Morre Lolô Cornelsen, arquiteto brasileiro de Jacarepaguá e Estoril

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Morreu na última quinta-feira (05), em Curitiba, o arquiteto Ayrton Lolô Cornelsen, aos 97 anos, de falência múltipla dos órgãos. O paranaense foi responsável, entre diversas obras, pelos projetos dos circuitos de Curitiba, Luanda (Angola), Estoril (Portugal) e Jacarepaguá, além de ter inventado a caixa de brita, que por décadas foi padrão para áreas de escape das principais pistas do mundo.

Lolô Cornelsen foi da geração da arquitetura moderna brasileira, com trabalhos dentro e fora do país no ramo de hotelaria, casas, clubes e outros. Nos anos 50, ele se tornou diretor do Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná e foi responsável por diversas obras de infraestrutura no estado como a Rodovia do Café, a Estrada da Graciosa e o ferry-boat de Guaratuba.

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Sua fama e expertise com estradas o fez ser convidado para projetar o Autódromo Internacional de Curitiba, inaugurado em 1967 e que por muitos anos foi considerado um dos melhores e mais modernos do país.

Ayrton Lolô Cornelsen
Lolô Cornelsen, arquiteto brasileiro famoso pela construção dos autódromos de Curitiba, Estoril, Luanda e Jacarepaguá (Foto: Reprodução)

Estoril e Luanda

O bom resultado com a pista paranaense o fez ser chamado para outros trabalhos do tipo. Entre eles, o do circuito português do Estoril e, paralelamente, de Luanda, na Angola, que na época ainda fazia parte de Portugal.

Os dois autódromos foram construídos na mesma época e inaugurados com uma diferença de apenas 21 dias, em maio e junho de 1972. Ambos foram bem recebidos por pilotos, equipes e comunidade internacional do automobilismo, com o traçado português cumprindo o objetivo de entrar no calendário da F1 pouco mais de uma década depois, em 84.

Curiosamente, porém, Lolô Cornelsen foi a pista angolana que foi considerada na época uma das mais modernas do mundo. O autódromo faria parte de um grande complexo turístico, que incluiria ainda resorts, shoppings e um grande cassino. A dona do empreendimento era a empresa Autodel, que chegou a conceder ao arquiteto brasileiro 7% da renda anual do novo autódromo ao arquiteto brasileiro para acelerar a obra, que foi finalizada em um ano.

O circuito possuía três tipos diferentes de traçado, painéis luminosos para sinalizar aos pilotos, torre de controle, arquibancada para 20.000 espectadores, heliporto e boxes com 30 garagens. Lolô Cornelsen ainda foi responsável por toda malha rodoviária que levava ao circuito, tudo com a assistência do engenheiro Júlio Basso.

Circuito de Luanda, projetado por Lolô Cornelsen
Obras do circuito de Luanda, inaugurado em 1972

O que mais chamou a atenção, no entanto, foi a criatividade para aumentar a segurança. Cornelsen mandou pegar pedras restantes da demolição de uma usina de concreto que estava instalada no local e espalhar pela área de escape da curva mais rápida do traçado para que os carros perdessem a velocidade se saíssem da pista. Estava criada a caixa de brita, item utilizado até hoje em muitas pistas, apesar de na última década de sido substituída por asfalto nos principais autódromos da F1.

Muitos pilotos que competiram no circuito de Luanda, incluindo nomes do calibre de Emerson Fittipaldi e Niki Lauda, chegaram a considerá-lo um dos melhores do mundo. Só que a festa durou pouco. A Angola declarou independência em 1975, só que os grupos políticos locais não se entenderam sobre o futuro do país, que caiu em uma guerra civil por décadas.

Desta forma, o circuito de Luanda passou a ser utilizado como uma área de treinamento militar e o automobilismo local foi praticamente abandonado. O autódromo foi reaberto em 2007, cinco anos após o término da guerra civil, e hoje é administrado pela federação angolana e recebe provas locais.

Nova pista de Cornelsen para a F1: Jacarepaguá

Com um currículo já muito bom para a construção de autódromos, Cornelsen recebeu na segunda metade da década de 70 um novo desafio: a construção do circuito de Jacarepaguá.

A nova pista seria na verdade uma remodelação total de um traçado que existia no bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, nas costas da Barra da Tijuca, junto ao um mangue, conhecido como “Autódromo Nova Caledônia”. A ideia era receber a F1, que tinha como casa no Brasil a cidade de São Paulo com Interlagos.

Jacarepaguá foi sede do GP do Brasil nos anos 80

Cornelsen conduziu todos os estudos e projetos para construir o que logo ficou conhecido como um dos melhores circuitos do mundo. Jacarepaguá não era tão moderno quanto Luanda em termos de estrutura, porém, estava no mesmo nível dos principais autódromos europeus e o do mundo. E o traçado por décadas foi um dos favoritos de pilotos estrangeiros e brasileiros, com curvas de baixa, média e alta velocidade, e duas grandes retas.

Jacarepaguá foi inaugurado em 1977 e sediou o GP do Brasil de F1 pela primeira vez no ano seguinte. Em 81, após um curto revezamento com Interlagos, passou a ser sede fixa da etapa até o final daquela década, quando, por desinteresse de administração local, entre outros motivos, perdeu novamente a vaga no calendário para a pista paulistana.

Nos anos 90, o autódromo carioca ainda recebeu corridas da Indy, em um oval construído dentro de sua área, e da MotoGP. Por diversos anos, por conta de seu nível de segurança, Jacarepaguá foi a única pista com licença para receber corridas internacionais de motovelocidade.

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Infelizmente, antes de morrer, Cornelsen também teve que acompanhar a morte do autódromo de Jacarepaguá. O circuito passou por uma grande mutilação já nos anos 2000 para a realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007, em que parte de seu traçado foi desativado para a instalação de ginásios e centro de natação.

A bala de prata veio alguns anos depois, quando o Rio de Janeiro venceu a concorrência para receber a Olimpíada de 2016. O autódromo foi totalmente desativado e demolido em 2012 para a construção do Parque Olímpico.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.