Entenda os motivos da maior seca de vitórias do Brasil na F1

0

O fã brasileiro da F1 não celebra uma vitória do país há 10 anos. A última foi em 13 de setembro de 2009, quando Rubens Barrichello conquistou o GP da Itália, em Monza, a bordo do carro da Brawn GP.

Desde o primeiro triunfo na F1, de Emerson Fittipaldi, no GP dos Estados Unidos de 1970, nunca o Brasil ficou tanto tempo sem uma conquista. O último grande jejum havia acontecido entre a vitória de Ayrton Senna no GP da Austrália de 1993 e a do próprio Barrichello no GP da Alemanha de 2000 – pouco menos de sete anos.

O período atual, no entanto, marca algumas características diferentes e até mais graves. Uma delas é a mais óbvia: não há nas últimas duas temporadas sequer um piloto brasileiro na F1. Uma consequência de problemas na formação não na atual década, mas na anterior.

Só que não para por aí. O Projeto Motor identificou questões importantes que levaram o Brasil – país com oito títulos e 101 vitórias na história da F1, terceiro na estatística atrás apenas de Grã-Bretanha (295) e Alemanha (178) – a chegar a esta situação.

Fique ligado em nossas redes sociais: 
Twitter – @projetomotor
Facebook – Projeto Motor
YouTube – Projeto Motor
Instagram – @projetomotor

Protagonistas deixaram a desejar na F1

Antes de faltar piloto brasileiro na F1, precisamos lembrar que o país no começo desta década ainda tinha Felipe Massa na Ferrari. Apesar de uma temporada difícil em 2009, ano da última vitória do Brasil, a Ferrari seguiu bastante forte nos anos seguintes.

Massa continuou na equipe de Maranello até o final de 2013. Só para se ter ideia, seu companheiro, Fernando Alonso, venceu 11 GPs no mesmo período, com triunfos para o espanhol em todos os anos no qual dividiu o time com o brasileiro.

É claro que podemos lembrar da famosa troca de posições em Hockenheim, em 2010, quando Massa cedeu o primeiro lugar a Alonso. Porém, mesmo assim, seriam depois mais três temporadas no zero, o que obviamente aumentou o tempo da era sem conquistas.

Pódio do GP da Alemanha de 2010 de F1 com Felipe Massa, Fernando Alonso e Sebastian Vettel
Pódio do GP da Alemanha de 2010 com Felipe Massa, Fernando Alonso e Sebastian Vettel (Foto: Mark Thompson/ Getty Images / GEPA)

No fim das contas, Massa não conseguiu ir além de sua 11ª vitória, no GP do Brasil de 2008, quando chegou perto de conquistar o título mundial. Depois daquilo, passou por um grande susto com o acidente na classificação para o GP da Hungria de 2009, quando foi atingido por uma mola do carro de Rubens Barrichello, e fez mais quatro anos pela Ferrari, período no qual obteve mais três segundos lugares. Seu destino seguinte foi a Williams, onde nunca teve uma chance realista de vitória. No time inglês, Massa conquistou uma pole position e chegou mais uma vez no segundo lugar.

Geração que não vingou na F1

No final da década de 2000, mesmo com nomes mais escassos entre as principais categorias de base, o Brasil ainda tinha alguns talentos que desembarcaram na F1. Os mais importantes foram Nelsinho Piquet (campeão da F3 Sul-Americana em 2002, da F3 Inglesa em 2004 e vice da GP2 em 2006), Lucas di Grassi (campeão do GP de Macau de F3 de 2005, vice da GP2 em 2007 e terceiro em 2008 e 2009) e Bruno Senna (terceiro na F3 Inglesa em 2006 e vice na GP2 em 2008).

