McLaren não é a primeira grande da F1 a ficar na seca de vitórias

2

Sem vencer há três anos, a McLaren enfrenta a pior crise de sua história na F1. Com dois pilotos onerosos e uma estrutura colossal para sustentar, o time de Woking chegou em Interlagos, na última semana, à incômoda marca de 57 GPs sem vitórias – a pior sequência de sua história.

De qualquer forma, todos os grandes times do esporte, em menor ou maior escala, já passaram por situações parecidas. A Ferrari, por exemplo, sobreviveu à crise administrativa dos anos 90 e se tornou a equipe mais vencedora dos anos 2000. A Lotus, por outro lado, sucumbiu aos problemas financeiras e deixou de existir no fim de 1994.

Neste exercício de memória, o Projeto Motor relembra abaixo os maiores jejuns de grandes equipes na categoria, começando pela própria McLaren e incluindo Williams, Ferrari e Lotus.

Stephen South: esse era o nível de piloto reserva na McLaren em 1980 (Divulgação)
Stephen South: esse era o nível de piloto reserva na McLaren em 1980 (Divulgação)

McLAREN (1978-81 e 1994-96)

Fora a atual, a McLaren passou por dois grandes períodos de seca na F1. O primeiro – que durou 53 GPs, entre Argentina-78 e França-81 – ocorreu durante a transição entre as gestões Teddy Mayer e Ron Dennis.

À época, o mau retrospecto nas temporadas 1978 e 79 convencera a Philip Morris de que uma fusão com a Project Four, equipe de F2 chefiada pelo ex-Cooper Ron Dennis, poderia trazer o time de volta às vitórias – lembrem-se que a equipe de Woking também se dividia naquele tempo entre F1 e Indy.

Foi então que, em setembro de 80, a união entre as duas empresas se concretizou e, logo no ano seguinte, John Watson encerrou o jejum com uma vitória em Silverstone – conquistada, diga-se de passagem, graças ao primeiro carro construído pela Project Four com o nome de McLaren, o MP4/1.

A era pós-Senna também foi traumática para o time de Ron Dennis. Após a saída do brasileiro no fim de 1993, a equipe demorou 49 GPs e três temporadas para conquistar uma vitória. A seca se encerrou na etapa de abertura de 1997, em Melbourne, com David Coulthard garantindo o primeiro triunfo do time com as cores prateadas da West e da Mercedes.

FERRARI (1990-94)

Alesi em Mônaco-92 com a F92A, um dos piores carros da Ferrari na história (Divulgação)
Alesi em Mônaco-92 com a F92A, um dos piores carros da Ferrari na história (Divulgação)

O início dos anos 90 foi uma época de penúria para Maranello. A insistência em produzir carros alimentados por motores robustos e difíceis, de 12 cilindros, e a rotatividade no staff administrativo custaram à Scuderia uma sequência de 58 GPs sem vitórias, entre Jerez-90 e Hockenheim-94.

Neste período, o pior ano foi o de 1992, em que os italianos, representados na pista por Jean Alesi e Ivan Capelli, marcaram 70 pontos a menos do que a terceira colocada Benetton no Mundial de Construtores. Um pífio aproveitamento de 62,5% de provas com falhas mecânicas – contando os dois pilotos – também contribuiu para o que muitos consideram como a pior temporada da Ferrari na história.

Em 93, a equipe recontratou Gerhard Berger – que havia se transferido para a McLaren no início da década – como piloto nº 1 e os resultados voltaram a aparecer. A presença de Jean Todt como novo diretor esportivo do time também cooperou na gradual recuperação.

Em julho de 1994, finalmente Maranello encerrou o jejum. Berger assegurou a pole position no GP da Alemanha e, beneficiado por uma falha mecânica na Benetton de Michael Schumacher, selou o triunfo.

LOTUS (1978-82)

Lotus 80: um dos exageros de Chapman na virada dos anos 70 para os anos 80 (Divulgação)
Lotus 80: um dos exageros de Chapman na virada dos anos 70 para os anos 80 (Divulgação)

O vanguardismo preconizado por Colin Chapman levou a Lotus a uma vertiginosa queda de desempenho na virada dos anos 70 para os anos 80.

Após o sucesso do Lotus 79, Chapman & Cia. se perderam ao se aventurarem numa série de experimentações, produzindo o brutalmente aerodinâmico 80 e o curioso (porém ilegal) 88. Esta confusão de conceitos resultou num longo jejum de vitórias para a equipe, que durou do fim de 78 até o meio da estação de 1982.

Ironicamente, a seca se encerrou graças a uma solução convencional: o 91 – também o primeiro modelo da Lotus a acoplar freios de carbono. Com este modelo, Elio de Angelis venceu o GP da Áustria de 82 e pôs fim à sequência negativa, após um equilibradíssimo duelo com Keke Rosberg pela ponta.

Após a morte de Chapman, a Lotus ainda experimentou um breve momento de recuperação na F1 com De Angelis e, posteriormente, Ayrton Senna. Uma série de problemas financeiros, contudo, resultou na falência da tradicional escuderia no fim de 1994.

WILLIAMS (2005-12)

Barrichello com o fracassado Williams FW33 em Sepang (Divulgação)
Barrichello com o fracassado Williams FW33 em Sepang (Divulgação)

O sucesso da Williams na F1 quase sempre dependeu da união com grandes montadoras. Nos anos 80, o time de Grove obteve dois títulos de construtores com a Honda; na década seguinte, cinco com a Renault.

No novo milênio, porém, a parceria com a BMW não rendeu conquistas. E quando a corporação bávara quis comprar o time, Sir Frank se opôs à negociação e a montadora se transferiu para a Sauber. Resultado: sem uma grande marca por trás, a equipe despencou para o pelotão médio do grid.

De 2005 a 2012, foram 131 GPs sem vitórias, mesmo com pilotos de bom calibre como Nico Rosberg e Rubens Barrichello passando pela escuderia.

A seca se encerrou em maio de 2012: Pastor Maldonado pôs o FW34-Renault na pole position do GP da Espanha (após a desclassificação de Lewis Hamilton, da McLaren) e, após uma bela batalha com Fernando Alonso, levou a Williams de volta à vitória.

Assista à edição #14 do DEBATE MOTOR, que analisou o GP do Brasil:

 Comunicar Erro

Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.