a pista com o MS9, configuração um pouco mais evoluída porque preparada para receber o Ford Cosworth DFV V8. Para esta prova, o bólido do futuro tricampeão teve o tradicional patrocínio da Elf trocado pelo da petrolífera local Caltex, o que provocou uma chocante mudança do tradicional bleu por uma estranha miscelânea de tons de verde. Indiferente à feiura de seu charutinho (além de tudo, repare na enorme entrada de ar no bico: foi uma adaptação para inserir um duto de refrigeração para o motor), Stewart alinhou na primeira fila, em terceiro, e chegou a liderar a prova, mas acabou abandonando devido a uma quebra de biela.

3. Brabham Martini branca (1976)

1976 - Brabham branca

Ok, a Brabham já era patrocinada pela marca de bebidas destiladas Martini desde a época anterior, inclusive usando esse mesmo livery baseado no branco, mas o fato é que o BT45, projeto de Gordon Murray para competir em 76, jamais correu oficialmente vestido com este uniforme alvo. O vermelho compunha a maior parte da carenagem durante a temporada. A imagem destacada aqui é a da apresentação – único momento em que o BT45 foi branco -, por isso merece a menção em nossa série.

4. Lotus Imperial vermelha e dourada (1977)

1977 - Lotus ImperialAlguns mercados demandam ações específicas. É o caso do Japão. Quando a Lotus disputou o GP de Fuji, em 1977, o grupo tabagista Imperial, então dono da John Player Special, preferiu pintar o 78 de Gunnar Nilson, o assombroso e inovador carro-asa, com o vermelho e dourado presente nos brasões do cigarro Imperial, muito mais popular naquele país do que o JPS. Apesar de o resultado ser esteticamente bonito, esportivamente não deu muito certo: enquanto Andretti, com o regular 78 preto e dourado, fez a pole, o sueco obteve somente a 16ª colocação na grelha. No domingo, abandonou a prova de forma discreta, na 64ª passagem, por falha de câmbio.

5. Brabham “graxeira” (1983)

1983 - BrabhamAs origens desta foto raríssima são obscuras. O circuito parece Zandvoort. O volante é Nelson Piquet, testando o famoso Brabham BT52, o “carro-flecha” com o qual se tornou bicampeão mundial em 1983. O motivo de a carenagem estar toda bezuntada de graxa? Não sabemos. O que dá para especular: com a morte de Gilles Villeneuve, a F1 mudou às pressas o regulamento para o certame seguinte e proibiu o efeito solo. Os times tiveram de correr atrás de soluções. O projeto de Gordon Murray, certamente, era o que possuía traços menos convencionais. Pela disposição das cores (base branca e topo azul, composição usada somente nas primeiras etapas daquele ano; posteriormente ela foi “negativada”), apostamos que o registro seja do fim de 82 ou do início de 83, num dos primeiros testes do monoposto. A graxa, espalhada até pelo capacete do brasileiro, seria um truque para camuflar as linhas e dificultar a vida de possíveis espiões (como o que tirou a foto).

6. Zakspeed prata, azul e vermelha (1984)

1984 Zakspeed

Fundada pelo teutônico Erich Zakowski (daí o nome), em 1968, a Zakspeed decidiu se aventurar na F1 no início dos anos 80. O plano original era colocar um chassi próprio para disputar a temporada de 84 equipado com motor da Ford, parceira de longa data no Grupo C. Contudo, a montadora americana deu uma banana para o projeto, quebrou os demais contratos que possuía com a esquadra e deixou Zakowski chupando os dedos. Com o dinheiro da rescisão, a Zakspeed adiou a estreia para 85 e passou o ano inteiro desenvolvendo o 841, empurrado por um propulsor 1.5 4-cilindros em linha turbo arquitetado por conta própria. Jonathan Palmer foi o responsável por comandar a maioria dos ensaios, em circuitos como Paul Ricard e Silverstone. Enquanto a operação carecia de patrocínio (para a estação de estreia, em 85, viria o livery dos cigarros West), esta bela combinação de prata, vermelho e azul e prata (em alusão às antigas flechas de prata alemãs) foi a pintura oficial da esquadra.

7. Toleman branca (pré-temporada de 1985)

1985 - Toleman

Todos sabem que a Toleman passou a ser financiada pela Benetton (uma mera empresa do ramo da moda antes de virar equipe oficial) em 85. A aproximação, inclusive, levou a companhia a comprar o time no fim do ano e dar a ele o sobrenome do chefão Luciano Benetton. Antes de fechar com a grife, porém, o TG185, esquadrinhado por Rory Byrne para aquela temporada, usou esta discreta combinação de branco com preto, azul e vermelho na pré-temporada (a fotografia é de Stefan Johansson fazendo o shakedown em Silverstone). Meses depois, toda a parte vazia seria coberta com bandeiras de diversos países, em alusão ao lema “United Colors of Benetton”.

8. McLaren-Lamborghini branca (1993)

Formula One Testing

O douto leitor certamente já viu este carro antes. Primeiro por se tratar de Ayrton Senna – é difícil haver alguma história não esmiuçada acerca do tricampeão brasileiro. Segundo porque já contamos o “causo” deste MP4-8 todo opalino. Trata-se de um teste feito pela McLaren com o V12 da Lamborghini, em setembro de 1993, no Estoril, enquanto buscava uma nova fornecedora de propulsores para a campanha que estava por vir. O paulistano se impressionou com o desempenho da unidade motriz, que gerava bons 750 cv de potência, mas a falta de confiabilidade deixou Ron Dennis reticente e impediu o negócio de ser fechado.

