Mistério da F1 já não encanta mais ninguém; ser espontâneo é o caminho

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* Convidado do Projeto Motor

O som começa a chegar ao fundo. Primeiro, com o som das rodas do trem passando por cada junta do trilho, naquele tranco inconfundível. O vapor soando pela chaminé aparece em seguida. E depois vem os elefantes barrindo. É o sinal definitivo. O circo chegou, e a pequena cidade abandona tudo para ver aquele espetáculo. É a descoberta de um novo mundo, com humanos capazes de proezas inimagináveis e animais que parecem saídos de uma obra de Julio Verne.

Era assim no século 19 e na primeira metade do século 20. O circo tinha uma aura de mistério e revelação. Ter contato com uma realidade nova era fascinante, fazia as pessoas perceberem como elas sabiam pouco do mundo e havia muito a conhecer e a aprender. Alguns daqueles personagens viraram ícones culturais. O maior deles talvez tenha sido Jumbo. O elefante africano viveu anos no zoológico de Londres, mas foi comprado por um circo americano em 1882. Ele se tornou a grande atração circense da época, levando à criação de diversos produtos com seu nome (até hoje usado como algo muito grande, como o Boeing 747, sanduíches bem glutões ou uma loja de departamentos).

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O mundo moderno é diferente. O circo tradicional desperta pouco fascínio, porque apenas comunidades muito isoladas ainda desconhecem as “maravilhas” que o circo tem a oferecer. A saída é buscar novas soluções, e o Cirque du Soleil é um exemplo. A organização canadense que se tornou uma multinacional do entretenimento não cativa o público pelo mistério, mas pela espetacularidade artística e uma linguagem visual e sonora que reforçam isso.

A F1 é constantemente chamada de “circo” porque monta e desmonta sua “tenda” de um lado para o outro, e isso até virou um clichê algo desgastado. Mas a comparação segue válida em algumas questões. E a forma como a categoria máxima do automobilismo tenta atingir seu público ainda se baseia em premissas do século passado.

F1 antigamente cativava por seu mistério; hoje em dia isso não funciona mais
F1 antigamente cativava por seu mistério; hoje em dia isso não funciona mais

Por décadas, ver uma prova era ter uma rara oportunidade de ter contato com os “carros mais rápidos do mundo”. Era a maravilha do mundo moderno, com engenheiros construindo carros cada vez mais parecidos com projetos do programa espacial, um motor com potência impossível e pilotos de coragem sobre-humana capazes de façanhas nunca sonhadas. O espetáculo tinha resultados variados. Havia corridas sensacionais, outras modorrentas. Mas o fascínio era suficiente para valer o programa.

O mundo moderno é diferente. A informação está por toda a parte, e o público não se surpreende com pouca coisa. Se um engenheiro construir um protótipo maluco de oito rodas, aerofólios de 3 metros de altura e formato de rampa para a disputa de uma prova amadora no interior da Nova Zelândia, o vídeo dessa aberração automotiva estará pipocando no seu Facebook em menos de 48 horas. Até alguém levar esse monstrengo para uma corrida perto de sua casa, já virou notícia velha.

É isso que a turma de Bernie Ecclestone não aprendeu ainda. A F1 insiste em se vender como algo secreto e misterioso, com supercarros fantásticos com segredos dignos de James Bond. De fato, há mistérios. A aerodinâmica chegou a níveis absurdos, buscando controlar o fluxo de cada milímetro cúbico de ar para buscar um décimo de milésimo de segundo na curva. Os fanáticos, que se debruçam em publicações como a Autosport, até têm acesso a algumas dessas informações, mas, para o público em geral, isso soa como papo de nerd. É muito chato. Aerodinâmica não é um ramo da tecnologia que fascina as novas gerações. O negócio hoje são gadgets e dispositivos eletrônicos. A Ferrari pode mudar de nome para iFerrari, mas fazer só isso provavelmente não vai adiantar. É só um palpite, fica a ideia do Projeto Motor para o Maurizio Arrivabene.

Se a F1 não tem mais o fascínio pelo misterioso como forma de mais manter a ligação com o público, ela precisa buscar outras formas de se manter popular. Claro, ter uma competição interessante na pista é o ponto de partida de qualquer coisa. Isso tem sido muito intermitente nos últimos 20 anos, com temporadas muito emocionantes e divertidas seguidas de outras muito modorrentas.

