Quatro Rodas

Na marra: Emerson Fittipaldi relembra triunfo na Indy 500 de 89

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Emerson Fittipaldi já tinha feito história na F1 ao ser o primeiro brasileiro a vencer uma corrida na categoria e ao levantar dois títulos mundiais. Com o final da Copersucar-Fittipaldi no começo dos anos 80, ele partiu para um novo desafio: a Indy e o automobilismo americano.

E mais uma vez, Fittipaldi foi responsável por feitos marcantes para o automobilismo tupiniquim, entrando no hall dos grandes pilotos do esporte a motor dos Estados Unidos. E se podemos destacar o começo de mais uma grande fase do piloto, isso aconteceu em 28 de maio de 1989, quando ele venceu pela primeira vez as 500 Milhas de Indianápolis (triunfaria de novo em 1993), triunfo que ainda o lançaria rumo ao título daquela temporada da Indy.

Por boa parte daquele domingo, a vitória parecia que viria de forma tranquila, com Fittipaldi dominando a prova. Mas a briga final com Al Unser Jr deu tons dramáticos – a até mesmo polêmicos – que resultaram em um toque entre os dois a duas voltas do final que tirou o americano e deixou o caminho livre para o brasileiro.

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“Foi uma vitória suada. Acho que em um dia, uma vitória, foi a mais importante da minha carreira. A não ser Monza, quando ganhei o GP da Itália e o título mundial [em 1972], mas foi por causa do título mundial. Mas como um evento, as 500 Milhas foi o mais importante”, relembrou o piloto em entrevista EXCLUSIVA ao Projeto Motor.

Emerson Fittipaldi celebra a vitória na Indy 500 de 1989 com a premiação que superou U$ 1 milhão (Foto: IMS)

A estreia de Fittipaldi na Indy aconteceu em 84. Até o grande momento de 89, ele já acumulava seis triunfos na Indy. Mas lógico que além do campeonato, colocar seu rosto no tradicional troféu das 500 Milhas de Indianápolis e beber o leite da vitória eram um dos principais objetivos. Ele explicou que o interesse pela Indy 500, inclusive, já vinha de muito tempo antes, quando ainda corrida pela Lotus na F1 no começo dos anos 70.

“Desde que entrei na Lotus, falava muito com o Colin Chapman de correr em Indianápolis. Ele tinha vencido com o Jim Clark [em 1965], e eu ficava acompanhando, um estrangeiro que foi lá e ganhou com carro inglês. Toda aquela história. E o Colin gostava muito de Indianápolis. Então, eu tinha essa atração. Quando eu comecei a correr em Indianápolis, lógico que fiquei com aquela de coisa de um dia querer ganhar lá.”

Desde 85, Fittipaldi corria pela equipe Patrick, com resultados cada vez melhores ano-a-ano tanto no campeonato quanto nas 500 Milhas. Em 88, com um chassi March, ele terminou a corrida na segunda posição, atrás de Rick Mears.

Para 1989, pensando em se aposentar das corridas em breve, o proprietário da equipe, Pat Patrick, fez um negócio em que vendeu parte do time para Chip Ganassi, o que lhe rendeu um bom dinheiro, e ainda vendeu o contrato de Emerson Fittipaldi para a Penske a partir de 1990, em troca de receber o patrocínio da Marlboro e dois chassis Penske PC-17/88 para competir ainda naquela temporada. Assim, a equipe poderia, ainda sob seu nome, ter um campeonato bastante competitivo e com um bicampeão mundial de F1 em ascensão dentro da Indy.

Para completar, Fittipaldi ainda teria como engenheiro Morris Nunn, inglês que tinha dirigido sua própria equipe na F1, a Ensign, e que vinha de uma boa experiência na Indy ao trabalhar com Mario Andretti na Newman/Haas. O time então conseguiu unir o que precisava para ser forte: um bom carro, um grande piloto, um engenheiro experiente e com um patrocinador importante por trás.

“Com a Patrick Racing, nos dois anos anteriores, já estávamos muito competitivos, estávamos andando rápido lá. Então, 89 foi um ano assim… Com chassi Penske, era um Penske particular. O Morris Nunn era o engenheiro da equipe. Trabalhou comigo o ano inteiro, e a gente conseguiu regular o carro muito bem para Indianápolis”, lembrou Fittipaldi.

