Novo salário de Hamilton mostra: F1 perdeu a noção

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Cem milhões de libras. O equivalente a R$ 470 milhões. Segundo a publicação britânica “Telegraph”, esse é o valor do novo contrato de Lewis Hamilton com a Mercedes, anunciado no meio desta semana e que será válido de 2016 a 2018. Na divisão por temporada, dá 33 milhões de libras ao ano. Já o site do canal BBC foi um pouco mais modesto: 27 milhões de libras anuais, o que não deixa de ser uma cifra expressiva.

O objetivo deste texto não é analisar se o piloto inglês merece ou não receber um salário com essa quantidade de dígitos pelo que faz. Na comparação com os dois outros grandes nomes desta geração, Sebastian Vettel (que ganharia entre 40 a 50 milhões de libras por temporada na Ferrari)  e Fernando Alonso (o jornal espanhol “As” crava em 25 milhões de libras o valor anual de seu vínculo com a McLaren), podemos até dizer que está se fazendo justiça com o bicampeão mundial e atual líder do campeonato.

Sebastian Vettel (Ferrari/Divulgação)
Sebastian Vettel ganha entre 40 e 50 milhões de libras por ano, segundo algumas publicações (Ferrari/Divulgação)

No entanto, preocupa saber que as maiores esquadras do grid estão gastando mais da metade do orçamento inteiro de equipes menores – times como Sauber, Force India e Marussia gastam em torno de 60 milhões de libras por ano – para pagar apenas um piloto. Em meio a um cenário no qual vem sendo um parto manter o número de monocoques no grid acima das duas dezenas ano após ano, mostra que as principais escuderias do grid perderam a noção da realidade.

Só têm “bala na agulha” para bancar remunerações como as de Hamilton grandes montadoras (Mercedes, Fiat e, no caso da McLaren, Honda) ou uma empresa do tamanho da Red Bull. Ponto. E num momento como o atual, em que as marcas automobilísticas estão retomando o crescimento – especialmente na Europa -, é natural que dirigentes se empolguem ao assinar até um cheque em branco para ter sob sua tutela grandes ícones do esporte.

Mas a culpa não é toda das fabricantes: enquanto a direção da F1 se permitir levar pela soberba e pela pressão que os mais fortes exercem para deixar tudo como está, continuará agravando uma crise que mescla questões financeiras e esportivas. Chamou a atenção de toda a equipe do Projeto Motor a ausência de qualquer tópico, uma linha que fosse, em menção à redução de gastos na última reunião do Grupo Estratégico, realizada na última semana.

As esquadras independentes jamais terão condições de gastar 200, 300 milhões de libras para disputar uma única temporada. Com isso, são abdicadas das chances reais de disputar vitórias e títulos. Isso desanima e afugenta qualquer um. Pode parecer ótimo para as escuderias do topo em um primeiro momento, mas esvazia a competição e prejudica a todos em médio e longo prazo.

As esquadras independentes jamais terão condições de gastar 200, 300 milhões de libras para disputar uma única temporada. Isso desanima e afugenta qualquer um.

Enquanto os caciques da F1 – incluindo os de Ferrari, Mercedes, McLaren e Red Bull – não entenderem que é preciso colocar em prática, para ontem, um plano sério de redução de custos, incluindo teto até para os salários dos pilotos (algumas ligas americanas fazem isso com muito sucesso), não será possível resolver de forma plena as demais premências da categoria.

Ter um evento financeiramente saudável é condição primeva para que  se possa solucionar também as demandas esportivas. Do jeito que está, não há regulamento esportivo ou técnico que salvem.

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.