Máquina de moer? Que nada: Red Bull é maior formadora da história da F1

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Quando a Red Bull anunciou a troca de Daniil Kvyat por Max Verstappen no segundo assento de sua equipe principal da F1, de forma um tanto abrupta e apressada entre os GPs da Rússia e da Espanha, não foram poucos os jornalistas especializados em automobilismo no Brasil que chamaram a escuderia pertencente à marca de bebidas energéticas de “moedora de pilotos” ou “máquina de moer”.

Troca entre Kvyat e Verstappen reacendeu críticas sobre gestão do programa de pilotos da marca
Troca entre Kvyat e Verstappen reacendeu críticas sobre gestão do programa de pilotos da marca

Passada a etapa de Motmeló, transcorrida com a surpreendente, inesperada e soberba vitória do jovem neerlandês de 18 anos, ficou um tanto nítido o motivo fulcral por trás da decisão tomada pela cúpula da esquadra. Verstappen representa um talento especial que, independentemente se vai ou não se tornar campeão mundial ou um futuro gênio da raça, não poderia ser perdido ou desperdiçado pelo time. Kvyat pagou preço alto por isso, numa atitude cuja justificativa ficou mais tragável depois da atuação magistral do púber no circuito da Catalunha.

O comitê editorial do Projeto Motor pode se gabar de ter “compreendido” a decisão antes mesmo do feito. Na edição #26 do Debate Motor, realizada logo após o anúncio, já havíamos analisado a questão de forma muito mais ponderada. Embora o volante russo tenha sido injustiçado, estava claro que a Red Bull teria muito mais a perder se optasse por preservá-lo do que se tentasse proteger Verstappen do assédio dos concorrentes. Relembre o que foi conversado no vídeo abaixo:

Seria fácil apontar dedos a esta altura e dizer que as análises alheias estavam erradas. O cenário era (ainda é) bastante complexo e afirmar que a equipe tetracampeã “abandonou” alguns talentos pelo caminho não chega a ser incorreto. Mas há um ponto nevrálgico por vezes ignorado: a Red Bull só deixou de apostar em bons pilotos porque é a única participante da F1 cujo programa de formação é eficiente a ponto de dar a ela o privilégio de trocar o “bom” pelo “fenomenal”.

Vettel foi primeiro caso de real sucesso do programa
Vettel foi primeiro caso de real sucesso do programa

Neste espectro, afirmar que Helmut Marko, Christian Horner e cia. “queimaram” a carreira de Jean-Éric Vergne, Sébastien Buemi, Jaime Alguersuari e, agora, Kvyat, soa um tanto leviano. Por quê? Porque, embora todos eles tenham qualidades, estamos falando de uma competição desejada por milhares de meninos e meninas quando entram no kart, porém limitada a 20 ou 22 vagas efetivas por ano. Estar dentro da média num ambiente desses pode ser suficiente para entrar, mas nunca para permanecer.

Quem quer se firmar como um dos grandes precisar ter algo especial. Sebastian Vettel demonstrou isso desde seu primeiro GP na categoria. Daniel Ricciardo idem, ao mandar muito bem com a limitadíssima HRT em 2011. A vez é de Max Verstappen, e o vencedor mais jovem da história da série vem provando, a cada dia, ter predicados semelhantes aos dos dois supracitados colegas.

Carlos Sainz, Daniil Kvyat, António Félix da Costa, Lewis Williamson, Beitske Visser e Calin O'Keeffe, a trupe do Red Bull Junior Team em 2013
Carlos Sainz, Daniil Kvyat, António Félix da Costa, Lewis Williamson, Beitske Visser e Calin O’Keeffe, a trupe do Red Bull Junior Team em 2013

Se 20 são os que disputam o campeonato, somente quatro ou cinco assumem condição de protagonistas. Fica cada vez mais óbvio perceber que não há espaço para que todos alcancem a glória. Logo, chega um momento em que o funil aperta (ainda mais) e os dirigentes precisam fazer apostas. A Red Bull praticou as dela. Errou em alguma? Até o momento parece que não. Ou você vislumbra Christien Klien, Vitantonio Liuzzi, Buemi, Alguersuari, Vergne, Kvyat, António Félix da Costa e Carlos Sainz realizando o que Vettel, Ricciardo e Verstappen já fizeram?

Agora partamos a outro exercício. Analisemos o grid atual. Dos 22 inscritos para a temporada 2016, cinco foram formadas pela fabricante de energéticos, quase um quarto ou 25% do grid. Quem McLaren, Ferrari, Renault, Mercedes e Williams revelaram nesse período?

