McLaren-Honda patina e fica em situação delicada antes de ano decisivo

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As profundas mudanças no regulamento técnico da F1 para 2017 representaram um fio de esperança para a McLaren, que acreditava poder aproveitar brechas e dar um salto de performance para voltar aos seus tempos de glória. Mas, apesar de ter iniciado o ano de cara nova, com alterações no corpo técnico, chefia, piloto e até na cor do carro, o aspecto mais importante de toda essa mistura se manteve o mesmo, com problemas mecânicos recorrentes no conjunto e falta de competitividade.

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A situação para os lados de Woking neste início de ano gera grande preocupação no time não só pela possibilidade de mais uma temporada apagada, mas também pelo risco de representar outro tropeço determinante para seu futuro. Por isso, listaremos quais são os maiores desafios que a McLaren enfrenta neste início de 2017 e por que, por ora, o cenário não parece nada animador para a escuderia.

A dimensão dos problemas

Muitos podem ignorar este fato, mas a McLaren não sabe o que é ser realmente competitiva há um bom tempo – e isso inclui duas temporadas com os badalados motores Mercedes, em 2013 e 2014, quando subiu no pódio em apenas um GP de 38 disputados. Antes disso, quando acertou no MP4-27, jogou a chance de conquistar o título de 2012 com suas inúmeras falhas mecânicas.

Última vitória da McLaren foi no distante GP do Brasil de 2012
Última vitória da McLaren foi no distante GP do Brasil de 2012

Mesmo assim, para muitos, o fracasso recente do time fica somente por conta da Honda, que, de fato, entregou um produto que deixou a desejar quando retornou à F1, em 2015. Além da potência (especulada entre 50 e 80 cv a menos que as concorrentes), prejudicada tanto pelo motor de combustão interno quanto pelas baterias, o conjunto também apresenta confiabilidade deficiente com seu conceito ultracompacto. Como já explicamos no Projeto Motor, os motores modernos da F1 precisam trabalhar em perfeita sincronia para recuperar energia de forma eficaz, e a Honda ainda está longe de alcançar tal objetivo.

De olho no tão esperado salto de qualidade, o modelo RA617H apresenta conceito diferente em relação ao seu antecessor, sobretudo na disposição do turbocompressor e do motor dentro do chassi. O objetivo é não só elevar a potência da conjunto, mas também melhorar o centro de gravidade e proporcionar ganho no equilíbrio.

Objetivos frustrados

No momento, nada do planejado está saindo do papel – na verdade, um dos grandes assuntos do começo da pré-temporada da categoria, em Barcelona, é justamente a questionável confiabilidade da unidade de potência japonesa.

McLaren teve diversos problemas nos primeiros dias da pré-temporada (McLaren)
McLaren teve diversos problemas nos primeiros dias da pré-temporada (McLaren)

Nos cinco primeiros dias de treinos, houve três falhas aparentes: um defeito no tanque de óleo no primeiro dia, uma falha em um dos cilindros do motor de combustão interna na segunda jornada e problemas elétricos no quinto dia de testes. Para piorar, Yusuke Hasegawa, diretor da Honda na F1, admitiu não ter ideia do que pode ter causado as quebras mais recentes, de teor mais grave.

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Com duas temporadas decepcionantes nas costas e a possibilidade de mais um ano de vacas magras, o desafio que aparece para a equipe é manter o relacionamento saudável entre as partes enquanto se trabalha por uma solução. E não estamos falando apenas de conter o temperamento às vezes explosivo de Fernando Alonso. Nos testes, foi a vez de Éric Boullier, diretor esportivo da McLaren, dar declarações intrigantes sobre o assunto.

No primeiro dia de atividades da segunda bateria, quando Stoffel Vandoorne precisou ficar por horas na garagem enquanto esperava a troca de motor de seu carro após uma falha, Boullier deu sinais distintos na coletiva de imprensa, acompanhada de perto pelo Projeto Motor.

Boullier deu sinais de desgaste da parceria entre McLaren e Honda (McLaren)
Boullier deu sinais de desgaste da parceria entre McLaren e Honda (McLaren)

Primeiro, houve momentos em que mostrou paciência e solidariedade aos colegas japoneses. “Ainda não estou muito preocupado [com a situação]. Nosso trabalho [nos testes]era validar dados e gerar o máximo informação que pudéssemos para fazer a correlação com o CFD, túnel de vento e outras simulações. Nessa parte, gostaríamos de ter testado mais, mas o que fizemos já foi bom”, ponderou o francês, que também descartou qualquer chance de rompimento com a Honda em curto prazo. “Não há chance. Temos um sólido contrato de longa duração em vigor e vamos cumpri-lo.”

Em outros momentos, porém, deixou a diplomacia de lado e limitava-se a dizer “pergunte à Honda” quando se deparava com questionamentos espinhosos. Além disso, disse que a relação estava em “tensão máxima”, responsabilizou os parceiros pelo fracasso do conjunto e insistiu que o trabalho feito no chassi é satisfatório. “Na verdade, o carro reage bem a qualquer modificação que fazemos. No geral, os pilotos estão bastante felizes com o carro. Vi veículos dizendo que nosso carro não está bem nas primeiras três curvas [de Barcelona], mas isso são, como diria Donald Trump, fake news. Isso não é só o chassi. Lembrem-se de que os motores são híbridos, então você tem a participação do motor elétrico quando pisa no acelerador. Estamos tendo alguns problemas de dirigibilidade, o que significa que, quando os pilotos retomam a acelerada, eles perdem a traseira do carro”, disse.

