Quatro Rodas

Luto e vitórias: a trajetória de superação de Leclerc rumo ao topo da F1

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O fim de semana do GP da Bélgica tinha tudo para ser especial para Charles Leclerc. Em uma das pistas mais icônicas do calendário da F1, o monegasco teria pela frente uma valiosa oportunidade para conquistar sua primeira vitória, já que se tratava de um dos traçados mais adequados às características do carro da Ferrari de 2019.

O resultado não decepcionou. Leclerc fez a pole position com autoridade e controlou a corrida do começo ao fim, apresentando uma tocada segura para inclusive resistir às investidas de Lewis Hamilton nas voltas finais em Spa-Francorchamps.

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Assim, Leclerc obteve sua primeira conquista na F1, se tornando o terceiro mais jovem da história (e o primeiro monegasco) a atingir tal feito. Mais: a situação representou um grande alívio ao piloto, sobretudo após ele ter perdido de forma tão dramática as vitórias no Bahrein (quando sofreu uma falha mecânica a poucas voltas do fim) e na Áustria (ultrapassado por Max Verstappen no antepenúltimo giro).

Porém, o clima em Spa-Francorchamps estava longe de ser festivo, já que os efeitos da tragédia envolvendo Anthoine Hubert na prova da F2 se mostravam à flor da pele. A categoria como um todo sentiu o baque da perda brutal de um jovem talento, de modo que se tratou de mais um item a integrar a coleção de GPs marcados pelo luto.

Alguns membros do grid foram impactados mais intensamente pelo acontecimento, pois dividiram momentos de proximidade com Hubert e conheciam o francês de forma mais íntima. Um deles era justamente Leclerc.

A ascensão meteórica de Leclerc é marcada por resultados expressivos dentro da pista e momentos de superação mental fora dela, já que o jovem piloto precisou enfrentar o luto em algumas ocasiões importantes e converter a dor em vitórias.

A perda do padrinho Bianchi

(All Road Management)

O começo da trajetória do monegasco nas pistas teve participação direta de uma família que era muito amiga dos Leclerc. Em um dia, quando tinha apenas 3 anos de idade, o jovem Charles queria dar um jeito de escapar da escola e inventou a seu pai, Hervé, a desculpa de que estava doente.

A história colou e Charles não foi à aula naquele dia. Em vez disso, fez companhia ao pai, que iria visitar um grande amigo em uma pista de kart, e ali teve a oportunidade de pilotar pela primeira vez na vida. Este amigo de seu pai era Philippe Bianchi, pai de Jules.

As famílias Leclerc e Bianchi sempre foram muito próximas. Além da amizade entre Hervé e Philippe, Jules Bianchi era muito ligado a Lorenzo, filho mais velho do clã Leclerc. O próprio Charles, afilhado de Jules, também se mantém muito amigo de Tom, membro mais novo da família Bianchi.

Aquele dia em que conseguiu matar aula para pilotar um kart mudou a vida de Charles Leclerc, que, assim, começou sua caminhada nas pistas. No entanto, houve um momento de dificuldade em 2010, quando o monegasco quase parou de correr por dificuldades financeiras.

Jules Bianchi, à época na GP2, interveio e apresentou Leclerc a Nicolas Todt, dono da empresa All Road Management – filho do ex-chefe da Ferrari e atual presidente da FIA, Jean Todt, e que gerenciava a carreira do próprio Bianchi e de Felipe Massa. Todt se tornou empresário de Leclerc, que, assim, pôde se consolidar em sua trajetória no kart e participar de competições internacionais.

Massa, Leclerc e Bianchi em 2012 (All Road Management)

Em 2014, Leclerc fez a transição aos carros de monoposto, passando a competir na F-Renault ALPS. Quando estava em Jerez de la Frontera para a rodada final do campeonato, recebeu uma notícia que o deixou chocado: poucas horas antes, Bianchi havia sofrido um seríssimo acidente durante o GP do Japão de F1, quando escapou da pista sob chuva e colidiu contra um trator que resgatava o carro de Adrian Sutil.

Bianchi sofreu sérias lesões cerebrais e ficou em coma por nove meses, mas não resistiu e faleceu em julho de 2015. Foi a primeira morte de um piloto de F1 devido a um acidente ocorrido durante um GP desde Ayrton Senna, em 1994, e a última desde então.

Depois de perder um de seus primeiros grandes conselheiros nas pistas, Leclerc se transferiu à F3 Europeia e foi quarto colocado em 2015, além de ser segundo no GP de Macau. No começo de 2016, assinou com a Academia de Pilotos da Ferrari e passou a competir na GP3, categoria da qual foi campeão logo na primeira temporada.

A “mentira” antes do falecimento do pai

“Te amo, papai”: Leclerc obteve vitória emocionante em Baku, 2017 (FIA F2)

Depois de conquistar o título da GP3 em 2016, o passo natural para Leclerc foi a F2. Àquela altura, uma promoção à F1 começava a se tornar um sonho mais tangível, já que o piloto se destacava como grande promessa da Ferrari na base e já tinha realizado testes pela própria equipe de Maranello e pela Haas.