Fittipaldi comemora a vitória na Indy 500 de 1989 (Foto: IMS)

Os treinos para as 500 Milhas de Indianápolis, na época, duravam praticamente todo o mês de maio. Assim, pilotos e equipes tinham muito tempo para acertarem seus carros para a classificação e para a corrida, que aconteciam nos dois últimos finais de semana do mês. E Emerson logo mostrou que estava no páreo pela vitória naquele ano.

“Desde os treinos, eu estava constantemente entre os três primeiros. Muito constante. Isso é muito importante em Indianápolis. Ser constante. Era constante em dias quentes ou mais frios. Naquela época, a gente ficava quase o mês todo andando em Indianápolis.”

Fittipaldi conseguiu a terceira posição do grid largada, na primeira fila, ao lado de duas lendas da prova: Rick Mears e Al Unser, ambos competindo pela poderosa equipe Penske. Logo na largada, o brasileiro tomou a ponta e rapidamente abriu uma vantagem confortável para os rivais, dominando completamente as primeiras 400 milhas da corrida.

Faltando 25 voltas para o final, ele finalmente foi pressionado por um rival, Michael Andretti, que chegou a ultrapassá-lo e tomar a ponta. Porém, não por muito tempo, já que poucas voltas depois o motor do americano explodiu. Quem passou a ser o perseguidor de Fittipaldi foi Al Unser Jr, com seu Lola da equipe Galles, porém, quase uma volta atrás.

Uma bandeira amarela levou Fittipaldi aos boxes para um último reabastecimento a 20 voltas do final. Só que a equipe Patrick acabou assumindo uma posição extremamente conservadora, segundo o próprio brasileiro, que quase custou a vitória.

“Na última parada de box, o Pat Patrick e o Chip Ganassi estavam muito ansiosos e pediram para encher o tanque. E nós tínhamos que sair só com meio tanque. Então, quando deu a última bandeira amarela, todo mundo saiu com meio tanque e o meu estava com tanque cheio. Isso faz uma diferença que você perde uns três ou quatro décimos por volta. Isso em Indianápolis é muito. E o Al Unser começou a chegar em mim no último segmento.”

Do outro lado, a equipe Galles resolveu ser agressiva. O time fez as contas e chegou à conclusão de que Al Unser Jr não precisava do último reabastecimento e que ele teria combustível suficiente para chegar até o final. Assim, ele não entrou para o pit na bandeira amarela. Além de ficar mais próximo na relargada, ele ainda estava com o carro mais leve.

“Eu estava dominando a corrida o tempo todo. Indianápolis, você tem um prêmio a cada 100 Milhas por liderar e eu liderei o maior número de voltas da corrida. O único momento em que fiquei muito preocupado foi essa situação do [Al Unser] Jr. Quando eu saí do box, faltava 15 ou 16 voltas e eu falei ‘é só manter a velocidade que eu tenho que vou ganhar a corrida’. Só que aí o carro não andava mais como eu esperava, pois tinham enchido o tanque. Só foram me falar isso uma semana depois.”

Assim, Al Jr partiu para cima de Fittipaldi no trecho final da corrida e conseguiu a ultrapassagem a quatro voltas da bandeira quadriculada. O brasileiro, no entanto, resolveu não apostar na possibilidade do adversário ficar sem combustível e assumiu o risco de um ataque na penúltima volta que marcaria não só aquela edição da prova, mas que ficaria para sempre como uma das decisões mais intensas e polêmicas das 500 Milhas de Indianápolis.

“Eu saí da curva dois mais embalado que ele, fui para baixo e aí foi um dos momentos mais críticos da minha carreira como piloto, chegando na curva três lado-a-lado com ele, eu por dentro e ele por fora. Eu sabia que ele não ia tirar o pé e ele sabia que eu não ia tirar o pé. E eu estava sem tomada, para fazer a curva com o pé embaixo, eu precisava de tomada. Eu sabia que meu carro ia derrapar, mas eu pensei: ‘não vou tirar o pé’. E aí eu entrei, saiu a traseira do carro, encostou no carro dele, e por sorte eu não virei, ele que virou”, contou Fittipaldi.

Com o toque dos dois, Al Unser Jr bateu forte no muro na saída da curva três. A corrida não teve tempo de ser reiniciada e Emerson cruzou a linha de chegada sob bandeira amarela. Como o terceiro colocado, o também brasileiro Raul Boesel, estava seis voltas atrás, Jr ainda ficou com a segunda posição da corrida.

Assim, Fittipaldi se tornaria o quarto piloto da história até então campeão da F1 e vencedor das 500 Milhas de Indianápolis, após apenas Jim Clark, Graham Hill e Mario Andretti.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.