Pneus aro 18 de 2021 da F1 exigirão respostas mais rápidas dos pilotos

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Nem bem saímos da polêmica dos pneus de 2020 e vocês já vão falar dos de 2021? Sim, vamos. Junto com a grande mudança no carro, o novo regulamento técnico da F1 de 21 trará também uma alteração importante nos compostos. Saem as rodas de aro 13 polegadas e entram as de 18.

No meio de tanta transformação pela qual a F1 irá passar nos próximos 13 meses, essa modificação nos pneus parece pequena. Mas não é. Além da parte estética, os compostos passam a ter um perfil bem mais baixo, mais parecido com carros de rua e esportivos, e isso deverá entrar na conta dos engenheiros no projeto das novas suspensões. Com a parede lateral menor, os pneus irão absorver menos forças, tanto verticais como horizontais, o que exigirá mais dos carros neste quesito.

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Além disso, com a área da roda maior, o fluxo de ar (tanto para resfriamento dos freios como para pressão aerodinâmica) também será consideravelmente diferente. Desta forma, o balanço dos carros também será diferente do que temos hoje.

Com tantas novidades, a Pirelli, fornecedora única de pneus da F1, ainda terá mais um ponto de atenção para o desenvolvimento de seu produto para 2021: não terá um carro da temporada para experimentos. Não é nem uma questão política, mas técnica mesmo. O fato é que a categoria passará por uma verdadeira revolução e os primeiros modelos desenvolvidos especialmente para o novo campeonato devem surgir apenas na pré-temporada do ano que vem.

“É um desafio bem grande”, admitiu Mario Isola, diretor esportivo da Pirelli, em entrevista exclusiva ao Projeto Motor. O dirigente italiano, porém, explicou que o alinhamento geral deste passo é bom com as equipes, por isso, a empresa terá a chance de fazer alguns experimentos com carros híbridos (base de 2019/20 com algumas características de 21) que devem indicar pelo menos o caminho a seguir.

“Ano que vem todas as equipes irão nos fornecer um carro mula para testarmos. Por isso teremos a chance de testar durante o ano. E aí teremos que esperar o começo de 2021 para entendermos se os carros novos estarão em linha com os carros mula. Claro que não estou falando em termos de desempenho, eles serão totalmente diferentes, mas o que é importante é que usaremos carros que representem o desempenho de 2021”, explicou.

Por que a mudança nos pneus?

A alteração dos atuais aro 13 polegadas para os de 18 é algo discutido há tempos na F1. O problema é sempre se teve receio do investimento que teria que ser realizado no desenvolvimento de suspensões completamente diferentes. Com a mudança radical que o carro sofrerá em 21, chegou-se à conclusão que era o momento perfeito.

O principal motivo para essa modificação é sem dúvida nenhuma comercial. Os carros de rua com rodas aro 13 estão se tornando mais raros, e os 18 já são os mais utilizados. No próprio automobilismo, diversas categorias já migraram para medida maior das rodas. Além disso, o perfil mais baixo dos pneus os deixa mais parecidos com esportivos, o que também é bom para o marketing. E, claro, nesta salada de motivos, não se pode deixar de colocar a questão de transferência técnica, apesar do pouco que os pneus de corrida têm em comum com os produtos utilizados no dia-a-dia das cidades.

“O importante é que com os pneus de 18 polegadas a transferência de tecnologia pode ser mais relevante porque o tamanho será mais similar com os dos carros de rua. Nós aprendemos da F1, pois existem várias áreas em que desenvolvemos tecnologias que podemos transferir para os carros de rua. Mas com os pneus de 18 polegadas será mais próximo”, apontou Isola.

O que deve mudar para os pilotos?

No meio de tantas mudanças para 2021, pode ser que os pneus passem até mesmo um pouco despercebidos. Só saberemos disso daqui 13 ou 14 meses, quando os primeiros modelos daquela temporada forem para a pista. Mas a Pirelli já espera que os pilotos tenham que se adaptar a um equipamento com reações mais rápidas e sensíveis.

Como a parede lateral será menor e possivelmente um pouco menos flexível do que temos hoje, tudo que o piloto fizer ao volante irá gerar uma reação mais rápida dos pneus. Ou seja, os competidores terão que trabalhar um pouco em seu tempo de pilotagem, como o momento certo de entrarem nas curvas, por exemplo.

