Novo carro da Fórmula E adverte: monopostos nunca mais serão os mesmos

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A Fórmula E intrigou todos os entusiastas do automobilismo ao apresentar nesta semana as primeiras imagens do novo chassi a ser utilizado pelos competidores da categoria 100% elétrica nas próximas três temporadas (2018/19, 2019/20, 2020/21). Apelidado de “Gen2″ (síncope da expressão em inglês “geração 2″), o carro surpreende ao utilizar traços bastante radicais: rodas cobertas por carenagem integrada às asas, aerofólio traseiro repartido em duas peças, difusor gigantesco, sidepods diminutos e a presença dele, o controverso halo.

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Tenho certeza de que o douto leitor fez a mesma pergunta que o comitê editorial do Projeto Motor levantou ao ver as “fotografias” (colocamos a expressão entre parênteses porque na verdade se tratam de desenhos tridimensionais): afinal, é mesmo um fórmula – conforme se convencionou chamar um monoposto com rodas e habitáculo aberto – ou se tornou um protótipo? Caso não tenha entendido sobre o que estamos falando, dê uma boa olhada em 360 graus no chassi através da galeria posicionada no topo deste artigo ou no vídeo abaixo.

O conceito ousado e futurista do modelo não foi definido à toa. Enquanto precisava se firmar a categoria apostou em padrão estético mais alinhado àquilo que se vê atualmente nas competições de monopostos. Quatro anos depois, já relativamente consolidada e nova “queridinha” das montadoras, a série intencionalmente provocou uma baita ruptura estética, a fim de chamar bastante atenção para os novos predicados de seu bólido.

Projetado pela Spark (usando como base o SRT01 criado pela Dallara e desenvolvido pela própria Spark desde o início da Fórmula E), o “Gen2″ promove as seguintes evoluções: potência subirá para cerca de 340 cv em corrida e até 400 cv em classificações; velocidade máxima passará de 300 km/h (isso se os organizadores deixarem as pistas menos travadas, obviamente); baterias, agora fornecidas pela McLaren (antes vinham da Williams) terão vida útil dobrada (as atuais mal aguentam metade das provas de 50 minutos); luzes de LED serão aplicadas ao halo para servir de sinalização.

Dificuldades de definição sobre a que grupo de veículos de competição pertence o novo Fórmula E à parte, o importante é que a reação geral do público foi positiva. Mostra que as pessoas estão, de certa forma, abertas ao experimentalismo (exceto, claro, quando ele acontece na F1. Ali qualquer novidade virá sempre acompanhada de uma enxurrada de críticas). Mais do que isso, acende um interessante questionamento sobre o que será dos carros tipo “fórmula” no futuro. Será que o pacificado conjunto de bólido formado por motor central-traseiro longitudinal, radiadores laterais, aerofólios, rodas expostas e cockpit aberto está com os dias contados?

Para os leitores mais tradicionalistas a notícia talvez não seja tão boa: há fortes indícios de que a resposta seja sim, e este artigo irá justamente explicar por quê. Confira abaixo:

Renault RS 2027 Concept propõe bólido com asa dianteira iluminada, calotas com sinalização em LED nas rodas, habitáculo fechado e aerofólio traseiro retrátil
Renault RS 2027 Concept propõe bólido com asa dianteira iluminada, calotas com sinalização em LED nas rodas, habitáculo fechado e aerofólio traseiro retrátil

 

Habitáculo fechado

Os carros de corrida se tornaram muito mais seguros a partir dos anos 90, graças à perpetuação da chamada “célula de sobrevivência” e de materiais como fibra de carbono. Só que uma parte do corpo do piloto continuou relativamente exposta: a cabeça. Foi justamente essa “brecha” que provocou a morte precoce de Henry Surtees na F2, Jules Bianchi na F1 e Justin Wilson na Indy. Felipe Massa quase entrou na contagem. A FIA não quer mais que isso aconteça e vem há alguns anos testando soluções para tapar o buraco. As duas primeiras a serem aplicadas são: reforço nos capacetes e o polêmico halo, um dispositivo que todas as categorias de monoposto terão de adotar em breve.