Os três chegaram à F1, mas não conseguiram se manter por muito tempo. Piquet ficou menos de duas temporadas na Renault, e, mesmo que tenha obtido um segundo lugar no GP da Alemanha de 2008, viu sua passagem pela equipe ser marcada por inconsistência, erros e uma grande discrepância de rendimento em relação ao seu parceiro, Fernando Alonso. Depois que deixou o time francês, o brasileiro fez estourar o escândalo do GP de Singapura de 2008, o que praticamente pôs fim às suas possibilidades de permanecer na F1 em uma outra oportunidade competitiva.

Di Grassi teve apenas uma chance na fraquíssima Virgin em 2010 e nunca mais voltou. Já Senna passou pela péssima HRT no mesmo ano e depois deve uma passagem de oito corridas na Lotus Renault, em 2011, e uma temporada completa pela Williams, em 2012, mas sem resultados de destaque.

Por mais que o sobrinho de Ayrton Senna não tenha tido um equipamento forte o bastante para lutar de forma consistente pelas primeiras posições, ele viu seu então companheiro de time, Pastor Maldonado, vencer de forma surpreendente o GP da Espanha de 2012.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Importante ressaltar, no entanto, que os três tiveram carreiras de sucesso após a passagem pela F1. Piquet venceu corridas em divisões menores da Nascar e conquistou o primeiro campeonato da história da Fórmula E. Senna se tornou um piloto regular de GTs e endurance, campeão mundial na categoria LMP2, e Di Grassi assinou um contrato com a Audi, o que lhe deu a chance de competir em alto nível no WEC e hoje na Fórmula E (onde também já conquistou o título).

Depois deles, o piloto que mais levou esperança ao público tupiniquim foi Felipe Nasr. A história do brasiliense vamos contar no próximo tópico.

Falta de estrutura extra pista aos pilotos da base

O alto profissionalismo da F1 transbordou para as categorias de base. De forma ainda mais acentuada nas últimas duas décadas, todo o caminho desde o kart até a principal categoria do planeta passou a ser mais afunilado, acirrado e globalizado. Mais pilotos, de uma variedade maior de países, começaram a entrar na disputa por uma vaga na F1.

No alto da pirâmide, as equipes e marcas envolvidas com o campeonato principal também passaram a investir na formação de seus pilotos. E assim surgiram de forma mais profissional e precoce as academias de jovens pilotos, que se já existiam antes (temos exemplos que datam dos anos 70), mas nunca foram tão exigentes e ao mesmo tempo necessárias.

Um dos problemas para o Brasil não ter pilotos hoje na F1 é consequência da falta de competidores há 10 anos, e não na atualidade, em posição forte na base. Alguns talentos como Danilo Dirani (que até chegou a se associar com a equipe BAR de F1) e Sérgio Jimenez, entre tantos outros, chegaram a despontar como possíveis futuros pilotos do Mundial, mas não passaram nem perto da F1 pela falta de apoio e de estrutura.

Felipe Nasr chegou a ter propostas para assinar com o programa da Red Bull, mas preferiu fazer o caminho com as próprias pernas. Ele de fato chegou à F1, na Sauber, mas em uma posição extremamente frágil, em um time em péssima situação financeira e com situação política interna estranha. Mesmo com alguns resultados bons, a falta de regularidade e o fim do apoio do Banco do Brasil acabou com a jornada do brasiliense.

Felipe Nasr sofreu com a falta de dinheiro da Sauber nas temporadas de 2015 e 16 na F1
Felipe Nasr sofreu com a falta de dinheiro da Sauber nas temporadas de 2015 e 16 na F1 (Foto: Sauber)

Por outro lado, vimos brotar competidores apoiados pelas academias. Só na Red Bull, na última década, Sebastian Vettel, Daniel Ricciardo, Carlos Sainz e Max Verstappen se estabeleceram como pilotos na categoria. A Ferrari, que chegou a investir em Jules Bianchi até a morte do francês, hoje tem Charles Leclerc. A McLaren, que já tinha o histórico com Lewis Hamilton na década de 2000, promoveu Kevin Magnussen e Lando Norris. E o exemplos seguem.