A campanha na F2 começou forte, com vitórias no Bahrein e na Espanha. No primeiro semestre, no entanto, o campeonato ainda estava em um estágio inicial, sendo que a disputa pela liderança na pontuação era acirrada entre Leclerc e Oliver Rowland. Era muito cedo, portanto, para qualquer definição concreta  sobre o futuro de Leclerc para 2018 em diante.

O destino, porém, forçou o piloto a contar uma mentira a seu pai. Hervé Leclerc vinha sofrendo de uma doença (sobre a qual nunca se foi falado mais detalhadamente), e o piloto, ciente da gravidade da situação, contou a ele que já havia assinado para estrear na F1 em 2018. Isso ainda não havia acontecido de fato, mas Leclerc considerou que esta era uma forma de seu pai ter um conforto, uma sensação de recompensa antes de partir.

Hervé Leclerc faleceu no dia 20 de junho de 2017, aos 54 anos de idade.

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Dois dias depois, Charles estava em Baku para a disputa da rodada dupla da F2. Mesmo com a perda tão recente de seu pai, o jovem piloto teve uma de suas atuações mais impressionantes no ano, com direito a pole position, vitória e volta mais rápida na primeira bateria e um segundo lugar na etapa complementar.

O triunfo em circunstâncias tão difíceis no Azerbaijão acabou se mostrando o grande impulso de Leclerc rumo ao título da F2 em 2017. A conquista foi confirmada na penúltima rodada dupla, em Jerez de la Frontera, e o piloto dedicou o feito ao seu falecido pai.

No dia 2 de dezembro de 2017, Leclerc foi confirmado como piloto da Sauber para a temporada de 2018.

O desfalque nos “quatro mosqueteiros”

Hubert e Leclerc em uma competição de kart em 2010 (CIK FIA)

Depois das conquistas consecutivas na GP3 e F2, Leclerc teve rápida ascensão. A temporada na Sauber foi forte o bastante para que a Ferrari o contratasse para 2019, o que representou uma medida incomum em Maranello – Leclerc se tornou o segundo piloto mais jovem a competir pela equipe, atrás apenas de Ricardo Rodriguez, que guiou pela Ferrari na década de 60.

A primeira vitória chegou perto de Leclerc em algumas ocasiões. No GP do Bahrein, em março, foi de longe o piloto com melhor rendimento no fim de semana, com pole position e liderança confortável no estágio inicial. No entanto, uma falha no motor o fez perder rendimento nas voltas finais, o que o derrubou para terceiro, atrás da dupla da Mercedes.

No GP da Áustria, novamente fez a pole e controlou a corrida por boa parte de sua duração. Desta vez, viu Max Verstappen crescer nas voltas finais, e o holandês lhe tomou a ponta na antepenúltima volta.

Spa-Francorchamps representaria mais uma oportunidade, já que a pista de alta velocidade se encaixa de forma mais adequada à Ferrari. Mais uma vez a pole veio com autoridade, com vantagem de 0s7 para Sebastian Vettel.

Mas a corrida ficaria em segundo plano no fim de semana. No sábado, Anthoine Hubert não resistiu a um assustador acidente na etapa da F2 e faleceu aos 22 anos de idade.

Hubert era integrante de uma forte geração de pilotos nascidos em uma região próxima do globo. Ele era, ao lado de Pierre Gasly, Esteban Ocon, também franceses, e Leclerc, monegasco, um dos “quatro mosqueteiros” que começaram juntos e cresceram com força nas categorias de base. Três deles já haviam chegado à F1, e o próprio Hubert caminhava na mesma direção.

 

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Leclerc competiu contra Hubert desde literalmente sua primeira corrida oficial no kart, sendo que ambos também chegaram a dividir as pistas na temporada de estreia do monegasco nos monopostos, em 2014, na F-Renault ALPS. Os caminhos de ambos posteriormente se dividiram, mas Hubert, campeão da GP3 em 2018 e associado à Renault, dava seus passos para dividir o grid com seus colegas mais uma vez.

No domingo pela manhã em Spa-Francorchamps, Leclerc deu um abraço emocionado na mãe de Hubert, Nathalie (fotos acima), e ouviu de Pierre Gasly um pedido especial: vença a corrida em homenagem ao falecido amigo.

Leclerc cumpriu a missão e dominou em circunstâncias difíceis a corrida em Spa. Mais uma vez ele dedicou uma conquista importante de sua carreira a um ente querido que falecera de maneira inesperada.

À base de provações mentais, Leclerc construiu seu caminho desde o kart até a chegada ao topo do pódio na F1. Sua força psicológica, aliada a uma habilidade ímpar ao volante, o torna um dos grandes candidatos a campeão da geração que ganha seu espaço. Novas vitórias certamente ainda virão – quem sabe, de agora em diante, em circunstâncias mais festivas.


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.