Mais rápido que Indy, este oval argentino pertence a um… time de futebol

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Convidado do Projeto Motor.

Os circuitos ovais são uma tradição americana por excelência. Muito embora eles estejam presentes nas origens do automobilismo também na Europa, foi nos Estados Unidos que se desenvolveram, a partir de hipódromos, competições baseadas nesse tipo de autódromo. Aqueles poucos esporadicamente ativos no resto do mundo, dos anos 50 para cá, são fruto dos raros momentos de expansão do automobilismo americano via Nascar e Indy: Calder Park Thunderdome (Austrália), Montegi (Japão), Rockingham (Inglaterra) e Lauzits (Alemanha), além do oval anexo ao covardemente assassinado autódromo de Jacarepaguá, aqui no Brasil.

Com um Talbot-Lago, Fangio venceu edição de 1950 das 500 Millas, ainda improvisada em estradas de terra que emulavam traçado de Indianápolis
Com um Talbot-Lago, Fangio venceu edição de 1950 das 500 Millas, ainda improvisada em estradas de terra que emulavam traçado de Indianápolis

Esses são mais conhecidos, mas há também algumas opções bastante obscuras. Você já ouviu falar do Autódromo Ciudad de Rafaela, por exemplo? Trata-se de um oval, mais extenso que Indianápolis, pertencente ao Club Atlético de Rafaela (CAR), conhecida agremiação futebolística fundada em 1907 e que organizou as 500 Milhas argentinas de 1926 a 1975, incluindo aí uma histórica etapa da USAC em 1971, a Rafaela Indy 300.

As dinâmicas internas do automobilismo argentino guardam semelhanças com o americano, com forte interiorização da prática do esporte, fortalecendo desde cedo os campeonatos internos de turismo/stock car e sustentando séries de monopostos que frequentemente evitaram a armadilha de se tornarem “categorias escola” na ingrata escada para a F1. Já contamos no Projeto Motor, inclusive, que nossos vizinhos ousaram ter sua própria versão da categoria principal da FIA.

Valia até correr no sentido horário em Rafaela
Valia até correr no sentido horário em Rafaela

Apesar de o sucesso de Juan Manuel Fangio na Europa e o enorme desinteresse dos americanos em expandir suas tradições para além de suas fronteiras terem impedido que a cultura do circuito oval se desenvolvesse ainda mais por lá, o CAR nutria ambições de emular as 500 Milhas de Indianápolis desde os anos 2o. Mesmo antes da construção do oval, que se iniciou em 1952, as provas eram disputadas em um circuito fechado, com quatro curvas para a esquerda, imitando o formato do speedway de Indiana em estradas de terra. Não acredita? Veja abaixo imagens da edição de 1929 das 500 Millas:

A montanha veio a Maomé

Um Junho de 1970, um ex-dirigente do clube, conhecido como Dr. Vazquez, foi ver aquela edição das 500 Milhas de Indianápolis e voltou dos EUA muito impressionado. Lá mesmo ele teria tido as primeiras conversas com a USAC, sondando os americanos a respeito da possibilidade de realizar uma etapa do campeonato na Argentina, mais precisamente em Rafaela.

O improvável aconteceu: USAC aceitou propostas de dirigentes do clube e inseriu Rafaela no calendário de 1971; seria primeira corrida da história da categoria no Hemisfério Sul
O improvável aconteceu: USAC aceitou propostas de dirigentes do clube e inseriu Rafaela no calendário de 1971; seria primeira corrida da história da categoria no Hemisfério Sul

As negociações continuaram por telefone até que o responsável por autódromos e relações públicas (sério?) da USAC, Henry Banks, foi convencido a conferir pessoalmente como era o oval. O americano pediu algumas medidas de segurança: alargamento da pista de 12 para 18 metros, alambrados maiores e guardrails extras foram algumas das obras exigidas pelos ianques.

Seguiu-se pressão para que a prova contasse pontos para o campeonato, de modo a incentivar a ida de pilotos e equipes para tão longe. Os boatos eram de que a maioria estava mais interessada em disputar uma prova da Nascar no Canadá naquela mesma data. Deu certo: nomes como Al e Bobby Unser, AJ Foyt, Lloyd Ruby, Jhonny Rutherford, Gordon Johncock, Gary Betenhausen, Mike Mosley e Dick Simon vieram para aquela que seria a primeira prova válida para o campeonato da USAC na América do Sul. A ausência mais notável em retrospectiva foi a do então acidentado Mario Andretti. No mais, os argentinos arcaram com os custos de um depósito de US$ 90 mil e despesas de transporte para uma delegação com 137 pessoas mais equipamentos.

Grid contou com nomes como
Grid contou com nomes como Al e Bobby Unser, AJ Foyt e Jhonny Rutherford

A Rafaela Indy 300 aconteceria em 1971. Até Tony Hulman, dono do Indianápolis Motor Speedway, veio. Alguns carros estavam disponíveis para serem alugados pelos pilotos locais. É preciso lembrar que eles não eram amadores e conheciam bem a pista. A F1 Mecânica Argentina disputava as 500 Milhas de Rafaela no oval desde sua construção.

