Multi-21, o caso que botou fogo na relação entre Vettel e Webber

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“Multi-21”. Essa expressão marcou uma das vitórias mais polêmicas da carreira de Sebastian Vettel, no GP da Malásia de 2013, em dia em que ele descumpriu uma ordem da Red Bull e ultrapassou seu parceiro de equipe nas voltas finais. Isso fez com que azedasse de vez sua relação com Mark Webber, um companheiro com quem ele já tinha tido vários atritos nos anos anteriores. Mas do que se trata o caso?

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Parceiros de equipe na Red Bull desde 2009, Vettel e Webber nunca tiveram uma relação das mais tranquilas. Houve alguns momentos de tensão exposta: em 2010, os dois bateram quando lutavam pela liderança do GP da Turquia, o que provocou o abandono do alemão e tirou as possibilidades de vitória do australiano.

Três corridas mais tarde, em Silverstone, o conflito também envolveu a Red Bull. A equipe desenvolveu uma nova especificação de asa dianteira e deu uma peça para cada piloto. Vettel teve a sua danificada durante os treinos, então a Red Bull tirou a de Webber para dar ao alemão. O australiano venceu a corrida no domingo e alfinetou, dizendo que o resultado era “nada mau para um segundo piloto”. 

Porém, Vettel conquistou três títulos consecutivos no período, sendo que Webber sequer obteve um vice-campeonato nestas temporadas. A disparidade de resultados deu uma esfriada na rivalidade e nos nervos.

Só que animosidade voltou com tudo no GP da Malásia de 2013, a segunda etapa daquela temporada. Vettel registrou a pole position, enquanto que Webber partiria somente na quinta posição. Mas as condições eram traiçoeiras na largada, o que deixava o cenário bem aberto: o clima era seco, mas a pista ainda estava molhada devido a uma chuva que caiu horas antes. Portanto, levaria vantagem aquele piloto que soubesse a hora certa de trocar os intermediários pelos compostos de seco. 

Webber ganhou posições na largada, sobreviveu a um duelo com Fernando Alonso e subiu para o segundo lugar, somente atrás de Vettel. O alemão, líder da prova, foi aos boxes na volta 5 para colocar pneus de seco, mas ainda parecia um pouco cedo demais – com o asfalto ainda molhado, ele voltou com dificuldades para manter o carro na pista e perdeu bastante tempo. 

Webber só parou na volta 7, em um momento mais apropriado, o que foi suficiente para ele ganhar a posição do parceiro e assumir a ponta. Dali para frente, Webber controlou a vantagem e chegou ao último stint da corrida ainda na liderança. 

Webber lidera Vettel no GP da Malásia de 2013 (Foto: Mark Thompson/Getty Images/Red Bull Content Pool)

A ordem que gerou discórdia

Então, veio a ordem aos pilotos pelo rádio em formato de código: “Multi-Map 21”. Era um pedido para que as posições fossem mantidas, com o carro de número 2, de Webber, à frente do carro 1, de Vettel. Em ocasiões passadas, o código havia sido usado no sentido contrário, como em Interlagos, em 2012, quando Vettel lutava pelo título e Webber ouviu a ordem “Multi-12” – ou seja, um pedido para que ele deixasse Vettel passar.

Mas retornemos a Sepang. Depois da ordem, Webber diminuiu o regime de seu motor e guiou em modo de segurança para poupar os pneus, já que estava crente que não sofreria o ataque do companheiro de equipe. Só que Vettel ignorou completamente o pedido. Primeiro, ele tentou uma ultrapassagem sobre Webber, mas o australiano inicialmente resistiu e ironizou a postura de Vettel pelo rádio, dizendo que aquilo “era um ótimo trabalho em equipe”. A Red Bull chamou a atenção de Vettel e insistiu na ordem, classificando a postura de seu piloto como “boba”. Mas não teve jeito: o alemão fez a ultrapassagem na volta 46, de 56 no total, assumiu a ponta e venceu a corrida. 

Webber, para deixar clara sua insatisfação, cruzou a linha de chegada do lado oposto da pista, o mais distante possível do pitwall, em tom de protesto; depois, ainda fechou a porta no alemão na reta para mostrar sua fúria. E antes de os carros chegarem à garagem, a Red Bull disse a Vettel pelo rádio que ele “teria de dar explicações” sobre sua postura.  