Mas a questão é ainda mais ampla: o cockpit totalmente fechado só não foi implantado ainda porque não se conseguiu torná-lo eficiente ao ponto desejado. Deve ser questão de tempo. No passado, relembremos, protótipos de longa duração também costumavam deixar o habitáculo exposto. Hoje quase todos ganharam teto e para-brisa, e a tendência é que esta se torne uma saída também para os “fórmula”.

Os próprios engenheiros envolvidos na F1 acreditam nisso: veja os exemplos dos conceitos futuristas Renault RS 2027 Vision e Red Bull x2010, este último desenhado por ninguém menos que Adrian Newey. Ambos contam com bolhas ao estilo caça militar protegendo a cabine do piloto. O Projeto Motor já se posicionou contra esse tipo de medida, mas a análise em questão não é sobre o que achamos a respeito, e sim sobre o que há de devir nos próximos anos. Então se prepare: o halo talvez seja só o começo.

Conceito Red Bull X2010, saído da prancheta de Adrian Newey, prevê um F1 do futuro com cockpit e rodas totalmente acasulados
Conceito Red Bull X2010, saído da prancheta de Adrian Newey, prevê um F1 do futuro com cockpit e rodas totalmente acasulados

Rodas cobertas

Ainda mais essencial que o habitáculo aberto para definir um veículo tipo “fórmula” são as rodas expostas. Não é à toa que esse tipo de bólido é chamado em inglês de… open wheel. Só que este também é um elemento em transição no automobilismo. A Indy foi a primeira a colocar o conceito em xeque ao apresentar a primeira versão do DW12, em 2012, com as rodas traseiras parcialmente carenadas e dotadas de um aparato protetor na parte de trás do eixo traseiro. Objetivo era evitar o efeito “catapulta” provocado pelo contato dos pneus dianteiros de um carro nos traseiros de outro, exatamente o que matou Dan Wheldon no oval de Las Vegas, em 2011.

Com a reestilização aplicada para 2018 o DW12 perdeu a tal proteção, mas continua usando casulos laterais com carenagem proeminente, acobertando parte das rodas traseiras. Nesse sentido o Fórmula E Gen2 foi ainda mais despudorado, pois adotou paralamas em todas as rodas e ainda utillizou as peças traseiras como suporte para inserir uma dupla de aerofólios (algo que remete muito a uma solução já cogitada pela FIA para a F1 em meados dos anos 2000, com intuito de facilitar ultrapassagens, mas que jamais saiu do papel).

Observando ideias para o futuro, vemos que o Red Bull X2010 de Adrian Newey também é munido de rodas totalmente cobertas. Ou seja: estamos perto de outra quebra de paradigma aparentemente difícil de ser evitada. Os open wheel têm boas chances de não serem mais open wheel. Confuso, não?

Asa traseira bipartida do Fórmula E Gen2 não é uma ideia totalmente nova... FIA pensou em implantá-la na F1 nos anos 2000
Asa traseira bipartida do Fórmula E Gen2 não é uma ideia totalmente nova… FIA pensou em implantá-la na F1 nos anos 2000

Motorização e formas gerais

Com a eventual eletrificação dos sistemas de propulsão, os monopostos tendem a também mudar substancialmente suas formas. Afinal, para que ter cofre de motor, tomada de ar superior e radiadores laterais se não existe uma usina a combustão? Tudo que um carro elétrico precisa é de espaço para alojar as baterias. Como o assoalho tem sido o local convencionado para tal, os projetistas ganharão liberdade quase irrestrita para tracejar o que quiserem dali para cima. O mesmo vale para um cenário em que os veículos movidos a célula de combustível (como hidrogênio) prevaleçam.

