Maria Teresa de Filippis e a primeira vez que uma mulher largou na F1

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A participação feminina no automobilismo sempre foi rara. Muito rara. Mesmo assim, de tempos em tempos, alguns casos surgem. E é interessante ver que existem diversas pilotas que apareceram e conseguiram um espaço importante. Maria Teresa de Filippis foi a primeira a participar de uma prova da F1. Seus resultados na categoria podem não ter sido de grande destaque, mas sua carreira merece ser valorizada pelo todo.

E não só “por ser mulher”, como muitos podem reclamar. De Filippis venceu diversos eventos em sua carreira, principalmente nas arriscadas e tradicionais subidas de montanha, que na década de 50 ainda eram bastante importantes, mas também em provas de esportivos. Chegar à F1 foi um caminho natural para ela.

E claro, é impossível desprezar que ela teve que enfrentar machismo. A carreira dela começou por conta do problema. Aos 22 anos, ela ouviu de seus irmãos mais velhos que não conseguiria andar rápido em um carro. A napolitana aceitou o desafio e treinou nas rodovias da costa Amalfitana antes de entrar em sua primeira competição, o percurso Salerno-Cava dei Tirreni, de 10 km. Logo de cara, De Filippis venceu a prova com seu Fiat 500, um presente do pai.

Depois deste começo, a própria italiana disse várias vezes que conseguiu ganhar o respeito dentro da comunidade. Em entrevista de 2006 ao jornal inglês “The Guardian”, ela explicou que a maioria dos pilotos não acreditava que ela conseguiria correr, mas que com os resultados ela viu “apenas surpresa com meu sucesso”, nunca desrespeito.

De Filippis era de uma família rica de Napoli, no sul da Itália, que também mexia com cavalos. Na adolescência, hipismo foi seu passatempo favorito e sempre foi uma de suas paixões. “Primeiro cavalos, depois carros”, dizia. No começo, os pais acharam estranha a aventura automobilística, mas também nunca se opuseram ou tentaram a impedir. Segundo Filippis, a mãe só dizia para ela “vá devagar e vença”. “Ela não tinha nada contra porque eu estava vencendo. Ela gostava daquilo”, completou, em uma entrevista à revista inglesa Motorsport, em 2012.

E aí, como muitos dizem até hoje, o bichinho do automobilismo mordeu a moça. A italiana começou a participar de mais e mais corridas, sempre com bons resultados. Ao final da temporada de 1954, aos 28 anos, ela já tinha vencido diversas competições por toda a Itália e disputou entre os melhores no Campeonato Italiano de Esportivos. Sempre com seus próprios carros, como Urania-BMW, Giaur e Oscar.

Isso começou a chamar a atenção da comunidade do automobilismo, que já tinha visto décadas antes outra pilota se destacar, Helle Nice, na era dos Grandes Prêmios do pré-Guerra. A Maserati então resolveu apostar em De Filippis e a contratou para sua equipe de fábrica.

De Filippis na Maserati

Ter um contrato com uma montadora com equipe oficial em diversas categorias era o sonho de todo piloto. Aliás, ainda é… E na década de 50, De Filippis contou com um bom apoio da Maserati.

Mesmo assim, o acordo não era fácil. Ele previa que os custos e as premiações seriam divididos ao meio. Ou seja, se não ganhasse nada, ela sairia no prejuízo. Importante dizer que isso era algo relativamente habitual e não tinha nada a ver com o fato dela se mulher. Além disso, De Filippis era de uma das famílias mais ricas da Itália, sendo assim, dinheiro não era realmente um problema. O que ela não queria era receber ordens.

“Foi por isso que fui para a Maserati”, ela explicou à Motorsport. “E por isso que nunca quis correr pela Ferrari. Por que eu iria querer correr pela Ferrari? Por que sou italiana? Não. Naquela época, eu não queria ser comandada pelo Sr. Ferrari. Eu falei com ele e lhe disse que não queria pilotar para a equipe dele. Naquele tempo, ele falava uma palavra e todo mundo saía correndo. Aquilo não era para mim. Também, sentia que não tinha uma cultura real. A Maserati era como uma família, com pessoas reais e eles eram mais fáceis de conversar. E eu podia levar meu próprio carro para a equipe, isso era importante para mim”, completou.

Desta forma, De Filippis ganhou a chance de participar de categorias menores de fórmula, onde ganhou a fama de ser muito corajosa. Às vezes, até demais. Dentro da Maserati, ela passou a ter Juan Manuel Fangio como uma espécie de mentor. “Fangio me dizia que eu andava muito rápido, que deveria tentar ir um pouco mais devagar”, disse. “Eu admirava o Fangio, como pessoa e piloto, pois ele era um homem simples e que trabalhava muito para conquistar o sucesso que teve. Nada foi dado. Na pista, eu o chamava de meu ‘pai das corridas’ porque ele me tratava muito bem, e tão normal, e o admirava por aquilo. Ele era um cavalheiro”, prosseguiu.