9. Sauber-Ford azul marinho (1995)

moremsportshistory

Este é o encontro de duas marcas rejeitadas. Ao fim de 94, a Mercedes deixou a Sauber, sua antiga parceira do Mundial de Protótipos, para abraçar a McLaren. Já a Ford e seu confiável porém limitado V8 Zetec foram abandonados pela Benetton, nova contratante da Renault. Ambas se abraçaram, com compromisso de fazer da esquadra suíça a cliente principal da fornecedora americana na categoria. As primeiras aparições públicas do C14, em Silverstone, ocorreram com este elegante tom liso de azul marinho, manchado apenas pelas faixas brancas nas asas, pela disposição do emblema oval em certas partes da carenagem e pela presença quase imperceptível da insígnia da equipe na ponta do bico. Aliás, este é um dos raros momentos em que o C14 surgiu com bico baixo: antes mesmo da rodada de abertura, no Brasil, ele seria trocado pela configuração “tubarão”. O aporte da Red Bull trouxe um azul mais opaco e escuro à composição.

10. Williams-BMW inteira branca (1999)

1999 Williams BMW

Outro registro um tanto difícil de se achar. Estamos falando de um Williams FW20, de 1998, conduzido pelo reserva Jörg Müller durante os primeiros primeiros testes com o V10 da BMW, no início de 99. Repare que os pneus dianteiros possuem quatro sulcos, já em acordo com o regulamento deste segundo ano (os do anterior carregavam três ranhuras). A gigante germânica viria a se aliar ao time britânico oficialmente em 2000. Para esses ensaios, o modelo trocou o vermelho da Winfield por uma roupagem toda clara, exceto apenas pela discreta inscrição degradê em azul e vermelho no nariz, aludindo a uma bandeira quadriculada nas cores da divisão de desempenho da BMW, a M.

11. Ferrari com bico preto (2001)

2001 - Ferrari

Os atentados de 11 de setembro de 2001 chocaram o Ocidente de uma maneira veemente. Somente uma tragédia extraordinária como aquela para fazer a Ferrari correr seu GP doméstico, em Monza, desprovida de patrocinadores e com a pintura escarlate corrompida por um bico preto. Foi este o modo de a escuderia de Maranello mostrar que estava enlutada. Michael Schumacher parecia transtornado naquele fim de semana: falou excessivamente em segurança e em maus pressentimentos para a largada. Felizmente tudo correu bem, mas o multicampeão teve atuação apagada e a vitória ficou com a Williams de Juan Pablo Montoya, a primeira do colombiano na categoria.

12. BAR preta e cinza (2004)

2004 - BAR testes

Já explicamos, na parte 1 deste especial, que a BAR aproveitou a permissão dada àlgumas equipes para treinar com três carros às sextas-feiras e inovou com as mais criativas e diversas combinações para o monoposto do reserva Anthony Davidson. As ousadias não ocorreram só ao longo da estação: Jenson Button e Takuma Sato (apadrinhado pela Honda) guiaram este 006 preto com listras cinzas na cobertura d do motor ao longo da pré-temporada, e logo perceberam ter um ótimo equipamento em mãos para começar a campanha. Terminariam como vice-campeões de construtores.

13. Super Aguri toda branca (2006)

2006 - Super Aguri

A chegada da Super Aguri na F1 ocorreu toda no improviso. O apoio tardio da Honda, que a quis como equipe satélite, fez o ex-piloto e agora dirigente Aguri Suzuki japonês apelar a um chassi Arrows A23, de 2002, adaptado ao regulamento de 2006 para poder alinhar no grid desde o GP da Austrália. Takuma Sato foi o responsável por fazer o Frankenstein, batizado de SA05, encontrar a pista pela primeira vez, em Barcelona, com esta pintura quase inteiramente branca.

14. Spyker laranja fluorescente (2007)

2007 - Spyker

Após comprar o espólio da malfadada Midland, a pequena fabricante neerlandesa Spyker compareceu à pré-temporada de 2007 com um chamativo livery para o F8-VII, predominado pelo laranja fluorescente, com detalhes em cinza escuro nos aerofólios, bicos e e sidepods. Adrian Sutil aparece nesta imagem com a combinação, em Jerez de la Frontera. Posteriormente, o laranja foi perolizado e mais comportado; o cinza se tornou mais claro e invadiu outras partes do chassi.

15. Williams azul marinho (2014)

2014 - Williams

 

Prometemos que esta é a última vez que mostramos um Williams indumentado azul marinho. Embora a iniciativa seja legal, chega uma hora em que ver a mesma solução ser usada em várias pré-temporadas cansa. A última ação ocorreu no ano passado, quando a equipe fazia mistério com relação à forma como chamaria a marca de bebidas Martini, sua nova patrocinadora-máster. O FW36 então apareceu assim em Jerez, mas foi por pouco tempo. Logo o tradicional branco com faixas em azul e vermelho estaria de volta à F1, para alegria dos fãs mais nostálgicos.

EXCLUSIVO: Jacques Villeneuve solta o verbo contra F1 atual. Assista:

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Akina SpeedStars

    Como diria o craque Neto:
    Baaaaita matéria diga-se de passagem!

  • Japa33

    bacana conheci vcs pelo flatout 😀

  • Gustavo Segamarchi

    Não vi se tem nas outras partes, mas já pode-se inserir a pintura preta da RBR nos testes de 2015.

    Essa já entro pra história.

    • Verdade, Gustavo. Mas fique ligado que esse especial vai ter uma Parte 4, hehe!

    • Guilherme Laporti

      poderiam ter deixado aquela camuflagem ao invés de usar aquela pintura que, na minha opinião, já está um pouco gasta