Montoya é único homem capaz de ressuscitar magia da Tríplice Coroa

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GP de Mônaco, 24 Horas de Le Mans e 500 Milhas de Indianápolis certamente são os eventos automobilísticos mais importantes e tradicionais da história. O primeiro é realizado desde 1929; o segundo começou em 1923; já o terceiro data de 1911. Cada um traz dificuldades e exigências (táticas, técnicas e físicas) diferentes, mas a satisfação do vencedor costuma ser similar.

Empurrado pelo Matra-Simca MS670, com o cultuado som do V12, Hill fechou a Tríplice Coroa com triunfo na edição 72 de Le Mans
Empurrado pelo Matra-Simca MS670, com o cultuado som do V12, Hill fechou a Tríplice Coroa com triunfo na edição 72 de Le Mans

Poucos são aqueles que conseguiram disputar as três provas no auge de suas carreiras. Apenas um pôde bater no peito e falar: “Já venci em todas”. Este é Graham Hill. Conhecido como “Mr. Monaco”, por ter pendurado cinco vezes sobre o pescoço a coroa de vencedor no Principado (1963 a 65; 68-69), o bicampeão de F1 também foi capaz de ganhar em Sarthe (na edição de 72, guiando o lendário Matra-Simca MS670 junto com ninguém menos do que Henri Pescarolo) e Indiana (em 1966, a bordo de um Lola-Ford da Mecom Racing).

Seis anos antes, britânico também obteve êxito em sua "invasão" a Indianápolis
Seis anos antes, britânico obteve êxito logo em sua primeira “invasão” a Indianápolis

Nunca antes e nunca mais um ás esteve perto de repetir o feito, batizado de “Tríplice Coroa” do esporte a motor. Hoje, só há um capaz de igualá-lo: Juan Pablo Montoya. Triunfante na etapa monegasca da F1 em 2003 e em duas edições das 500 Milhas (2000 e 2015), o colombiano reatiçou o brilho no olhar dos fãs mais nostálgicos ao pontear o teste pós-temporada para novatos do Mundial de Resistência no Bahrein, treinando pelo atual protótipo campeão da categoria LMP1, o Porsche 919 Hybrid #17.

O latino cravou 1min40s861 ao longo da sessão, superando o segundo colocado, Richie Stanaway (Audi), por margem de 1s2. O desempenho surpreendeu até os dirigentes da Porsche. “Ficamos muito impressionados com tudo que Juan fez. Ele foi muito profissional e mostrou velocidade logo de cara”, declarou Andreas Seidl, chefe da escuderia germânica. Montoya também gostou da experiência:

O carro é fantástico. Muito divertido. Tem muita potência e é bastante estável. É até chocante porque, de certa forma, é fácil. Fica tão previsível que ele te convida a extrair tudo e mais um pouco. Este é o principal segredo: descobrir o equilíbrio entre ser veloz e passar do ponto.”

Colomb
Colombiano guiou o 919 #17 dos campeões Mark Webber, Timo Bernhard e Brendon Hartley

Nada garante que o atual vice-campeão da Indy vá disputar Le Mans de fato, muito menos vencer – seu tempo a 1s1 daquele alcançado por Timo Bernhard durante o classificatório para as 6 Horas do Bahrein, realizado dois dias antes, o que significa que ainda há um longo aprendizado pela frente -, mas ao menos dá duas boas indicações: 1) Montoya gostou da brincadeira; 2) ele tem boas chances de ser competitivo caso resolva correr de verdade. Veja o que o colombiano afirmou sobre a possibilidade de disputar as 24 Horas:

Seria legal fazer isso [competir em Le Mans], mas teria que ser em um carro assim. Não estou interessado em correr de GT ou em um carro menor.”

Triunfo
Triunfo no GP de Mônaco veio na edição de 2003, provavelmente a melhor temporada de Montoya na F1

Esta última declaração mostra como Montoya está cônscio de ser o único homem no mundo capaz de igualar o feito de Graham Hill em curto prazo. Os fios brancos na cabeça também indicam vivência suficiente para saber quais escuderias lhe proporcionariam chances reais de conquistar o circuito semicitadino de 13 quilômetros.

A ver se alguma esquadra da classe principal, em especial a própria Porsche, topará levar o desafio a sério. Em tempos de restrições contratuais, que impedem os volantes de disputar campeonatos distintos de forma paralela, ficou muito difícil imaginar um vencedor contemporâneo do páreo de F1 em Monte Carlo (como Fernando Alonso, Lewis Hamilton, Sebastian Vettel ou Nico Rosberg) fazendo as 500 Milhas, por exemplo. Quem mais se aproxima de Montoya é Mark Webber: duas vezes vitorioso em Mônaco (2010 e 2012) e atual campeão do WEC, o australiano carrega possibilidades reais de também colocar seu nome no rol dos vencedores em Le Mans, mas duvido que pense em se aventurar no quadrioval de 2,5 milhas posteriormente.

Com triunfos
Montoya é volante com maior hiato entre duas vitorias nas 500 Milhas: foram 15 anos entre triunfos de 2000 e 2015

Logo, a única esperança é Montoya. Mesmo que não vença, “João Paulo” tem tudo para reavivar a magia quase perdida da Tríplice Coroa só de disputar as 24 Horas por uma equipe que lhe dê condições de, pelo menos, tentar. Quem sabe, com isso, o colombiano não ajude a reduzir a distância cada vez maior entre três categorias tão distintamente interessantes. É difícil, mas não impossível. Nos tempos áureos deste esporte, Graham Hill provou que a interação pode dar certo.

Confira abaixo a escassa lista dos seis automobilistas que conseguiram triunfar em pelo menos duas das três provas que formam a tríplice coroa:

Tríplice coroa: Graham Hill
GP de Mônaco e 24 Horas de Le Mans: Tazio Nuvolari, Maurice Trintignant e Bruce McLaren
GP de Mônaco e 500 Milhas de Indianápolis: Juan Pablo Montoya
24 Horas de Le Mans e 500 Milhas de Indianápolis: AJ Foyt

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Luiz Felipe Mello

    Seria sensacional e, muito bom, para as categorias que liberassem seus pilotos para tentar alcançar essa façanha, mas é algo inviável pela estúpida postura da F1. Entre Indy e WEC, beleza, mas Bernie é maluco.