Bem… Lewis Hamilton é a única cria frutífera de Ron Dennis em quase 20 anos de tentativas. Kevin Magnussen está ativo, mas teve de romper o cordão umbilical com a operação bretã a fim de se estabelecer, caso não quisesse mofar como reserva (risco ao qual Stoffel Vandoorne está vulnerável). Pascal Wehrlein ganhou uma chance da montadora da estrela de três pontas, embora na pequenina e apagada Manor, e até agora não foi cogitado para o lugar de nenhum dos titulares. A Scuderia apoiou Sergio Pérez, mas este entrou no certame muito mais pela ação de Carlos Slim do que pelo desejo da turma do cavallino rampante. Além disso, segurou Jules Bianchi por dois anos na inexpressiva Marussia, sem dar a ele a chance que o francês merecia num carro mais competitivo.

Três carros patrocinados pela Red Bull lideram GP da Espanha de 2016, todos pilotados por crias da casa
Três carros patrocinados pela Red Bull lideram GP da Espanha de 2016, todos pilotados por crias da casa

Isso sem falar nos antigos e desastrosos programas de Renault, Toyota, BAR-Honda e afins, que não coletaram, somados, nada além do que uma singela vitória obtida por Heikki Kovalainen (apadrinhado da marca francesa) no GP da Hungria de 2008. Há de se destacar também a relação entre Juan Pablo Montoya e Williams, com o asterisco de que a equipe só passou a apoiar o colombiano já na extinta F3000. Temos ainda o peculiar caso da Mercedes com Michael Schumacher em 1991, numa situação em que o futuro multicampeão germânico já era profissional quando passou a receber suporte da manufatureira de seu país.

Programa da Renault é um dos mais turbulentos e improfícuos dos anos 2000
Programa da Renault é um dos mais turbulentos e improfícuos dos anos 2000

Enquanto todas essas operações utilizam abordagem extremamente conservadora – investem em jovens na base, mas raramente os efetivam à sua equipe principal na F1, quase sempre optando por figurões já consolidados -, a Red Bull tem hoje seus quatro bólidos (os dois da esquadra principal mais os da Toro Rosso) ocupados por membros de sua academia. Foi, portanto, a única delas a encontrar uma inédita fórmula de autossuficiência. Nunca se viu algo parecido na história da categoria.

Além disso, é preciso frisar que a Red Bull permite, em média, que cada membro de sua academia fique na Toro Rosso de dois a três anos até mostrar tudo que sabe. Quem mais faz isso? Romain Grosjean foi fritado da Renault após seis meses. Kevin Magnussen perdeu a vaga na McLaren depois de uma temporada. Uma estação pode ser pouco, mas duas ou três é mais que suficiente para saber se um ás vai ser campeão ou não.

Voltando um pouco mais no tempo, podemos mencionar como programa mais próximo ao da marca austríaca em termos de entrega de resultados o Volante Elf, capitaneado pela petrolífera francesa e que ajudou a revelar Alain Prost, Patrick Tambay, Didier Pironi e Olivier Panis, entre outros. A organização e o espaço dado aos pupilos não eram tão robustos, porém. Outra história interessante é a da Jim Russell Racing school, pela qual passaram Emerson Fittipaldi, Derek Bell, Derek Warwick e Gilles Villeneuve entre os anos 60 e 70. Entretanto, esta se limitava à F3 Britânica, não contando com braços operantes na F1.

Enquanto Pierre Gasly, dentro do habitáculo do STR-9, é o próximo da lista, competidores do Desafio Mundial de Kart da Red Bull entram na parte de cima do funil
Enquanto Pierre Gasly, dentro do habitáculo do STR-9, é o próximo da lista, competidores do Desafio Mundial de Kart da Red Bull entram na parte de cima do funil

“Ah, mas olhe como a Red Bull exige de garotos tão jovens. Veja como Helmut Marko e Christian Horner são cruéis e incompassivos”, alguém irá ressaltar. Sim, é verdade. Agora responda: quantos chefões bonzinhos existiram na F1 moderna? Ron Dennis? Flavio Briatore? Jean Todt? Não há espaço para mocinhos num ambiente extremamente competitivo ao qual, infelizmente, nem todos conseguem suportar. Nós, particularmente, não achamos o excesso de pressão uma abordagem correta – afinal, estamos falando de uma corrida de automóveis, não de uma seita que busca dirimir as mazelas do mundo -, mas esta não é a discussão central. Dentro do que a categoria exige para se formar um ás de sucesso, a Red Bull é a única participante a conseguir cumprir os requisitos, com louvor, de forma consistente. Mais pragmaticamente eficaz do que isso, impossível.

Sendo assim, podemos afirmar tranquilamente que não, a Red Bull não é uma “máquina de moer pilotos”. Ela se tornou uma máquina de revelar talentos. Não apenas em qualidade: também em quantidade. Justamente por surgirem tantas opções em tão pouco tempo é que não sobrou espaço para todos. Aqui chegamos ao imo de toda a polêmica: entre ficar com os bons e os ótimos… Que nos desculpem Kvyat, Vergne, Buemi e Alguersuari, mas é o bonde de Vettel, Ricciardo e Verstappen o que precisa passar.

DEBATE MOTOR #27 pergunta: os circuitos são um problema na F1?

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.