Muito além da batida em Jerez: por que 97 foi uma temporada tão fascinante

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26 de outubro de 1997. Uma tarde quente e ensolarada no circuito de Jerez de la Frontera, situado na região da Andaluzia, sul da Espanha. Dentro da pista, uma situação tensa: um dia após um empate triplo na sessão classificatória, Jacques Villeneuve e Michael Schumacher duelavam mano a mano para definir quem ficaria com a coroa da F1 naquele ano.

Era o último capítulo de um longo campeonato, no qual ambos os protagonistas tiveram momentos de destaque antes de se colocarem na disputa decisiva. Chegou a 48ª de um total de 69 voltas. Villeneuve, ciente de que precisaria marcar mais pontos do que o rival para conquistar o título, vai para o “arrisca tudo”: decide frear para lá do Deus me livre na curva Dry Sack, um grampo apertado para a direita, e emparelha em busca da necessária ultrapassagem.

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Schumacher parece entrar em pânico. No fundo, ele sabia que uma ultrapassagem do canadense seria a pá de cal nas chances de seu tricampeonato, um duro golpe após uma campanha de esforço hercúleo para chegar à rodada derradeira na ponta. Assim, o alemão comete o maior de seus pecados: na ânsia de vencer na marra, tenta fechar o rival e impedir a ultrapassagem a qualquer custo. Mais uma vez, Schumacher levava a competição ao nível além do aceitável, criando a mancha mais categórica em seu ostentoso currículo.

Como todos sabem, isso não trouxe o resultado que ele esperava. Schumacher vai parar na caixa de brita, fica atolado e é obrigado a abandonar. Com os pontos marcados por Villeneuve naquela rodada, Schumacher sofre uma derrota dolorida, que veio com o bônus da vergonha por extrapolar os limites e com sua desclassificação do campeonato. O maior nome da categoria estava exposto como nunca.

Schumacher Jerez

“Ao bater Schumacher, bati mais do que um piloto: bati o sistema. Foi assim que me senti em Jerez. Todos queriam ver a Ferrari vencer seu primeiro título de pilotos desde 79 e eu venci todas as possibilidades”, disse Villeneuve ao site da F1

Aquele foi um desfecho apoteótico e controverso a uma temporada que já havia sido marcante por si só. É isso mesmo: 1997 foi fascinante por muito mais motivos do que aquela tarde em Jerez. Eis os motivos:

1 – Uma disputa pelo título curiosa

Sejamos francos: Schumacher havia obtido um feito e tanto em manter a disputa aberta até o fim. É verdade que a Scuderia já havia dado claros sinais de melhora em relação a 96, mas, no geral, a Williams ainda sobrava. A pole position de Villeneuve em Melbourne, 1s7 à frente do segundo colocado e 2s1 à frente de Schumacher, o terceiro, era a evidência clara, mesmo que a Ferrari tenha progredido a olhos vistos ao longo da campanha.

Schumacher Villeneuve

Ambos os postulantes tiveram seus altos e baixos. Schumacher sofreu acidentes nas largadas da Argentina e de Nurburgring, onde colidiu com seu irmão Ralf no quintal de casa, além de uma quebra em Silverstone. Jacques zerou por acidentes na Austrália, em Mônaco, no Canadá e na Alemanha, quebrou em Ímola e sofreu uma desclassificação no Japão por desrespeitar bandeiras amarelas nos treinos.

O que é inusitado: ambos chegaram a Jerez separados por um ponto, mas sem dividir o pódio uma única vez. E uma briga estranha teve seu desfecho contaminado por terceiros – a começar por Heinz-Harald Frentzen, que igualou o tempo dos protagonistas na classificação. Aqui cabe uma curiosidade: a TAG Heuer, responsável pela cronometragem da F1 na época, chegou a investigar se o empate triplo não havia sido um erro nos equipamentos. Para isso, a empresa examinou a quarta casa decimal dos tempos (os chamados décimos de milésimos) e só ali detectou que o cronômetro estava certo, pois os tempos não foram exatamente iguais. Até hoje não se sabe quem levou a vantagem neste “desempate”.

Além disso, no domingo, houve outros lances suspeitos. Norberto Fontana, argentino que fazia sua quarta corrida pela Sauber (time que iniciara uma parceria técnica com a Ferrari naquele ano) disse, anos mais tarde, que recebeu a ordem explícita de Jean Todt para atrapalhar Villeneuve na disputa.

Do outro lado, as ultrapassagens de Mika Hakkinen e David Coulthard em Villeneuve na última volta, o que rendeu a primeira dobradinha da McLaren desde 1991, fizeram surgir a suspeita de que havia um complô entre a Williams e o time de Woking para ajudar no título do canadense. A FIA investigou o assunto, inclusive ouvindo transmissões de rádio das equipes durante a corrida, mas julgou as evidências inconclusivas para que qualquer sanção fosse tomada.