É preciso colocar a qualidade do espetáculo como prioridade, e buscar várias medidas para isso (sim, estou pensando em estudar a limitação tecnológica em algumas áreas e na distribuição mais equânime do dinheiro entre as equipes). O Cirque du Soleil vive em um mundo sem circos porque criou um show adaptado aos interesses do mundo moderno. O automobilismo precisa fazer o mesmo. Se há cinco voltas sem perspectiva de ultrapassagem, muita gente já dá uma bocejada, coloca a TV no futebol europeu que estiver à mão e vai mandar uma piada boba ao amigo no WhatsApp.

Raikkonen
Raikkonen é considerado pelos fãs como um dos poucos personagens “humanos” da F1

A outra questão a atingir é a forma como a F1 se comunica. Essa aura de segredo e mistério se tornou contraproducente. Para muita gente, a categoria se tornou tão complexa que é difícil entender o que se passa. Por mais que as transmissões tenham melhorado ao inserir trechos de conversas de rádio e informações sobre consumo de combustível e tipos de pneus já utilizados, ainda é muito dado para processar mentalmente. Muitas provas estão emocionantes na estratégia, mas o torcedor comum vê uma disputa sonolenta na pista. Pode-se dizer que ele está errado por ver apenas uma parte superficial da competição, mas a categoria precisa tratar de levar sua emoção para torcedores de todos os níveis de aprofundamento.

Para piorar, os personagens da F1 também vendem a imagem da Guerra Fria. Não falam nada porque é segredo, não demonstram emoção porque é segredo, não explicam honestamente o que aconteceu porque é segredo. O torcedor fanático, grupo no qual eu me incluo e imagino que você, leitor, também, não liga. Mas o seguidor mais casual fica cansado disso. A categoria precisa dar um motivo para ele se apegar a um piloto ou a alguma equipe, e isso só vem se soubermos o que pensam, como agem, qual a personalidade das pessoas que circulam pelos boxes.

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Isso se vê muito bem em outros esportes, sobretudo nos Estados Unidos (onde o marketing esportivo está duas voltas à frente – mesmo com uma parada nos boxes a mais – que na Europa). Equipes em diversos esportes tentam promover sua relação com a cidade em que têm sede, com ações institucionais ou usando seus ídolos. Além disso, criam conteúdo para mostrar o lado mais humano dos atletas e dar um rosto e uma personalidade aos dezenas de funcionários que também ralam no dia a dia para colocar o time em campo, quadra ou pista toda semana.

Em termos de marketing esportivo, a Europa está muito atrasada em relação aos EUA
Em termos de marketing esportivo, a Europa está muito atrasada em relação aos EUA

Nos últimos tempos, as coisas mais próximas de humanizar a F1 são o Red Bulletin, o boletim de imprensa fanfarrão da Red Bull, o perfil zoeiro da Lotus no Facebook e os momentos em que Kimi Raikkonen se aproxima demais de uma garrafa. Fora isso, não vemos as equipes se preocuparem em conversar com seu público, em fazer algum trabalho social em sua cidade (ou nas cidades que a categoria visita), tampouco em interagirem de forma mais solta, eventualmente com provocações saudáveis. Pelo contrário. Elas se afastam, se colocam em um patamar do qual mortais não devem se aproximar, não se provocam como se isso fosse coisa de plebeu.

Isso era incrível na década de 1980, mas o público médio, sobretudo o mais jovem, não suporta essa atitude. E a F1 precisa mudar, porque a turma que tornou a categoria no evento esportivo anual mais visto do mundo já está envelhecendo, e a audiência não está se renovando satisfatoriamente. Se a turma de Bernie não acordar, vai se tornar um mito do passado, um elemento cultural que se espalhou por diversos lugares e ninguém sabe de onde veio. Jumbo virou nome de avião, mas o original morreu em 1885, atropelado por um trem. Daqui a pouco, é capaz de algum garoto aparecer dizendo que Fórmula 1 é nome de hotel econômico simplesmente porque a F1 original não soube falar a língua que esse jovem entende.

Confira a análise do GP da Hungria feita pela equipe do Projeto Motor no Debate Motor:

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal foi editor do Tazio e atualmente é editor dos sites Trivela e Extratime. Também trabalha como comentarista de futebol e beisebol na ESPN, mas aprendeu a amar esportes vendo as disputas de Piquet, Prost e Lauda na F1, sonha em ver um carro tão bonito quanto a Lotus preta de Ayrton Senna e ainda acorda cedo (ou fica acordado até muito tarde) todo domingo de corrida