Carros turbinados da USAC batiam fácil os 300 km/h nos 4.624 metros de traçado; extensão e velocidade eram maiores que os de Indianápolis
Carros turbinados da USAC batiam fácil os 300 km/h nos 4.624 metros de traçado; pilotos ficaram surpresos com extensão e velocidade da pista, ambas maiores que as de Indianápolis

O recorde de média horária da categoria local era cerca de 30 km/h mais lento do que o que os carros da USAC marcariam com motores turbo de mais de 700 cv. Os locais deveriam pagar mínimo de US$ 5 mil pelo aluguel dos carros, fora despesas com possíveis danos ao equipamento. Enquanto a proposta leonina espantou alguns, outros alegaram que, para os argentinos, os assentos oferecidos eram pouco competitivos. Jorge Cupeiro chegou ao extremo de dar de ombros ao evento, alegando que os carros eram rápidos demais.

O único nativo a topar o desafio foi Carlos Pairetti, vencedor das 500 Milhas locais. Ele achou um carro aceitável na equipe de Dick Simon e acabou fazendo boa prova, terminando em nono. O resultado veio para consolar as frustradas tentativas de, em anos anteriores, classificar-se para a Indy 500. Com tanta experiência internacional (incluindo F3 na Europa), não podemos tomá-lo por nada menos que um piloto capacitado. Ainda assim, surpreende o seu desempenho, cabendo lembrar que, em Rafaela, os carros da Indy estavam andando mais rápido do que em casa, rondando os 280 km/h de média.

A vitória ficaria com Al Unser e seu Colt Ford Turbo. Fontes locais lamentaram constatar que a presença do público teria sido decepcionante, uma informação dissonante das imagens do evento. A explicação mais corrente culpa os preços das entradas, que teriam sido exageradamente altos. O detalhe menos surpreendente de toda essa aventura é que, sem público e com inúmeras dificuldades de logística, a Indy nunca mais voltou ao local. Assista abaixo a um resumo da prova:

Além de um Super Speedway

Esta velocidade toda não vinha à toa. Precisamos visualizar a pista e lembrar que ela era formada por duas retas de mais de 1,4 km, ligadas por duas curvas parabólicas com 15° de inclinação. A título de comparação, a famosa reta Mistral de Paul Ricard tem 1,8 km de extensão em sua configuração original. Enquanto Indianápolis possui inclinação de pouco mais de 9° nas curvas e 4 km de extensão, com retas mais curtas, o traçado de Rafaela chega a 4,6 km. Nem um pouco discreto, o oval argentino era maior e mais rápido do que aquele que o inspirou.

STC 2000, provavelmente a categoria de tração dianteira mais veloz do mundo, corre na configuração oval de Rafaela e também bate os 300 km/h
STC 2000, provavelmente a categoria de tração dianteira mais veloz do mundo, corre na configuração oval de Rafaela e também bate os 300 km/h

Mesmo superlativo, o Autódromo Ciudad de Rafaela viu impotente o ocaso da Formula 1 Mecânica Nacional levar consigo as 500 Millas locais, que tiveram sua última edição em 1975. Categorias menores prefeririam utilizar a versão mista do circuito, que chegamos a ver na TV em algumas etapas da F3 Sul-Americana nos anos 80 e 90.  Dizem que os americanos da Ganassi tentaram, sem sucesso, comprá-lo em meados dos anos 90. Um boato interessante se considerarmos que era a época da grande tentativa de internacionalização da CART.

Mais por inércia que por cuidado, ele sobreviveu para voltar a ser utilizado pelas categorias de turismo/stock car locais. A Turismo Carretera, mais importante categoria latino-americana, o usa desde os anos 90, com a adição de algumas chicanes. A configuração oval voltaria a ser utilizado em 2004, pela TC 2000, apenas para as tomadas de tempo: as provas sendo disputadas em versões diferentes do circuito.

No ano seguinte, a categoria realizaria a primeira corrida para valer naquele traçado, mas só depois de adotar motores mais potentes (V8 formados a parir da junção de dois motores de motocicleta). Rebatizado de STC 2000, o certame de carros de turismo com tração dianteira viria a quebrar em 2012 o recorde nacional de velocidade, que durava desde 1973, quando Gabriel Ponce de Leon levou seu Honda Civic a 306,38 km/h. Ainda abaixo dos carros da Indy de 1971. Confira no vídeo abaixo:

Ao que consta, a falta de confiança nos pneus causa receio em usar o oval com mais frequência, mas existe um esforço efetivo por parte dos fabricantes para resolver o problema. A Pirelli, inclusive, tem feito testes com este objetivo em 2015. Não deixa de ser uma vitória do sonho de quase 100 anos atrás, acalentado e regado pelos cartolas de um time de futebol que cambaleia pelas divisões inferiores do futebol argentino, mas manteve por décadas a mais importante prova de monopostos daquele país e recebeu a mais surpreendente etapa da Indy no exterior, num oval que eles mesmos construíram e que, tiremos o chapéu, é até hoje o autódromo mais veloz do Hemisfério Sul.

Bônus – veja abaixo os melhores momentos das 500 Milhas de Rafaela de 1964:

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Pablo Habibe

Natural da República Bananeira de São Luís, Pablo disputou desde cedo a TV familiar, posicionando as antenas nos ângulos mais improváveis em busca das transmissões automobilísticas que vinham do Brasil. Depois de passar o fim dos anos 80 defendendo os esforços de Nelson Piquet na Lotus, fez-se historiador e jornalista. Músico nas horas vagas e editor da Revista Bezouro, passou pela comunicação do Sebrae, pela TV e pelo portal de O Imparcial, onde ainda assina a coluna sobre automobilismo.