Melhor GP de Berger como parceiro de Senna o austríaco não venceu

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Dez de junho de 1990. Há exatos 25 anos, os ases da F1 largavam para o GP do Canadá, quinta etapa da temporada. O nobre leitor deve achar que estamos falando da última dobradinha de Ayrton Senna e Nelson Piquet na categoria, mas este não é o objetivo do texto. É claro que um feito como esse merece menção, mas certamente alguém já deve ter falado sobre isso em algum outro veículo, provavelmente hoje. Por isso, o Projeto Motor decidiu fazer diferente, e relembrar uma história paralela dessa mesma corrida.

Berger iniciou a ingrata trajetória como companheiro de Senna na frente, com pole para o GP dos EUA de 90. Alegria durou muito pouco
Berger iniciou a ingrata trajetória como companheiro de Senna na frente, com pole para o GP dos EUA de 90. Alegria durou muito pouco

Quando foi contratado para substituir Alain Prost como companheiro de Senna na McLaren, Gerhard Berger era visto com um dos pilotos mais velozes da grelha, embora ainda inconsistente. Muitos chegaram a prever que sua velocidade pura geraria mais dificuldades ao novo parceiro do que a precisão cirúrgica de Prost.

No classificatório para a etapa de abertura do Mundial, em Phoenix, um promissor cartão de visitas: Berger ignorou os problemas dos pneus Goodyear no abrasivo e quente asfalto do circuito citadino e cravou a pole, enfiando sete décimos na goela de Senna. Seria a promessa de mais um duelo interno de pegar fogo nas dependências de Woking.

Doce ilusão. Dali por diante, “Geraldo” seria dominado de forma incessante pelo colega, algo típico de quem divide equipe com um gênio. O domínio, ainda mais latente nas corridas que nos treinos, só teve exceção em uma ocasião: o GP do Canadá de 90. Ali, Berger teve a chance de dominar Senna como nunca conseguiu ou conseguiria fazer durante três anos de parceria. Mas não comemorou uma vitória por isso. Aliás, sequer pôde subir ao pódio para celebrar uma das melhores atuações de sua vida, se não a maior. Assista ao GP na íntegra abaixo:

Como foi a prova

Após se classificar ao lado da outra McLaren na primeira fila do grid, Berger largou para uma atuação aparentemente burocrática no circuito Gilles Villeneuve. Choveu bastante antes da prova em Montréal e, em uma pista bastante molhada, ele fez o suficiente para sustentar sua vice-liderança na largada.

Postado em segundo, comboiou Senna sem pressioná-lo durante as primeiras passagens, tal qual manda a cartilha do bom escudeiro, e chegou a ser usado como “cobaia” para a McLaren sentir se, na volta 10, com a pista já mais seca, era a hora certa de trocar os pneus de chuva pelos slick. Enquanto ainda se desdobrava para segurar o monoposto com arcos lisos sobre o piso úmido, recebeu a informação de que fora punido por queimar a largada, e não seria uma sanção leve: 60 segundos agregados ao tempo final de prova.

A partir de então, Berger iniciou sua melhor apresentação como piloto da McLaren: ciente de que teria de recuperar um prejuízo imenso, o volante do #28 imprimiu um ritmo alucinante nas 60 voltas restantes da prova, chegando até a ultrapassar Senna na freada do grampo do Cassino, na volta 14.

Circuito Gilles Villeneuve estava bastante molhado no momento da largada. Situação era ideal para Senna e tornou ainda mais difícil a recuperação de Berger
Circuito Gilles Villeneuve estava bastante molhado no momento da largada. Situação era ideal para Senna e tornou ainda mais difícil a recuperação de Berger

Líder na pista, mas não no cronômetro, Berger andou como um louco em busca do minuto perdido: negociou ultrapassagens com retardatários de maneira decidida e focada, e se manteve pelo menos meio segundo mais veloz do que todo o resto do pelotão em praticamente todas as voltas. Tudo isso, sempre bom ressaltar, em um circuito que mais parecia besuntado com sabão de tão escorregadio.

O saldo final foi uma distância de mais de 45 segundos sobre Senna na pista, suficiente para fazê-lo terminar em um irônico quarto lugar, a uma posição de coroar seu desempenho com pódio. A diferença oficial para Ayrton, o vencedor, foi de 14s850.

Após tanto esforço, austríaco nem para o pódio foi: terminou em quarto na soma de tempos, a 14s850 do vencedor Senna
Após tanto esforço, austríaco nem para o pódio foi: terminou em quarto na soma de tempos, a 14s850 do vencedor Senna

É claro que Senna, ciente da penalidade sofrida pelo companheiro, administrou a corrida e não andou tudo o que o MP4-5B, que estava um “foguete” naquele fim de semana, poderia render. Mas não se pode desprezar um intervalo de 45 segundos. É muita coisa. Dificilmente o paulistano teria conseguido acompanhar o ritmo do colega se tivesse de fazê-lo. A volta mais rápida de Berger, 1min22s077, é outra amostra de sua superioridade naquele dia, ficando quase 0s8 abaixo da segunda melhor, registrada por Nigel Mansell.

De qualquer forma, pouco adiantou todo o esforço para superar Senna, com tanta veemência, na condição de pista favorita do ilustre companheiro. É provável que nem “Geraldo” lembre em que posição completou aquele GP. E é certamente aí que reside a diferença de um Berger para um Senna no automobilismo: enquanto o primeiro tira inspiração para ir ao limite quando já não vale nada, e ninguém vai rememorar, o segundo se inspira para fazer com que todas suas atuações valham tudo, e que jamais sejam esquecidas.

Confira o Debate Motor #2, com a análise do GP do Canadá:

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.