Na Tela #16: O dia em que o jovem Senna venceu consagrados campeões da F1

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Qual foi a primeira vez que Ayrton Senna mostrou ao mundo que era um dos maiores talentos produzidos pelo automobilismo? Muitos podem citar apresentações de gala do brasileiro nas categorias de base, seja no kart, seja nos monopostos, quando já era visto como um diamante bruto. Outros (talvez a maioria) podem citar o GP de Mônaco de 1984, quando ficou perto de vencer com a Toleman.

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Nem todos podem se lembrar, no entanto, que exatos 22 dias antes daquele temporal monegasco, Senna já havia impressionado contra os “figurões” da F1 em uma corrida com carros idênticos. Foi na Corrida dos Campeões de Nurburgring, organizada pela Mercedes para inaugurar o novo traçado do templo sagrado do automobilismo na Alemanha.

Senna

A F1 não desembarcava em Nurburgring desde a famosa prova de 1976, marcada pelo terrível acidente que quase tirou a vida de Niki Lauda. Dali em diante, o traçado de 22 km de Nordschleife passou a ser considerado obsoleto e inseguro, o que provocou a realização de intensas reformas.

A nova pista, de 4,5 km, voltaria ao calendário da F1 em outubro de 1984. Meses antes, a Mercedes quis comemorar a ocasião com um evento especial: colocou monstros sagrados das corridas para competir com carros de rua iguais, os 190 E – equipados com motores Cosworth 2,3 L e que contavam com cerca de 115 cv de potência.

Entre os convidados estavam as lendas Jack Brabham, John Surtees e Stirling Moss, além dos campeões Niki Lauda (que voltava ao palco do episódio mais assustador de sua carreira), Keke Rosberg, Alan Jones, Denny Hulme, James Hunt, Phil Hill e Jody Scheckter. Os jovens Alain Prost e Elio de Angelis também eram figuras garantidas.

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Emerson Fittipaldi foi um dos campeões que não puderam aceitar o convite: ele estava de agenda cheia com o Pole Day de sua primeira participação nas 500 Milhas de Indianápolis. Em seu lugar, a Mercedes convidou Senna, campeão da F3 Inglesa do ano anterior e que havia disputado quatro GPs de F1 até então – contando com o fracasso na classificação do GP de San Marino, quando ficou de fora do grid.

Nurburgring 1984

E o futuro tricampeão agarrou com unhas e dentes a chance de competir com os grandes nomes de sua época com equipamento equivalente. No treino classificatório, anotou o segundo melhor tempo, justamente atrás de Prost. Mas na corrida, com asfalto úmido, mostrou seu talento habitual e deu início a uma rivalidade que viraria história na F1.

Na largada, precisou resistir às tentativas de Carlos Reutemann para se manter no segundo lugar. Ainda no giro inicial, mergulhou por dentro de Prost para tomou a ponta – o francês, que foi atingido por De Angelis na manobra e caiu para o fundo do pelotão, chiou contra a postura do brasileiro.

Senna, com uma tocada agressiva, mantinha a ponta, enquanto que Lauda fazia prova de recuperação impressionante. Depois de partir do fundo do grid, o então bicampeão do mundo ultrapassou os adversários um a um, até ficar no encalço de Senna pela ponta. Ao término de 12 voltas, o brasileiro venceu, apenas 1s38 à frente do austríaco.

Senna Vitória
Senna, Lauda e Reutemann foram os três primeiros da prova

Há quem releve o resultado. Senna, buscando seu lugar ao sol, se dedicou ao máximo durante a prova, enquanto que os mais consagrados supostamente encararam o evento como uma situação festiva – Jacques Laffite, por exemplo, sequer compareceu ao treino classificatório após ter perdido a hora. Além disso, relatos da época dão conta de que um jantar realizado na véspera da atração deixou muitos dos “figurões” provavelmente de ressaca para a corrida.

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Mesmo assim, Senna agarrou a chance com força e deu uma das primeiras de muitas exibições de gala de sua vida. A Mercedes, que pretendia colocar o carro do vencedor em posição de destaque de seu museu, ficou frustrada com o resultado – a empresa preferia que a vitória ficasse com um ás consagrado, e não com um novato que havia acabado de chegar à F1. Mal sabiam eles…

Assista ao vídeo abaixo com imagens da Corrida dos Campeões de Nurburgring – 1984. O diretor de imagens alemão “comeu mosca” no início e perdeu as primeiras ações (incluindo a disputa Senna x Prost), mas, de qualquer forma, é uma oportunidade rara de ver grandes nomes da história pisando fundo em carros de rua.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Gustavo Segamarchi

    Esse novato se tornou um MITO.

  • Dox

    Senna já chegou rasgando, e tenho lá minhas dúvidas se algum piloto corre alguma corrida sem sangue nos olhos.
    Neste video aqui tem um pouco mais de material, e até a largada e podium.

  • achsanos

    Érrtonn Zenná Dah Ziliva, auf Brasilien… locução empolgadíssima. Mas a impressão que fica é essa mesmo, cada um tinha uma motivação diferente, nem todo mundo pareceu estar levando a sério, o que nem de longe desmerece Senna.

  • ituano_voador

    O interessante é que Senna foi chamado para substituir o Emerson Fittipaldi, que não pode disputar a prova. E havia um acerto para que o Mercedes do vencedor ficasse exposto permanentemente no museu da Mercedes Benz. Quando Senna venceu, o diretor do museu ficou incomodado porque Senna ainda era um desconhecido. Mal sabia ele o tamanho da preciosidade que passou a ter em mãos…