Menos é mais? Como a F1 poderia se beneficiar de um calendário mais enxuto

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Com o passar do tempo, o grupo Liberty Media se sente mais à vontade no comando da F1 e já começa a traçar a cara que quer dar à categoria de agora em diante. Quase tudo parece ser alvo de análise da chefia, desde o regulamento técnico, a distribuição financeira, suas ações promocionais e até mesmo o formato atual da pontuação.

Porém, um assunto que por ora parece passar batido foi trazido à tona por Cyril Abiteboul, diretor da Renault. O dirigente francês observou que, de acordo com sua análise, a Fórmula 1 se tornaria mais valorizada caso enxugasse seu calendário e reduzisse seu número anual de provas.

Ao Motorsport.com, Abiteboul disse:

“Precisamos poder engajar com os fãs, mas isso precisa permanecer como algo especial. Já estamos muito acima do que deveria ser um número para algo especial. Precisamos transmitir uma mensagem de orgulho, motivação, energia. Com o calendário que temos agora, o entusiasmo não é o mesmo que era quando viajávamos apenas 15 vezes por ano.”

O aumento constante da extensão do calendário de fato é algo visível na F1 moderna. Por exemplo, no começo dos anos 80, a programação variava de 14 a 16 provas anuais; em 1995, chegou-se a 17, e o recorde só foi batido em 2004, com a presença de 18 etapas. Em 2005, o campeonato contou com 19 corridas; em 2012, novo recorde, com nada menos de 20 GPs. 2016 estabeleceu o recorde absoluto, com 21, o mesmo da atual campanha de 2018.

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E é bem provável que esse número suba ainda mais em um futuro próximo. Apesar de haver algumas provas ameaçadas, também é de conhecimento público que locais como Miami, Vietnã e Dinamarca estão de olho em uma vaguinha no calendário.

Cyril Abiteboul, chefe da Renault (Renault)
Cyril Abiteboul, chefe da Renault (Renault)

Em sua argumentação, Abiteboul traz um ponto a ser considerado: a energia e disposição dos membros das equipes durante as temporadas. Neste caso, é importante destacar que isso não se refere somente aos dirigentes e pilotos, e sim aos mecânicos e funcionários de logística, que são os verdadeiros carregadores de piano da F1.

Porém, não é este aspecto da discussão que este artigo pretende levantar. A questão é: um calendário cada vez mais extenso cria o risco de uma “banalização” da F1, reduzindo a importância de cada prova?

O critério mais básico e óbvio mostra que sim, já que, quanto mais provas um campeonato tiver, menor será o peso matemático de cada GP para a disputa mais importante – ou seja, o título. Por exemplo, em um calendário de 15 GPs, cada etapa representa 6,6% da pontuação de todo o campeonato; em uma campanha de 21 provas, o número cai para 4,7%.

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Mas, evidentemente, a discussão vai muito além. Um dos grandes trunfos de qualquer evento esportivo que se dispõe a oferecer entretenimento ao seu público é a capacidade de criar expectativas. Para isso, é importante todo o trabalho feito em comunicação, claro, mas também há o efeito natural em saber “tirar o pé do acelerador” da forma certa e em momentos importantes.

O excesso de provas em um calendário abarrotado pode dificultar ainda mais essa criação de expectativas. Com muitas corridas acontecendo em um curto espaço de tempo, o desafio de deixar aquele “gostinho de quero mais” também fica maior.

Existe receita pronta?

Nessas horas, é importante uma abordagem pragmática e bem embasada para definir qual é o melhor caminho. Os fãs assíduos podem, por muitas vezes no impulso, se apegar ao discurso de que “quanto mais, melhor”. Contudo, a questão envolve: quantos destes fãs de fato acompanham a todas as provas? Mais: qual é a programação ideal para, ao mesmo tempo, saciar a vontade do público e também instigar, de forma certeira, aquele frio na barriga de expectativa para a corrida seguinte?

Como uma modalidade que quer se manter como uma mega-atração de escala global, a F1 não tem de levar em consideração apenas os fãs assíduos, e sim chegar a um meio termo mais razoável que agrade uma fatia maior de público. Nós, amigos que acompanham o Projeto Motor, somos importantes, mas também somos minoria.

