Nome “Lotus” completa 600 GPs sem nenhuma identificação com o passado

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Uma marca como a Lotus chegar aos seus 600 GPs na F1 deveria ser um momento óbvio de festa e muitas homenagens. Mas não é isso que está acontecendo e nem vai acontecer no próximo final de semana, em Cingapura, quando os carros entrarem na pista. Acontece que o nome que carrega tanta tradição e peso na categoria chega a este momento de forma totalmente enfraquecido e desconectado do seu passado. Não é a equipe, mas apenas uma nomenclatura.

Afinal, quem é essa Lotus? O que existe hoje no Mundial é uma imitação de um dos times mais importantes que já competiram no automobilismo. É simplesmente um patrocínio em uma organização que não liga para o histórico que vem com o nome que está empenhado nos macacões dos pilotos e mecânicos e que a representa na tabela de classificação. Por isso que não existe o que celebrar.

A Lotus, a de Colin Chapman, Jim Clark, Emerson Fittipaldi, Ayrton Senna e das inovações tecnológicas, acabou definitivamente em 1994, afundada em dívidas. A família já tinha vendido o time no final de 1990 para Peter Collins e Peter Wright, empregados da equipe que resolveram assumir.

Alessandro Zanardi com a Lotus 107C, no GP da Espanha de 1994
Alessandro Zanardi com a Lotus 107C, no GP da Espanha de 1994

David Hunt, irmão de James, campeão mundial de 1976, ainda chegou a comprar o time, mas não conseguiu levantar o dinheiro para colocá-lo na pista em 95. Três anos depois, ele anunciou o retorno da equipe à F1 com um comunicado oficial. “Na véspera do 30º aniversário do recorde de Jim Clark de cinco vitórias no GP da Inglaterra pelo Team Lotus e para acabar com as recentes especulações, o Team Lotus está satisfeito em anunciar que irá retornar à F1 em 1999”, declarou. O projeto não saiu do papel.

Antes disso, na década de 80, a Lotus Cars, divisão de carros de rua do grupo, já tinha saído das mãos da família Chapman, pouco depois da morte de seu fundador, em 1982. A empresa estava no centro de um grande escândalo de desvio de dinheiro de subsídios do governo britânico, que deveria ter financiado o projeto da Lotus para a fabricação do modelo DMC-12, em parceria com a DeLorean (sim, aquele do filme “De Volta para o Futuro”). Durante a ação contra a empresa, o juiz do caso chegou a afirmar que se Chapman estivesse vivo, seria sentenciado a pelo menos 10 anos de prisão.

O caso até gerou divertidas lendas de que o engenheiro, na verdade, teria forjado sua morte e fugido com o dinheiro para o América do Sul.

De qualquer maneira, isso tudo fez com que existisse uma separação do Team Lotus, equipe de corrida, e a Lotus Cars, montadora de carros de rua, que passou pelas mãos de vários investidores – até mesmo da americana General Motors – até ser vendida durante os anos 90 para sua atual dona, a Proton, fabricante malaia.

Essa separação criou uma situação ridícula e que achincalhou de vez esse nome de tanto peso alguns anos mais tarde. Em 2009, o empresário malaio Tony Fernandes conseguiu uma vaga na F1 para alinhar um novo time no ano seguinte graças à desistência da Toyota. Ele fez então um acordo com a Grupo Lotus, da Proton, para utilizar o nome “Lotus Racing”.

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Durante o ano, porém, o Grupo Lotus resolveu encerrar a licença que tinha dado a Fernandez para as temporadas seguintes. O malaio, querendo seguir com o nome, correu para comprar a marca “Team Lotus” de David Hunt. Do outro lado, o Grupo Lotus passou a investir repentinamente no automobilismo, incluindo patrocínios em equipes de categorias de base e até na Indy (um programa que chegou a resultar até na fabricação de um motor para a categoria), e fechou os “naming rights” da então equipe Renault, que tinha sido adquirida da montadora francesa pelo fundo de investimentos Genii.

Assim, em 2011, a F1 teve no grid o “Team Lotus” e a “Lotus Renault”. Claro que o caso foi parar na justiça e no final resultou em um acordo em que Fernandez abriu mão de usar a tradicional marca, renomeando seu time de “Caterham”, montadora com a qual a Lotus chegou a trabalhar na época de Colin Chapman.

E assim se formou a atual Lotus, que vemos no grid. As estatísticas acabaram ficando confusas também, já que as fontes mais confiáveis acabam somando o período da verdadeira Lotus (de 1958 até 1994) com as de Fernandez (2010 e 2011) e a atual (desde 2012). Claro que isto está errado. Se você, leitor, está xingando o autor do texto por não considerar o GP de Cingapura de 2015 o 600º da história da Lotus, saiba que nós, do Projeto Motor, também não consideramos.

Lotus leva no seu carro durante o GP da Áustria de 2015 brasões em referência aos títulos de construtores de 1994, 2005 e 2006, de Benetton e Renault, times baseados em Enstone
Lotus leva no seu carro durante o GP da Áustria de 2015 brasões em referência aos títulos de construtores de 1994, 2005 e 2006, de Benetton e Renault, times baseados em Enstone

E nem a própria equipe entra nessa. Em seu material de marketing, a equipe ignora o que o seu nome fez na F1 e assume como sua história o que as equipes que passaram pela sua base em Enstone fizeram. O time leva no seu material de marketing, equipamento de box e, em algumas corridas, até mesmo nos carros, os brasões pelos títulos de 2005 e 2006, conquistados pela Renault, dona da organização na época. Não existe identificação nenhuma. E nem deveria ter mesmo.

Por isso que uma possível venda, que curiosamente pode ser até mesmo para a própria Renault, seja algo bom. Assim, quem sabe, deixemos de ver “Lotus” ser usado desta forma tão desconexa e fora do contexto para descansar em paz com sua história tão bela.

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Gustavo Segamarchi

    Mais uma vez, uma matéria muito boa.

    Eu também não considero essa ”Lotus” a original. Como citado na matéria, a verdadeira Lotus acabou em 1994, e deixa saudades até hoje.

    Quando se fala em Lotus F1 Team, logo me vem à cabeça os carros de 1985 e 1986. Uma era que foi LINDA, e que NUNCA MAIS vai voltar!

  • Pablo Habibe

    A rigor é ou seria a Toleman. Chega a ser surpreendente que a F1, tão ranzinza em termos legais, não se posicione de modo a preservar melhor a sua memória. Afinal, esse é o tipo de confusão que mina a sua credibilidade justamente com quem ela é mais difícil de ser recuperada, que são os fãs de automobilismo, aqueles que realmente acompanham o esporte e não aquela massa flutuante que vai aonde a festa está, seja ela um jogo de vôlei ou um batizado…

    Da mesma maneira que a FIA obriga esse delay na troca dos nomes das equipes (não tivemos a BMW Sauber Ferrari?), ela poderia vetar que se levantasse nomes históricos em vão, sem conexões reais com suas origens.