A rivalidade entre Schumacher e Villeneuve parecia promissora, mas praticamente acabou ali. De qualquer forma, ela se tornou histórica – como o próprio canadense defendeu, em entrevista ao Projeto Motor:

2 – A temporada das primeiras vezes…

Hakkinen pódio

Mas é o que dissemos: 97 foi interessante além de Schumacher x Villeneuve. Aquela temporada serviu para que o bastão fosse passado da antiga geração para a juventude que estava por chegar.

A começar, Frentzen, tido como real promessa, conquistou sua primeira vitória em uma temporada, no geral, apagada. Hakkinen também triunfou pela primeira vez em sua 96ª largada em circunstâncias inusitadas. Mas foi um ano de otimismo para os novos prateados da McLaren, pois a parceria com a Mercedes obteve suas primeiras vitórias (além de Jerez, houve outras duas com Coulthard, em Melbourne e Monza)  em um presságio do que estava por vir.

Mais: o ano viu o surgimento dos promissores Giancarlo Fisichella e Ralf Schumacher, que deram trabalho com a Jordan (e também deram trabalho à Jordan, a exemplo do choque em Buenos Aires). As lendas da F1 Jackie Stewart e Alain Prost debutaram suas próprias equipes, com direito a pódios e quase vitória… Quer mais?

3 – … e das últimas também

Berger

Enquanto isso, 97 marcou o fim de algumas eras. A Williams via seu domínio chegar ao fim, já que havia encerrado sua parceria oficial com a Renault e viveria nos anos seguintes um período de vacas magras. Foi seu último título até hoje. Villeneuve, que tomou decisões questionáveis em sua carreira, também se despediu da curta vida como piloto de ponta na F1.

A Benetton, campeã mundial apenas dois anos antes, foi outra que deu adeus ao posto de destaque. Flavio Briatore deixou a posição de comandante, e, coincidência ou não, o time nunca mais venceu até o momento em que a Renault assumiu as operações, em 2002.

Gerhard Berger, um dos nomes mais carismáticos da velha guarda, conquistou seu triunfo derradeiro em condições dramáticas. O austríaco, atrapalhado por uma sinusite que o fez perder três corridas, brilhou em Hockenheim dias após a morte de seu pai. Os detalhes você pode ver neste material já produzido pelo Projeto Motor sobre o assunto.

4 – Oscilação rara na F1 moderna

Barrichello

Deixamos para o fim o ponto mais fascinante de 97: das 11 equipes que participaram regularmente da temporada (sim, deixamos de fora o tragicômico episódio da Mastercard Lola, que certamente vale um texto à parte em outra oportunidade), nada menos que nove conquistaram pódios. Foi uma temporada que contou com uma oscilação de forças monstruosa.

Há explicações técnicas para isso. Uma das principais foram os pneus, já que a categoria voltava a ter uma guerra de fabricantes pela primeira vez desde 1991. Isso provocou a adequação de alguns projetos, além de resultar em um aumento intenso na velocidade dos carros.

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A gangorra pendia ora para Goodyear, ora para Bridgestone. As favoritas (Williams, Ferrari, McLaren e Benetton) usavam a borracha americana e levavam vantagem no cômputo geral. Porém, houve pontos específicos, dependendo dos circuitos, em que a Bridgestone se sobressaiu e quase levou seus modestos clientes ao triunfo.

Hill

Quer exemplos? Olivier Panis, da Prost, que bateu na trave com dois pódios e que ocupava o terceiro lugar do campeonato quando sofreu o grave acidente no Canadá que interrompeu sua campanha. Ou a jornada de Damon Hill com a Arrows na Hungria, que resultou em um dos capítulos mais dramáticos da história do esporte a motor.

A Prost teve outros momentos de brilho, como na Áustria, quando o jovem Jarno Trulli liderou por várias voltas, tendo de perto a companhia de Rubens Barrichello, da Stewart. O brasileiro também se destacou na classificação da Argentina (quando ganhou um Rolex de Jackie Stewart por se posicionar em quinto no grid na somente terceira corrida da história do time) e em condições adversas em Mônaco, quando foi segundo colocado em uma corrida de sobrevivência.

Poderíamos continuar com muito mais, mas vamos parar por aqui. É curioso observar que 1997, uma temporada repleta de acontecimentos ao longo de todo o grid, parece resumida a um único lance que, apesar de histórico, conta apenas uma fração do que se passou naquela campanha. No fim, o ano que coroou Villeneuve também presentou os fãs com uma das temporadas mais fascinantes da era recente.

 

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Felipe Casas

    eu lembro dessa temporada mto bem. nao vou ficar aqui destrinchando ela, pq isso, vcs do site fazem mto melhor. mas vou fazer um comentario saudoso… como eram bonitos esses carros! a mclaren, especialmente! abraços