Ao final de 1957, a Maserati deixou a F1. De Filippis, mesmo assim, ficou com um modelo 250 F e resolveu tentar, finalmente, competir na F1. O carro, no entanto, já estava mostrando alguma defasagem em relação aos principais rivais. A italiana ainda tentou se inscrever para uma prova das mais difíceis, o GP de Mônaco, não só por conta do desafio do traçado, mas porque o grid era composto por menos carros do que em outras pistas.

“Eu estava no meu limite físico. A direção do 250F era muito pesada nas curvas de baixa. Eu estava ok de velocidade, mas eu ficava muito cansada”, confessou. A italiana acabou não conseguindo se classificar ao terminar a sessão de tomada de tempos em 21ª entre os 31 inscritos, enquanto apenas os melhores 16 iam ao grid. Como curiosidade, naquele mesmo evento, outro nome importante da história da F1 tentou sem sucesso entrar na prova: Bernie Ecclestone. Mas essa é uma outra história que já contamos aqui no Projeto Motor.

A estreia na F1

Menos de um mês depois da tentativa sem sucesso de Mônaco, Maria Teresa pegou sua 250F privada e se inscreveu no GP da Bélgica, em Spa-Francorchamps e se classificou para a prova. O desempenho não foi dos melhores, com a 19ª posição do grid. Ela terminou em décimo, duas voltas atrás do vencedor Tony Brooks e última a receber a bandeirada, mesmo assim, a história estava sendo escrita. Pela primeira vez, uma mulher participava de uma corrida oficial do Campeonato Mundial de Pilotos.

Maria Teresa de Filippis, no GP da Itália de 1958. com sua Maserati 250 F

Na corrida seguinte, ela foi impedida de participar do GP da França, em Reims, e, segundo ela, o lado machista do automobilismo teve participação na frustração. O diretor da prova teria dito a ela que “o único capacete que uma mulher deveria vestir era o do cabelereiro”, acusou a ex-pilota ao “The Guardian”.

Mesmo assim, ela seguiu em frente com sua carreira. Naquela mesma temporada, De Filippis ainda largaria nos GPs de Portugal e Itália, mas não completaria nenhuma das provas por problemas mecânicos. Seu grande resultado em carro de F1 foi em uma corrida não válida pelo campeonato, no GP de Siracusa de 58, em que ela terminou na quinta posição com sua Maserati, em prova vencida por Luigi Musso, de Ferrari, seguido por Jo Bonnier, com outra 250F.

Ao final do ano, ela resolveu deixar de competir com carros da Maserati e se juntou para 1959 com Jean Behra para começar a correr com modelos da Porsche adaptados pelo francês em sua oficina em Modena. Ela tentou se classificar para o GP de Mônaco, mas novamente não conseguiu a vaga.

De Filippis no Behra-Porsche, durante os treinos para o GP de Mônaco de 1959

“O carro sofreu muitos atrasos e ficou pronto apenas para o segundo treino livre em Monte Carlo. A caixa de câmbio era de um RSK, então, elas eram muito longas para o circuito e não consegui classificar. Hans Herrmann também tentou, e Wolfgang von Trips, e nenhum deles conseguiu colocar o carro no grid. Stirling Moss me aconselhou a não tentar mais nada com aquele carro, não tinha como classificar, e acabou por aí”, explicou a ex-pilota.

A decisão de Maria Teresa de Filippis de encerrar a carreira

A italiana já vinha um pouco triste com a sequência de mortes que estava testemunhando no automobilismo, principalmente de amigos próximos como Luigi Musso, com quem chegou a ter um romance, Peter Collins, Alfonso de Portago, Mike Hawthorn.

Em agosto de 59, ela iria competir em AVUS, em Berlim, em uma prova de esportivos com Jean Behra, mas resolveu não ir de última hora. O francês morreu no evento, o que a deixou devastada. De Filippis resolveu então, aos 33 anos, encerrar sua carreira no automobilismo e ficou décadas sem sequer ir a um autódromo. No ano seguinte de sua aposentadoria, ela se casou com o químico austríaco Theodor Huschek e logo teve filhos.

Ela passou a ter algum contato com o esporte a motor novamente apenas em 1979, quando entrou para o Clube Internacional dos Ex-Pilotos de F1, entidade da qual chegou a se tornar vice-presidente em 1997. Assim, ela voltou a participar de eventos de clássicos e chegou até mesmo a pilotar alguns de seus antigos carros em exibições.

Maria Teresa de Filippis morreu em 2016, aos 89 anos. Depois dela, apenas mais quatro mulheres participaram da F1. A também italiana Lella Lombardi foi única a pontuar com um sexto lugar no GP da Espanha de 1975. Depois vieram a inglesa Divina Galica, a sul-africana Desiré Wilson e mais uma italiana, Giovanna Amati, que tentou se classificar por três vezes em 1992, sem sucesso.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.