GP da Argentina quase foi cancelado em 1981: na foto, largada da prova do ano anterior (Sutton)
Temporada de 1980 teve apenas 14 GPs

A resposta ideal, por muitas vezes, pode parecer contraintuitiva. Em era de turbilhão de informações a todo instante, há o risco de se cair no esquecimento com a diminuição de eventos, certo? Nem sempre.

Por exemplo, o UFC, principal liga de MMA do mundo, embarcou há alguns anos na filosofia de “quanto mais, melhor”, com atrações praticamente semanais. A audiência não ajudou, pois houve um claro desgaste da marca e na tal gestão de expectativas. A tendência, então, passou a ser na redução no número de eventos, mas com um cuidado maior em melhorar a qualidade de cada experiência para os espectadores.

Isso sem contar que há várias outras modalidades, especialmente americanas, que passam parte do ano em recesso para que, quando as ações são retomadas para valer, a ansiedade do público esteja lá em cima. A abstinência, quando usada na dose ideal, é uma importante arma. Não há receita pronta: cada esporte possui sua própria dinâmica, de modo que o Liberty, munido dos dados certos neste aglomerado de informações, tem de entender exatamente qual é o perfil do esporte, do público e qual caminho ela quer seguir.

Uma humilde sugestão

Caso a F1 decida ir pelo caminho da redução de GPs, não será o fim do mundo para os mais fanáticos. Pelo contrário – isso poderá representar boas oportunidades para experimentar novas ações, se revigorar e dar um “respiro” de imagem que as competições oficiais não permitem.

Imaginemos se o calendário passar a seguir a tendência que era apresentada até as décadas passadas, ou seja, com cerca de 16/17 etapas, entre março e outubro. A diferença principal seria um novembro livre, que serviria para “aumentar a saudade” das provas e também seria uma importante data para inovar.

Kovalainen ganhou fama após bater Schumacher e Loeb
Kovalainen ganhou fama após bater Schumacher e Loeb

Que tal se a F1 aproveitasse novembro para realizar ações diferentes? Imagine só uma competição entre os pilotos bem organizada e divulgada, ao estilo Race of Champions, ou até mesmo uma corrida de kart, como a famosa Bercy Masters?

Seria uma importante chance para ver os pilotos fora do sisudo ambiente de competição habitual dos GPs. Fernando Alonso, por exemplo, ganhou força com muita gente com sua campanha nas 500 Milhas de Indianápolis, onde se apresentou de forma bastante despojada e relaxada, com uma simpatia que talvez nunca tenha mostrado em seus dias de F1. Isso pode ser valioso na construção da imagem dos competidores – e seria algo bastante genuíno, fugindo um pouco da às vezes coreografadas participações em redes sociais.

Além disso, uma competição amistosa cria outras possibilidades. A primeira é a chance de levar a F1 a locais que não possuem “bala na agulha” necessária para pagar as taxas exorbitantes para realizar um GP, nem contam com um circuito com a estrutura suficiente. Seria uma maneira de espalhar a F1 pelo mundo de maneira natural e sustentável.

Nisso também podem surgir narrativas interessantes. Por exemplo, no ROC de 2004, um jovem Heikki Kovalainen desbancou, numa tacada só, os ultrabadalados multicampeões Michael Schumacher e Sébastien Loeb. Ali, seu nome ganhou força e passou a ser acompanhado com muito mais atenção nos anos seguintes. Guardadas as devidas proporções, algo semelhante aconteceu com Ayrton Senna ao bater os medalhões da F1 em uma corrida amistosa de carros de rua. Imagine só se algo semelhante acontece com um Charles Leclerc, um Esteban Ocon ao desbancar Lewis Hamilton ou Sebastian Vettel – é uma boa oportunidade para talentos que ainda não conseguem brilhar na F1, já que não estão munidos do equipamento correto.

Claro, são apenas sugestões básicas, mas poderia ir muito além. Uma redução de calendário poderia trazer grandes benefícios de imagem, algo que a F1 luta com força para alcançar nos últimos anos. Mas, independentemente de sua preferência pessoal por um calendário mais cheio ou enxuto, o Liberty precisa ter sobriedade e cautela para tomar seus próximos passos nesse sentido. Opções – e oportunidades – não faltam.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.