McLaren muito perto dos 50 GPs sem vitória; até onde vai o jejum?

1

Não é legal, para qualquer pessoa de bom senso que aprecia o esporte a motor, ver a segunda maior equipe em número de títulos na história da F1 estar na situação elegíaca em que se encontra a McLaren. O quinto lugar de Fernando Alonso no GP da Hungria foi mera ilusão: duas semanas mais tarde, a presença do espanhol e do companheiro Jenson Button na última fila da etapa da Bélgica se mostrou uma baita ducha de água fria. Ou seria choque de realidade?

O Projeto Motor já explicou, neste artigo aqui, quais são as dificuldades enfrentadas pela esquadra bretã do ponto de vista do motor: uma arquitetura vanguardista que, por ser arrojadamente compacta, apresenta problemas especialmente na parte de refrigeração. Mas não fica nisso. Reportagem de publicada há quase três meses pelo jornal espanhol El País credita a uma fonte de dentro do time a seguinte declaração:

Todos enchem a boca para comentar sobre as dores de cabeça que a unidade de potência tem nos causado, mas [eu diria]que ela representa uns 60% [de todos os problemas]. Os outros 40% vêm do chassi”, teria dito.

Éric Boullier, o discreto chefe da escuderia, jamais confirmou ou desmentiu essa afirmação, mas já admitiu que, se está difícil domar a complexidade do propulsor híbrido japonês, o conceito aerodinâmico do MP4-30 também passa longe de ter atingido seu ápice. Em entrevista divulgada nesta semana pelo excelente site Crash.net, o francês iterou, de forma resumida: “Sabemos que não temos o melhor chassi, mas ele não é ruim. É melhor que o de 2014 e ainda precisa de uns dois ou três anos para extrair seu máximo. Em desempenho puro, Mercedes, Red Bull e Ferrari são melhores, mas estamos correndo atrás”.

Enquanto a equipe busca respostas para o desempenho catastrófico em 2015 – quem imaginaria algo assim ao ver uma das parcerias mais bem-sucedidas da história da categoria sendo reeditada? -, o tempo vai passando. No próximo domingo (6), no GP da Itália, os ingleses estão prestes a alcançar uma marca bastante ruim: 50 GPs seguidos sem vencer. O último triunfo foi conquistado por Button no cada vez mais distante GP do Brasil de 2012, evento que completará três anos daqui a algumas semanas.

Jenson Button, no GP do Brasil de 2012, foi último representante da McLaren a ver a quadriculada na frente dos outros
Button, no GP do Brasil de 2012, foi último ás da McLaren a ver a quadriculada antes dos outros

Somente em duas outras oportunidades a McLaren amargou um jejum tão grande de vitórias: entre os páreos do Japão de 1977 (vencido por James Hunt) e da Grã-Bretanha de 81 (faturado por John Watson), passaram-se 53 corridas. Depois, do GP da Austrália de 93 (última vitória de Ayrton Senna) ao da Austrália de 97 (David Coulthard triunfou no debute da fase “flechas de prata”), foram 49.

Em Silverstone/81, John Watson encerrou seca de 53 GPs em Woking
Em Silverstone/81, John Watson encerrou seca de 53 GPs em Woking

N’ambas, porém, era possível vislumbrar uma luz no fim do túnel da crise: em 81, Watson já usava o MP4-1, primeiro F1 da história a ser construído em fibra de carbono. O controle das operações estava em mãos de Ron Dennis e o gênio John Barnard era o projetista-chefe. Os alicerces para o período hegemônico perpetuado de 84 a 91 já estavam sendo construídos.

Dezesseis primaveras mais tarde, Coulthard colhia os primeiros frutos de uma bem amarrada parceria com a Mercedes-Benz, que cedo ou tarde daria resultados. Fora que, àquela ocasião, Adrian Newey passava a compor o quadro de funcionários de Woking.

No GP da Austrália de 97, Coulthard fez algo que ninguém conseguia desde Senna: colocar a McLaren no degrau mais alto do pódio
No GP da Austrália de 97, Coulthard fez algo que ninguém conseguia desde Senna: colocar a McLaren no degrau mais alto do pódio

“Oras, mas se nesses casos as coisas se resolveram, não existe luz no fim do túnel de uma reunião entre duas gigantes como McLaren e Honda?”. Claro que há, e acreditamos que nenhuma das duas partes vá se contentar com o desempenho tão ruim que o conjunto vem apresentando nesta estação. O ponto é que, enquanto das outras vezes a escuderia já se encontrava muito perto da solução quando se aproximou das 50 corridas em jejum, desta a estatística será alcançada bem no epicentro da crise, logo numa corrida que deve acentuar ainda mais as deficiências do bólido.

Se as previsões de Boullier estiverem corretas e a McLaren precisar de mais três anos para se restabelecer, então é provável que os 50 GPs se tornem 100, o equivalente a seis anos sem saber o que é completar um evento de F1 na primeira colocação. Para uma organização de tamanho calibre é um hiato muito grande, quase inadmissível. E eivado de ironia: se com a Honda a companhia criada por Bruce McLaren viveu seu período de maior glória, entre 88 e 92, desta vez será com a parceira oriental que a esquadra terá de superar sua fase mais difícil.

Confira abaixo os dez maiores períodos em que a McLaren ficou sem triunfar na F1:

  1. Japão/1977 até Inglaterra/1981 – 53 GPs
  2. Brasil/2012 até Bélgica/2015 – 49 GPs
  3. Austrália/1993 até Austrália/1997 – 49 GPs
  4. Malásia/2003 até Bélgica/2004 – 27 GPs
  5. México/1969 até África do Sul/1972 – 24 GPs
  6. Japão/2005 até Malásia/2007 – 20 GPs
  7. África do Sul/1972 até Suécia 1973 – 16 GPs
  8. Mônaco/1966 até Bélgica/1967 – 13 GPs
  9. Estados Unidos/1968 até México/1969 – 12 GPs
  10. Leste dos Estados Unidos/1983 até Brasil/1984 – 12 GPs

 

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.