Netflix dribla limitações da F1 com tensões de bastidores

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Na semana anterior a abertura da temporada 2019 da F1, a Netflix liberou para seus assinantes a primeira temporada de sua série “Dirigir para Viver”, produzida durante o campeonato de 2018 com filmagens de bastidores e entrevistas em um acordo diretamente com a categoria, que ajudou na produção.

Ao assistir o conteúdo, porém, algo logo chama a atenção do espectador: as principais equipes do grid, Mercedes e Ferrari, juntamente com seus pilotos e dirigentes, ficaram de fora. As duas equipes não quiseram abrir suas portas para os produtores da Netflix e mostraram que ainda não entenderam o novo momento não só da categoria, mas do mundo. Mesmo que custe alguns segredos internos (o que é improvável), crie algumas chateações com demonstrações emocionais ou declarações, boicotar algo tão grande feito para os fãs é um verdadeiro tiro no pé.

Com o desafio de não ter simplesmente a briga pelo título e de quase todas as vitórias da temporada, os produtores, liderados por James Gay-Rees, que também trabalhou no famoso documentário “Senna”, de 2010, precisaram buscar outro caminho. E fica a boa impressão de que encontraram.

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Cada um dos 10 capítulos da temporada tem um tema diferente e eles não seguem a temporada de forma cronológica. A grande sacada foi focar cada vez numa história. Explicar quem é a Haas, os dramas de Daniel Ricciardo dentro da Red Bull, as dificuldades de McLaren e Williams, a mudança da Force India para Racing Point, a eterna busca por redenção de Hulkenberg, a rivalidade entre Red Bull e Renault (e seus dirigentes) e por aí vai.

F1: Pilotar para Viver já está disponível no Netflix para assinantes

Foi uma bela forma de driblar essa antiga cultura da limitação e do “não” que insiste em se impregnar na F1 e diminui consideravelmente a experiência do espectador, além de deixar nós jornalistas que cobrimos a categoria muitas vezes vivendo dias de frustração no paddock por não conseguirmos contar as histórias que gostaríamos.

Claro que se eu disser que “F1: Dirigir para Vivier” consegue preencher totalmente o vácuo deixado por não ter a história de suas principais estrelas, estaria mentindo. Mas pelo menos também abriu os olhos dos fãs e não fãs da categoria para outros contos deliciosos que moram no pelotão intermediário e que ficam na maioria das vezes esquecidos pela maioria durante a temporada. A série certamente acerta mais do que erra dentro das limitações a que foi imposta.

Outro acerto foi o de não cair em temas já mais que batidos como o medo da morte no automobilismo ou o glamour das corridas, algo que todo mundo já está cansado e que seria apenas um pouco mais do mesmo em relação a outros documentários do tipo. Sim, os assuntos estão lá, mas em segundo plano e são mencionados quase que de en passant.

Gunther Steiner, chefe da Haas, é um dos destaques da série da Netflix

O grande problema talvez seja a abordagem com viés maniqueísta em algumas situações. Aquela mania de sempre existir o mocinho e o bonzinho. Confesso que se eu fosse Max Verstappen ou Sergio Pérez não ficaria muito contente com o resultado da produção, vendo o papel para que foram empurrados diante de uma exaltação estilo cavaleiro alado a que seus opositores Ricciardo e Esteban Ocon são elevados. Existe um pouco de exagero que para quem acompanha mais de perto a competição incomoda um pouco.

A escolha foi o caminho encontrado para de alguma forma abrir a possibilidade ao público de torcer por alguém dentro da realidade de cada personagem. Alguns brigando pelo pódio, outros pelo quarto lugar entre os construtores, e tem até quem tinha um inimigo na mira. Mais uma vez, é a limitação de não ter a briga pelos títulos como muro, exigindo um molde no formato.

Netflix apostou em mostrar alguns pilotos fora da rotina dos autódromos, como Carlos Sainz

Netflix e a F1 podem, mesmo assim, ficar contentes com o resultado. E convenhamos, é legal de ser ter acesso a algo neste estilo da categoria sem que se precise apelar para 20, 30, 40 anos atrás. Mostrar que o Mundial de hoje tem seu nível de tensão e suas histórias dentro e fora da pista ajudam a empenhar o público. E pode ser interessante mesmo para os que não acompanham o Mundial, assim como qualquer outra série documental que existe na rede de streaming sobre ciência.

Vale a maratona e a expectativa para a próxima temporada, que já está em produção acompanhando a temporada de 2019, e esperamos que agora com grid completo.

PS: só o nome da série que é de doer…


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.