Não adianta xingar a Globo por não passar GP. É a realidade futebol x F1

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Como já vem acontecendo desde 2012, quando a etapa de Austin entrou no calendário da F1, a Globo não irá transmitir a corrida, repassando a incumbência para seu canal de esportes por assinatura, SporTV. E isso sempre gera alguma polêmica e reclamações entre os telespectadores que acompanham a F1.

É verdade que já é possível vermos muitas manifestações a favor de uma mudança definitiva da transmissão para o canal pago, pela possibilidade de maior tempo e etc., mas a maioria ainda está acostumada ou só pode ver a categoria na TV aberta mesmo.

Só que a verdade é que qualquer um de nós, por mais fã de automobilismo que fosse, que estivesse na cadeira de quem toma a decisão de passar a F1 ou o futebol, seguiria o que a emissora carioca está fazendo.

Apesar da parceria de sucesso, Reginaldo e Galvão desfalcaram as transmissões da F1 várias vezes (Zé Paulo Cardeal/TV Globo)
Apesar da parceria de sucesso, Reginaldo e Galvão desfalcaram as transmissões da F1 várias vezes (Zé Paulo Cardeal/TV Globo)

O GP dos EUA, e esse ano o do México também, estão em um horário terrível, em que é impossível desviar. Há alguns anos, quando o GP do Canadá chegou a começar às 15h de Brasília, a Globo chegou a empurrar a rodada do Campeonato Brasileiro para às 17h para ter os dois. Mas com a corrida às 17h, não tem como e temos que entender.

Além do fato da audiência do futebol ser mais que o dobro, existe a escolha de relevância mesmo. O que atinge mais as pessoas, a F1 ou futebol? E não é uma questão de ter brasileiro ou não ganhando, já que como Lucas Berredo mostrou em seu texto aqui no Projeto Motor, até mesmo no auge de Nelson Piquet e Ayrton Senna, na década de 80, ela também deixou de passar provas. A realidade é que futebol é um esporte mais relevante para o brasileiro do que a F1.

A Band sofreu (e sofre) muitas críticas por anos com este dilema por conta da Indy. O certame americano tem uma situação ainda pior, já que a maioria de suas corridas acontecem no domingo à tarde. A escolha, claro, quando não é possível passar as provas, sempre foi pelo futebol, repassando a transmissão para o Bandsports, que nem de perto tem o mesmo alcance do Sportv.

Em algumas oportunidades, notadamente as 500 Milhas de Indianápolis, o canal chegou a deixar passar o começo do futebol para não perder as voltas finais de sua principal corrida.

A questão, ali, no entanto, seria mais uma escolha da própria Indy mesmo, que poderia repensar a posição de ter como emissora oficial no Brasil um canal que não tem espaço para passar metade de suas corridas. Mas os laços entre os dois lados sempre foram muito fortes, sendo que a Band chegou a ser organizadora da etapa brasileira da categoria, em São Paulo.

Na F1, o contrato entre Globo e FOM nunca obrigou a TV brasileira a passar as provas ao vivo. Ela é obrigada a mostrar, no dia, algum resumo, mesmo que em outro horário. Para passar no Sportv, no entanto, é uma negociação que nos últimos anos vem se desenrolando.

Bernie Ecclestone
Bernie Ecclestone

Já aconteceram algumas vezes das corridas ficarem fora até mesmo do canal pago. A questão é que o contrato entre o canal fechado e a empresa de Bernie Ecclestone é diferente, com valores diferentes. Nos últimos anos, tem acontecido uma forte migração das transmissões da F1 e outros esportes na Europa para a TV fechada. O que explica, inclusive, uma parte da tão falada (e pouco analisada) queda de audiência no Velho Continente.

Esses acordos são muito mais vantajosos financeiramente para a FOM, que apesar de perder parte do público e espaço nas emissoras abertas, consegue cobrar mais caro e ter uma transmissão mais completa nos canais por assinatura.

A Globo ainda nega que irá de vez por esse caminho. Já faz um tempo que parece ser o caminho natural. Mas aí entra outro fator na conta. As cotas de publicidade da F1 na Globo ainda são bastante gordas e mantêm o interesse comercial da emissora na categoria.

“E como esses patrocinadores que pagam tão caro não exigem que a corrida passe ao vivo?”, você pergunta. Já faz um tempo em que o maior interesse em colocar dinheiro na transmissão da F1 vale mais para aparecer nos intervalos do “Jornal Nacional” ou “Fantástico” do que no cantinho da tela durante a corrida. Por isso, temos sempre um repórter fazendo nem que seja um minuto de reportagem nos GPs. Assim, o canal consegue fechar a conta, deixando os patrocinadores e a maioria dos telespectadores contentes.

E seguimos. Temos que compreender a situação e entender que, mesmo se tratando de uma possível decisão de título (provavelmente Lewis Hamilton será campeão nos EUA ou no máximo no México), existem outras prioridades.

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.