O Fórmula E Gen2 expõe um pouco disso. Repare como são seus sidepods: integrados de maneira bastante fluida ao núcleo do chassi, passando quase imperceptíveis. É óbvio que a transição jamais será tão brusca a ponto de os bólidos ficarem irreconhecíveis enquanto “carros” (a turma de marketing jamais permitiria isso), mas as possibilidades para o futuro se nos mostram assustadoramente amplas.

O que, então, será o diferencial?

Agora vem a grande questão. Se um “fórmula” daqui a 30 anos tiver realmente rodas e habitáculo fechados, o que vai diferenciá-lo de um protótipo? Até o momento conseguimos encontrar apenas uma resposta: os braços das suspensões. Por mais radicais que sejam, Fórmula E Gen2, Dallara DW12 e os conceitos de F1 do futuro ainda têm esse detalhe em comum. Por quanto tempo será assim? Aí é difícil saber: fato é que já não parece mais haver determinismos que não possam rompidos no automobilismo de monopostos.

VEJA FATOS E MITOS SOBRE O HALO NA F1:

 

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Artur Bernardo Mallmann

    desculpe, mas ainda dá para considerar este carro um open wheel?

  • Rafael Schelb

    Bom, eu acho muito saudável a F-E, como uma categoria praticamente de vanguarda, fazer esse tipo de experiência e trazer esse futurismo, acho que combina com a proposta. Também não sou contra o cockpit fechado e acho que liberdade de desenvolvimento nunca é demais, principalmente na F1. Sobre os braços de suspensão cobertos, é interessante lembrar do Mercedes W196 Streamliner, que seguia exatamente esse conceito.

  • Dragon

    Achei bacana as imagens…

  • ANDRÉ WOLLMANN

    esse carro novo da FE https://uploads.disquscdn.com/images/82107052bf8d87fa8c61245581119be56bf8cd717b9fd8ab3f1ce5fb3c3c9caf.jpg lembrou um pouco o Tyrrell 012 de 1983 só que sem aquela asa Boomerang e sem rodas cobertas !!!

  • vinicius alexandre

    Assisto algumas corridas de F-E desde a temporada 2016-2017,e vejo que as disputas roda a roda são mais intensas que na F1 (atual)….imagino numa briga por posição quanto de pedaço de carro vai ficar pela pista com tanta carenagem (talvez não mais enfim…). Agora sem dúvida é um carro a ser elogiado mesmo com uma visão futurista,que é exatamente aquilo que a F-E se propõe.

  • Deyverson Araujo

    Mais uma vez que belo artigo. Eu acho que o futuro será esse e eu acho que faz parte da evolução do esporte a motor. De fato, na F-E hj é mais fácil ser feitas mudanças mas severas, infelizmente a F1 por ser muito tradicional, qualquer mudança gera um zilhão de critícas, mesmo que seja para melhorias da categoria. Mas acho que como já citado no texto, os protótipos mostram que dá pra fazer, mas demora, porque será necessário muitos estudos e teste já um monoposto tem estrutura diferente a um carro da Toyota por exemplo no WEC.

  • Hugo Borges

    Esse novo carro da Formula E é um híbrido entre protótipos e monopostos, ou seja, é o melhor dos dois mundos. Não concordo com a definição de monoposto se restringir às rodas expostas, você poderia adicionar: baixo peso e habitáculo minusculo, é um carro extremo.

    Protótipos sempre foram grandões e pesados (comparado a um monoposto)

    • Antonio Manoel

      Concordo, uma vez entrei em um debate sobre essa questão de monoposto, o cara se baseava basicamente no fato de que no Google a maioria de resultados de imagens através da busca por “monoposto” é só carro de Formula, mas a palavra já diz, um lugar. Logo, protótipos de LMP1 e LMP2 ou até carros de turismo podem ser monopostos…

  • Timothy Dalthonic 3.0

    Eu estou só esperando as tretas que um tópico com o fim das grid girls vai gerar.