“Não dá para isolar o pneu, pois ele está acoplado a todo um sistema do carro. Mas o pneu com certeza é mais reativo. Ele aponta mais. Você mexe o volante e tem uma reação mais imediata do pneu”, indicou o dirigente da Pirelli.  “O balanço é às vezes um pouco diferente, mas depende um pouco das diferentes construções que testamos. Isso é algo que precisamos otimizar nos próximos testes. Você sabe que a forma da distribuição de peso no futuro será um pouco diferente”, seguiu.

A Pirelli realizou até o momento três testes com os novos pneus em modelos atuais adaptados. O primeiro em setembro de 2019 com a Renault, depois em novembro com a McLaren e o último com a Mercedes em dezembro (imagem acima). Foram as primeiras vezes que os novos compostos realmente foram utilizados e a empresa aproveitou os testes para experimentar diferentes tipos de construção e mistura de compostos da banda de rodagem. Sendo assim, toda essa avaliação ainda é muito inicial, tanto pelo momento de desenvolvimento dos pneus como pelos carros utilizados na pista.

“Existem alguns detalhes que são importantes. Os carros mula que estamos usando têm freios dos atuais, então eles são menores comparados ao aro que é muito maior. Então estamos tentando evitar turbulência, o fluxo de ar perturba a pressão aerodinâmica… Com certeza quando tivermos a versão final do carro será diferente, pois terá freios diferentes, um sistema diferente para administrar o fluxo de ar. Isso é algo que só vamos saber quando tivermos a versão do carro”, explicou Isola.

E as estratégias?

Quando retornou à F1, em 2011, em sua primeira passagem como fornecedora única, a Pirelli recebeu uma encomenda dos administradores da categoria na época: pneus de alto de desgaste que aumentassem a necessidade de se realizar vários pit stops durante uma corrida. A ideia recorrente na época é que com mais paradas para trocas de pneus, maior a chance de se movimentar as provas.

A partir de 2018, no entanto, o conceito que passou a ser discutido pela F1 com a Pirelli mudou um pouco. Após diversas reclamações principalmente dos pilotos, que diziam não poder exigir o máximo de seus carros por conta do desgaste dos compostos, a empresa passou a trabalhar com produtos que durassem mais na pista. Isso, por outro lado, também resultou em uma diminuição da variedade de estratégias.

Mas o que devemos esperar destes pneus de 2021? Segundo Isola, a Pirelli está trabalhando na mesma linha atual. O que pode mudar o cenário, no entanto, é se o novo regulamento realmente vai funcionar na busca da diminuição da perda de pressão aerodinâmica para os carros que perseguem adversários.

“Hoje, todos estão administrando o ritmo para tentar fazer uma parada. O principal motivo é que é muito difícil ultrapassar com os atuais carros. E se você planejar uma estratégia com dois ou três pit stops e ficar preso no tráfego, é muito difícil recuperar. Por isso, a tática com uma parada é muito mais popular. Se em 2021 for verdade que ficará mais fácil ultrapassar porque quando você for seguir outro carro não vai perder tanta pressão aerodinâmica e não irá superaquecer os pneus, então, talvez, o balanço entre uma ou duas paradas mude. E para prever tudo isso não é muito fácil”, apontou Isola.

O italiano ainda explicou que a ideia é ter pneus com quase nenhum desgaste nas primeiras voltas, mas que em certo ponto da vida útil passem a sofrer uma deterioração cada vez maior. Desta forma, os pilotos poderão andar forte quando estiverem com compostos novos, mas precisarão administrar a utilização após um momento chave.

De qualquer maneira, até por conta da falta de testes com carros mais próximos do que serão utilizados, já admite-se que 2021 será uma temporada de avaliação e transição. “Quando começarmos 2021, teremos que validar tudo isso durante a temporada e vamos adaptar o nosso produto para 2022 dependendo dos resultados”, disse o dirigente.

Para se blindar de possíveis críticas quanto ao comportamento do produto, a Pirelli também está trabalhando em um documento que está sendo redigido com os pedidos de FIA (federação internacional que regulamenta a categoria), Liberty (promotor e proprietário dos direitos comerciais), equipes e pilotos. A ideia é que este acordo, assinado por todos, funcione como uma espécie de guia para o desenvolvimento dos pneus.

“Não é algo formal, mas será um acordo. Não podemos deixar todos contentes. Mas a ideia é deixar todos meio contentes”, afirmou Isola.

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Apesar dos novos pneus estrearam na F1 apenas em 2021, os fãs já poderão ter pelo menos uma ideia do que irão ver a partir do próximo ano. Isso porque a F2 irá utilizar os novos compostos com aro de 18 polegadas em 2020, como uma espécie de aquecimento para a Pirelli.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.