Mudança desnecessária na classificação escancara: a F1 está perdida

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Mais uma vez a F1 apronta das suas. De maneira inesperada, os chefes de equipe da categoria aprovaram uma revolução no formato do treino classificatório para os GPs, o que passaria a incluir um sistema eliminatório nas já existentes três partes da sessão que define a ordem de largada para as provas.

O formato funcionaria da seguinte maneira. O Q1 teria 16 minutos de duração, e, a partir do sétimo minuto, o piloto mais lento seria eliminado. Dali em diante, os competidores com piores tempos cairiam a cada 1min30s, até que 15 sobrevivam ao fim da fase.

No Q2, as eliminações começam no sexto minuto, seguindo o mesmo método de quedas a cada 90s da parte anterior. Por fim, oito pilotos restantes avançariam ao Q3. Depois de cinco minutos, o mais lento seria cortado, iniciando ali o processo de eliminação a cada 1min30s. No fim, dois pilotos permaneceriam vivos na luta pela pole position.

O formato, criado com a intenção de “apimentar o espetáculo”, ainda precisa de aprovação do Conselho Mundial da FIA, mas já foi aceito por todos os chefes de equipe de maneira unânime.

PRÓS E CONTRAS

À primeira vista, o sistema causa algumas dúvidas, mas já traz a possiblidade de, de fato, o espetáculo melhorar aos sábados. A disputa poderia ficar imprevisível e intensa entre os carros que correm risco de eliminação. Outro ponto positivo: com o “pega pra capar” nos períodos de cortes a 90s, os holofotes estariam voltados aos times menores, o que poderia proporcionar a eles uma maior exposição televisiva.

F1 Malásia 2015
Com nova classificação, F1 pretende apimentar a disputa e deixar os sábados mais atrativos

Mas também há potenciais pontos negativos. O sistema criaria maior imprevisibilidade para as equipes que lutam contra a eliminação, mas poderia deixar as gigantes em posição de conforto. Mercedes ou Ferrari, por exemplo, poderiam se livrar da degola nos minutos iniciais e retornar aos boxes, economizando equipamento, enquanto que as pequenas “se estapeiam” para sobreviver aos cortes. Além disso, o formato pode soar confuso, o que é um problema para um esporte que, em meio a problemas de popularidade, precisa depender de simplicidade para angariar novos fãs.

Há outros prós e contras, de modo que, neste primeiro momento, o sistema divide as opiniões na equipe do Projeto Motor. Contudo, a grande preocupação que a decisão causa não está diretamente ligada ao formato em si, mas sim na mentalidade dos chefões da categoria que está por trás de toda essa mudança.

ERA UM AJUSTE NECESSÁRIO?

As novidades no treino classificatório aconteceram mesmo que não houvesse grande insatisfação pública com o sistema vigente. Então, por que os dirigentes dedicam seus esforços a consertar algo que não está quebrado, enquanto há outras questões mais importantes a serem discutidas? A F1 precisa aprimorar o treino classificatório, sendo que a corrida, a real grande atração do fim de semana, enfrenta seus mesmos problemas de sempre?

Em meio a uma crise de popularidade insistente, a F1 mais uma vez aposta em uma medida paliativa, tomada sem grande critério, na expectativa de que isso aumente o show e ajude a tirar a categoria de sua espiral negativa. O mesmo se aplica ao estapafúrdio regulamento de pneus para 2016, que cria uma situação altamente confusa com a inocente esperança de que isso conserte os problemas do certame em um passe de mágica.

O novo sistema classificatório pode trazer retorno positivo? Claro que sim. Descartar essa possibilidade unicamente com base na teoria seria puro achismo de nossa parte. Entretanto, a F1 já viu em um passado não muito distante que alternativas “tapa-buraco” têm efeito curto.

Seja em mudanças drásticas no formato dos treinos classificatórios (lembra de 2003?), seja com novos e revolucionários pneus (2011), cedo ou tarde as equipes compreendem o sistema, chegam às mesmas soluções e trazem de volta à tona os mesmos problemas que atormentavam a categoria no início de tudo.

REAIS PROBLEMAS FORA DE FOCO

Enquanto os dirigentes apostam em soluções artificiais, os reais problemas ficam em segundo plano. Se você acompanha o Projeto Motor, provavelmente já viu nossas menções à falha divisão de lucros da categoria, à complexidade desnecessária de seu regulamento, e, até em termos mais publicitários, ao carro que se perde em várias minúcias técnicas exageradas que provocam distanciamento e indiferença do público.

Chefes de equipe da F1 apresentam grande dificuldade em entrar em consenso em questões importantes
Chefes de equipe da F1 apresentam grande dificuldade em entrar em consenso em questões importantes

Há outras alternativas mais simples que poderiam, em teoria, apimentar espontaneamente o show e fortalecer a disputa de maneira saudável, como a abertura para concorrência de pneus ou a possibilidade de compra e venda de chassis. Mas isso nunca sequer é cogitado: com os interesses divergentes de equipes, patrocinadores, promotores e até do chefão Bernie Ecclestone, a unanimidade não existe para tirar qualquer ideia do papel. O que resta, então, são soluções superficiais, que não interferem no interesse de ninguém e que, de quebra, ainda geram buzz entre o público.

Obviamente, poderia ser pior. Na reunião dos dirigentes, chegou-se a sugerir o regulamento estúpido de lastro nas classificações para os favoritos, o que deixaria os carros mais bem posicionados no campeonato mais pesados que os demais nas tomadas de tempo. Isso, para o bem da categoria, foi descartado. De qualquer maneira, a F1 mostrou mais uma vez que não aprendeu com os erros do passado ao insistir nas mesmas saídas de sempre e desviar o foco de seus reais problemas. Só a categoria ainda não entendeu que um esporte que precisa recorrer à aleatoriedade para se tornar atrativo e competitivo possui algo de muito errado em seu âmago.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de edições das 24 Horas de Le Mans e provas de categorias como Indy e WTCC.