Na antessala do pódio, o clima era visivelmente tenso. Webber só repetia a Vettel a frase “Multi-21”, como se estivesse cobrando uma explicação. O alemão, por sua vez, permanecia em silêncio.

No pódio, Webber foi mais direto na crítica, dizendo que Vettel “tomou suas próprias decisões, mas que vai ser protegido pela equipe como de costume”. Vettel de início recuou: reconheceu que cometeu um grande erro, pediu desculpas e disse que as posições deveriam ter sido mantidas. Já Christian Horner, chefe da Red Bull, achava que qualquer forma de intervir pelo rádio seria em vão: “Não faria sentido. Ele deixou bem claro qual era sua intenção quando fez a manobra. Ele sabia qual era a ordem, mas ele optou por ignorá-la. Ele colocou seus interesses acima dos interesses da equipe”, disparou o dirigente.

Vettel ignorou ordem e atacou Webber em Sepang (Foto: Clive Mason/Getty Images/Red Bull Content Pool)

Uma postura mais firme de Vettel

Três semanas mais tarde, no GP da China, Vettel mudou bastante o seu tom. Na quinta-feira anterior à prova, ele disse que provavelmente “faria a mesma coisa de novo”, já que Webber “não merecia a vitória”, e que no passado houve mais de uma ocasião em que o australiano “poderia tê-lo ajudado, mas não o fez”. Um destes momentos para Vettel foi no GP do Brasil de 2012, quando o alemão lutava pelo título com Alonso, mas achou que foi espremido por Webber na largada – o que fez perder posições e se complicar. 

Ainda naquela quinta-feira em Xangai, Webber teve o momento que considerou “o mais decepcionante” de toda sua relação com o alemão. A revelação foi feita em sua autobiografia: Vettel lhe disse que ficou irritado com as palavras do australiano no pódio em Sepang, e que, por mais que ele respeitasse Webber como piloto, ele não tinha respeito algum pelo parceiro como pessoa. 

A atitude firme de Vettel até gerava questionamentos dentro do paddock se Christian Horner não estava tendo sua autoridade dentro do time anulada por seu piloto. Em seu livro, Webber também deu sua visão dos fatos: Horner teria confessado a Ann Neal, companheira e empresária do australiano, que não repreendeu Vettel pelo episódio porque recebeu uma carta de duas páginas dos advogados do alemão, dizendo que a equipe violou os termos do contrato do piloto ao lhe dar uma ordem de equipe “sem razão”. 

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A postura afrontosa mostrava de certa forma uma face de Vettel que era desconhecida para o mundo da F1, já que o alemão era tido como uma figura leve e descontraída. Além disso, o episódio do Multi-21 deixava claro que não havia qualquer chance que salvar o clima entre os pilotos da Red Bull. 

O caso foi o assunto do momento no começo de 2013, e isso transcendeu o mundo da F1. Horner revelou que até a realeza britânica lhe perguntou sobre o episódio em um evento: a Rainha Elizabeth II queria saber por que “o piloto australiano andava mal-humorado com o piloto alemão”. 

Depois disso, a temporada de Vettel decolou. O alemão venceu 13 corridas naquele ano, incluindo um recorde de nove vitórias consecutivas, e conquistou seu tetracampeonato com três provas de antecipação, no GP da Índia. Webber, que já havia decidido se aposentar da F1 antes do episódio do Multi-21, terminou a temporada de 2013 sem nenhuma vitória. 

E uma outra curiosidade sobre o GP da Malásia de 2013: aquela corrida também teve uma outra situação incômoda entre companheiros de equipe, quando a Mercedes pediu para que Nico Rosberg não atacasse Lewis Hamilton pelo terceiro lugar nas voltas finais, e o alemão, mesmo contrariado, obedeceu. Essa é uma relação entre parceiros que pegaria fogo nos anos seguintes, mas este assunto fica para um outro dia… 

Conheça o episódio em detalhes no quadro “F1 em 5 Minutos”:


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de edições das 24 Horas de Le Mans e provas de categorias como Indy e WTCC.