Contudo, ainda é difícil mensurar a real eficácia do MCL32. Todas as equipes andaram longe do limite nas primeiras baterias de testes, já que ainda avaliavam o funcionamento de carros com construção inteiramente nova. E a McLaren, receosa com as falhas de um conjunto frágil, ficou ainda mais aquém do que ela própria pode entregar em termos de desempenho.

Corrida contra o tempo

Vandoorne
Dia de Vandoorne foi atrapalhado por quebra em Barcelona (McLaren)

Algumas mudanças de caráter emergencial já foram tomadas. Membro da Ferrari durante a “Era de Ouro” de Michael Schumacher, Gilles Simon deixou o posto de consultor da Honda na F1 no início de março. Porém, a poucas semanas do GP da Austrália, trata-se de uma corrida contra o tempo que a própria McLaren sabe ser difícil de vencer.

O time ainda não definiu qual será o cronograma para a introdução de seus novos motores. A especificação prevista para o GP da Austrália, que deveria ter ido à pista no dia 7 de março, ficou em modo de espera em meio às diversas falhas mecânicas já apresentadas – em cinco dias de atividades, foram utilizados quatro motores, o que já extrapola a quantidade prevista por regulamento para a temporada inteira.

Enquanto isso, as fabricantes concorrentes seguem em evolução plena. Por exemplo, a Renault esperava ganhar 0s3 por volta com sua unidade, e a cliente Toro Rosso destacou que sua potência é perceptível e notável. Já a Ferrari, que já havia alcançado um nível satisfatório nas últimas temporadas, focou na confiabilidade do pacote, tanto na parte do motor quanto na caixa de câmbio, em trabalho já elogiado pela Haas.

McLaren ainda espera testar o motor que será usado em Melbourne (McLaren)
McLaren ainda espera testar o motor que será usado em Melbourne (McLaren)

Este cenário exemplifica um dos maiores desafios da Honda na F1: tentar correr atrás das concorrentes em um regulamento que ainda possui boa margem para desenvolvimento. Ou seja, os japoneses, que já entraram na F1 com anos de atraso em relação aos rivais, ainda veem as outras marcas evoluírem seus equipamentos. Por isso, a Honda precisa alcançar uma curva de desenvolvimento maior do que a concorrência para descontar o atraso, o que, como visto, não é exatamente fácil.

É claro que um início de ano conturbado não necessariamente significa que a temporada inteira está perdida. A expectativa é de que haja uma corrida por desenvolvimento imensa entre as equipes do grid, pois o novo regulamento aerodinâmico dá brecha para evolução, e o sistema de tokens para os motores foi descartado.

Porém, os acontecimentos colocam ainda mais pressão em uma equipe que não pode mais se dar ao luxo de errar. A McLaren tem semanas importantes pela frente para tentar evitar que a temporada comece totalmente em baixa, o que colocaria ainda mais descrença em uma parceria que até agora não se mostrou nada frutífera.

PMotor Entrevista #7 – Ricardo Divila: “A F1 deformou o automobilismo”

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Gustavo Segamarchi

    Análise muito boa.

    Torço muito para que essa parceria ainda possa trazer títulos. Mas, para isso acontecer, acho que a Honda precisa mudar o seu conceito de ideologia de só pensarem em engenheiros japoneses.

    A Honda precisa urgentemente recrutar engenheiros competentes de outras nacionalidades.

    Eu já sou daqueles que acho que, a Honda deveria chamar o Illien para o lugar de Gilles Simon, pois sabidamente, é ele(Illien) um dos responsáveis pelo grande salto de confiabilidade e performance da Renault em 2016.

    Go, McLaren. Go, Honda.

    • Rapaz, mas o senhor estava sumido, hein? Seja bem-vindo de volta! Seus comentários fazem falta por aqui. Abraços!

  • Diogo Rengel Santos

    Ou seja, o que podemos ver da McLaren é um carro que quebra bastante e que vai ter tanta punição que vão rolar as piadas – “vai largar lá de ….”

    Uma decepção a Honda. E casos como este mostram a complexidade da mecânica híbirda, algo que Mercedes dominou sozinha nas últimas temporadas e que só a Ferrari achou o caminho das pedras. Sendo que a Renault ainda continua atrás.

    A pergunta que fica é: com uma mecânica complexa destas como esperar que outros fabricantes ingressem no certame? Pra passar vergonha?

    • Cassio Maffessoni

      Concordo e muito com esse ponto. Não digo só dos fornecedores de motores não, mas até mesmo o ingresso de novas equipes em geral, pois creio que não vai adiantar nada o Gene Haas fazer uma propaganda praticamente de graça pra caras como Rick Hendrick e o Roger Penske que sempre trabalharam com orçamentos pequenos perto do necessário da F1 entrarem numa brincadeira cara dessas, se não mudarem a estrutura como um todo. O próprio Roger deu a entender isso em sua entrevista após receber o convite do Gene Haas: “Gostaria de ter uma equipe lá, mas é um clube fechado”.