Nesta mudança de mercado, os brasileiros perderam o bonde e, por conta de diversos fatores, poucos ou nenhum conseguiu uma vaga neste trem. Temos apenas alguns exemplos mais recentes, que vamos apontar mais para frente.

Falta de uma categoria de base no Brasil

É um dos pontos mais lembrados e explícitos da falta de estrutura em geral do automobilismo brasileiro. A Confederação Brasileira lavou as mãos e passou a considerar dever total de promotores a formação de novos talentos. Depois da F-Renault Brasil, tivemos uma tentativa de Felipe Massa de fundar um campeonato, a Fórmula Futuro, que foi um fracasso retumbante.

O campeonato de Massa, mesmo com apoio da Fiat e prêmios que levavam os pilotos para temporadas completas na Europa, teve problemas para conseguir juntar um grid decente e durou apenas dois anos, em 2010 e 2011.

A Fórmula Futuro durou apenas duas temporadas no Brasil (Foto: Divulgação)

A falta de um primeiro passo nos carros no Brasil obrigou pilotos a irem competir na sua fase final de formação ainda no kart na Europa, o que aumentou os custos da carreira internacional. Quem não tinha condições de dar tal passo tinha de chegar ao Velho Continente com formação técnica falha para competir nos fórmulas contra rivais mais bem preparados. O resultado é que vários jovens retornaram ao país após uma ou duas temporadas no exterior, sem muito sucesso.

Alternativas atrativas à F1

Esse fator para a seca de brasileiros na F1 não é, na verdade, algo ruim. O caminho para a categoria máxima é caro, difícil e muitas vezes não termina em sucesso. Com isso em mente, vários jovens pilotos começaram a observar algumas opções interessantes para dar prosseguimento às suas carreiras.

A Stock Car, que nos últimos 20 anos aumentou seu nível de profissionalismo de forma brutal, passou a ser um dos preferidos. Se até a década de 90 o campeonato nacional era casa de pilotos mais velhos e em fim de carreira, hoje vemos um grid jovem, que consegue receber salários e ter bons patrocinadores competindo ao lado de casa.

Stock Car junta hoje um dos melhores grids de campeonatos nacionais no mundo
Stock Car junta hoje um dos melhores grids de campeonatos nacionais no mundo (Foto: Duda Bairros/Vicar)

Fora do Brasil, as alternativas também melhoraram. Categorias GT se tornaram mais fortes e competições de endurance, como o WEC e, nos últimos anos, a IMSA (que abriga nomes como Pipo Derani e o já citado Felipe Nasr), se fortaleceram bastante e abriram vagas para pilotos talentosos e com boa visibilidade para patrocínios.

Desta forma, ficou mais fácil para muitos pilotos desistirem da árdua batalha para se chegar à F1, em vez disso, encontrar um caminho alternativo para dar continuidade a uma carreira profissional.

O que pode mudar o cenário?

A situação em 2019, por incrível que pareça, é melhor do que há alguns anos. Como já foi dito, o cenário atual é resultado de um trabalho malfeito na última década. O kart brasileiro, no entanto, renasceu e ganhou força. Desta forma, novos nomes começaram a surgir com nível competitivo em certames internacionais.

LEIA MAIS: Rumo à F1: conheça as promessas brasileiras que estão na luta

O resultado disso é que já há uma geração mais forte no caminho para a F1. Hoje temos pilotos brasileiros em todas as principais competições de base. Na F2, o nome é Sergio Sette Câmara, que, mesmo tendo chances pequenas de chegar ao Mundial de forma imediata, vem construindo seu nome em uma série que divide o paddock com a F1.

Na nova F3 FIA, substituta da GP3, os representantes brasileiros são Pedro Piquet, que já patina há algum tempo em sua carreira europeia, mas tem vitórias no currículo e um sobrenome de peso, e Felipe Drugovich, que chegou ao campeonato trazendo bons resultados na F4 Alemã (terceiro em 2017) e na Euroformula (campeão em 2018 com 14 vitórias em 16 corridas).