      Penso eu que se for pra inflar com participantes que não terão chance de agregar algo a competitividade do certame, fiquemos com esses 20 carros mesmo! A própria Honda não está agregando no fornecimento de motores – estes complexos demais até pra ótima engenharia mecânica japonesa – e as equipes que vieram em 2010 também não somaram em nada, além de terem contado com uma regra que nesse sistema de “diálogo e democracia” da época era extremamente frágil, tanto é que foi facilmente derrubada com o lobby das equipes de maior poder aquisitivo. Não bastasse isso ainda foram confiar na Cosworth que havia sido picotada em mil pedaços após ter sido vendida pela Ford e já não tinha condições nem de oferecer motores de baixo custo com qualidade razoável, sendo que claramente os “menos piores” equipamentos eram oferecidos logo de cara para a Williams, enquanto as outras ficavam com o cacareco do cacareco.

      É difícil trazer competidores de qualidade, com regulamentos tão dignos de Professor Pardal, como essa tecnologia híbrida que pra mim soa muito mais como esmola pros Ecochatos não encherem o saco, do que como uma real preocupação com o meio ambiente.

  • A Honda fez uma aposta e perdeu. A tendência é que se recupere ao longo dos próximos dois anos. A pressão maior pela urgência vem de Alonso, de sua idade, de sua falta de paciência. O time até poderia esperar, mas o espanhol não… Será que não?

    Alonso não vai largar o osso assim tão fácil. Ele vai fazer de tudo para dar uma volta por cima antes de se aposentar e, se não aparecer vaga alguma dando sopa num time mais competitivo, ele vai ficar até o conjunto McLaren Honda melhorar… reclamando o tempo todo, obviamente…

  • Dox

    Para se dar bem no automobilismo é preciso ter criatividade para elaborar algo revolucionário, eficiente e pouco visível à concorrência.
    Muitos falam sobre os motores, mas a Mercedes provavelmente teve em seu chassi o seu grande trunfo.
    Tenho o GP de Austin todo onboard e percebi que o carro da Mercedes é mais mole, percebendo-se claramente um curso maior da suspensão dianteira, enquanto que o restante do grid é bem mais rígido.
    Sua tomada de ar tambem era maior, o que poderíamos supor que ali dentro poderia haver algum dispositivo aerodinâmico, já que ela não é usada para a combustão.
    Se a McLaren não desenvolver algo inovador, não vai sair do lugar.
    Sobre o motor Honda, ele deve empurrar o suficiente, mas segundo relatos de instabilidade em curva, ele pode estar com sua curva de torque muito agressiva para determinada faixa de giro, e assim o carro fica menos suave.
    Enfim … é uma lista de chutes que deve ser bem maior lá pelos lados de Woking, pois os caras estão de cabelo em pé para poder voltar a brigar por pontos mais valiosos.

    • Diogo Rengel Santos

      Sobre inovação eu diria que depende. Nem sempre um projeto inovador pode ser bem sucedido. E o caso da Honda, quando inventaram um conceito de um motor “compactado” foi um tremendo tiro pela culatra em termos de confiabilidade;

      Outro caso de inovação que foi um grandessíssimo tiro n’água foi o protótipo GT-R LM Nismo que foi disputar as 24 horas de Le Mans em 2015 e tomou coro – de maneira semelhante à McLaren, um carro lento e pouco confiável

      http://images.car.bauercdn.com/pagefiles/11086/1752×1168/02nissan-gt-r-lm-nismo.jpg?mode=max&quality=90&scale=down

      • Dox

        Então, Diogo … como tive o cuidado de salientar, é preciso eficiência nesta criatividade, e não só inventar por inventar.
        O que todos sabemos é que quem prefere copiar nunca vai chegar aos mesmos resultados positivos do original.
        O que pode haver, nestes casos de “inspirações”, é um aperfeiçoamento bem sucedido.
        Neste caso da Nissan que você ilustrou, poderá ver aqui mesmo a entrevista do Divila onde ele diz que a verba destinada à LMP1 era bem inferior à Porsche, por exemplo, sendo que foi um dos motivos pelo qual os alemães se deram bem neste campeonato, mas que ajudou a inflacioná-lo, e que fez com que tenhamos poucos carros nesta categoria em 2017.
        A Renault/Nissan tem muitas frentes no automobilismo de competição, e não daria para eles colocarem a verba necessária para um desenvolvimento ideal.
        Vejo o caso da McLaren como dentro do previsto, já que a Honda entrou depois e ambas foram bem otimistas em querer ter a mesma performance de Renault, Ferrari e Mercedes.
        O que vejo de mais otimista nos problemas que eles vêm enfrentando é que a parte à combustão está com desempenho compatível, sendo que os problemas apresentados estão nos periféricos, e não há motores melando a pista.

  • Luiz S

    Como eu queria que a McLaren entrasse nos eixos