Na Fórmula Regional Europeia (antiga F3 Europeia), o Brasil tem Enzo Fittipaldi, que já está na Academia da Ferrari. O neto de Emerson Fittipaldi foi campeão da F4 Italiana e terceiro na F4 Alemã em 2018 e hoje é o segundo colocado na competição que disputa. Em terceiro no campeonato vem outro representante do país: Igor Fraga, campeão da F3 Brasil de 2017 e que ficou em quarto na USF2000 em 2018.

Enzo Fittipaldi é piloto da Academia Ferrari e corre na F-Regional Europeia Foto: Thomas Suer/ Prema Powerteam/RF1)

Na F-Renault Europeia, um dos principais campeonatos de base do Velho Continente na atualidade, o principal nome do Brasil é Caio Collet, campeão da F4 Francesa em 2018. Na atual temporada, o piloto de 17 anos ocupa a quinta posição na classificação geral, mas é o mais jovem e o único estreante entre os cinco primeiros. Collet já está no programa de pilotos da Renault. No mesmo campeonato, ainda concorre João Vieira, em situação mais difícil aos 21 anos e sem grandes resultados no currículo até o momento.

Por fim, damos mais um passo abaixo na escada das categorias de base e chegamos a Gianluca Petecof, piloto de 16 anos que já é integrante da Academia da Ferrari. Ele terminou em quarto na F4 Italiana em 2018 e na atual temporada é vice-líder da competição.

Por isso, fique de olho nestes nomes e em outros que estão estourando no kart internacional como Rafael Câmara (que vem de um recente vice-campeonato mundial na classe OK Júnior), Gabriel Bortoleto, Matheus Morgatto, Ricardo Gracia, Matheus Ferreira, Julia Ayoub, entre outros.

Reestruturacão de médio prazo

Para 2020, uma novidade no automobilismo brasileiro pode contribuir ainda mais para a melhora deste cenário. A empresa F/Promo Racing, que já promove atualmente a Fórmula Vee, chegou a um acordo com a Confederação Brasileira de Automobilismo para organizar um campeonato de F4 no país. A competição, segundo comunicado, seguirá os moldes estabelecidos pela FIA para este nível e, por isso, terá homologação da entidade internacional e contará pontos para superlicença – documento necessário para um piloto poder competir na F1.

“A F4 no Brasil terá carros na versão 2020, com o que há de mais moderno na categoria, e será ainda mais barata do que na Europa ou nos EUA”, afirma Andrey Valério, diretor-esportivo da categoria em nota oficial. “O piloto brasileiro terá aqui as mesmas condições que encontraria lá fora, por um preço mais baixo e ainda com a mesma pontuação na superlicença”, completa.

O modelo utilizado será o mesmo utilizado é fabricado pela construtora Tatuus, que também fornece os carros para as F4 Italiana, Alemã, Espanhola, entre outras. O chassi tem um monobloco em fibra de carbono. Ainda não foi definido o fornecedor de motores, que têm configuração básica de quatro cilindros com potência por volta de 160 cavalos pela homologação da FIA.

“A princípio, vamos trazer 12 a 15 carros. E já começamos a selecionar os primeiros pilotos para participar da temporada inaugural”, explica Flávio Menezes, diretor da F/Promo Racing.

A competição já tem um pré-calendário, com oito rodadas triplas, seguindo o formato da F4 na Europa, começando em 24 de abril e passando pelos circuitos de Interlagos (SP), Velo Città (SP), Goiânia (GO) e Velopark (RS). Os organizadores ainda negociam para a etapa final ser realizada como preliminar no GP do Brasil.

*Por Bruno Ferreira e Lucas Santochi


 Comunicar Erro

Projeto Motor