O carro de corrida mais estranho da história? Conheça o “3×1” de Ken Reece

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Se existe um ensinamento que a história do automobilismo nos deixa é que criatividade é tudo quando se fala em criar um carro de corrida. Kenny Reece, um mecânico de Ohio, nos Estados Unidos, levou esse conceito ao limite e projetou uma das máquinas mais diferentes que já se viu em uma pista.

Reece era um curioso que gostava de corrida de carros e foi se envolvendo com a coisa. Através da experiência, ganhou certa expertise com mecânica e fez um curso de soldador para poder trabalhar no meio. Chegou até mesmo a participar de alguns projetos de equipes da Indy.

Só que ele vivia mesmo era nas pistas de midget, aquelas gaiolinhas que competem em pequenos ovais de terra, e outras competições locais. Foi quando ele teve a ideia de um novo projeto que faria bastante barulho na comunidade local de esporte a motor na temporada de 1980.

O conceito de Reece

O novo carro seria utilizado na classe supermodificados, que tinha um regulamento bastante aberto e permitia quase qualquer tipo de mecânica e motores. O 3×1 tinha três rodas do lado direito e apenas uma do esquerdo, com o motor onde ficaria a dianteira direita fazendo o balanço de peso.  

A ideia de Reese era que o carro poderia usar a linha mais externa das curvas dos ovais curtos (menos de 0,5 milha) com um aproveitamento muito melhor do que os adversários, já que teria um apoio e tração melhores. Ele nunca fez um projeto no papel e foi montando o carro e resolvendo os problemas quando eles apareciam. Um exemplo disso foi o sistema de direção, que ele precisou modificar para que a primeira e a última rodas da direita (da linha de três) e a única esquerda ficassem ligadas a um braço que as esterçasse nas curvas.

Ken Reece e seu 3x1
Ken Reece e seu 3×1 (Foto: Reprodução)

Reese lia muitos livros de engenheiros consagrados e uma explicação de Colin Chapman sobre o peso do carro lhe deixou obcecado com o assunto. Desta forma, ele tentou deixar o carro mais leve possível, usando basicamente placas de alumínio em torno da estrutura tubular que ele mesmo montou. Assim, o carro ficou apenas com 596 kg.

Coloque neste chassi um motor ZL-1 427 Chevrolet V8 com bloco de alumínio, o mesmo utilizado no Camaro, que estava preparado para carros da Cam-Am e que produzia em torno de 850 cavalos, você tem um pequeno monstro.

Testes na pista

Reece convenceu um amigo, Tim Richmond, a pilotar o negócio. O piloto tinha uma boa experiência com passagem em diversas categorias de alto desempenho e naquela mesma temporada iria ficar na nona colocação das 500 Milhas de Indianápolis.

Eles pegaram o “3×1” e foram para a pista de desenvolvimento da Honda em Ohio. O circuito não tinha nada a ver com os desafios que o carro iria enfrentar, com uma extensão de 7,5 milhas (12 km). Mas o objetivo aqui era só ver se o carro tinha condições de correr. A primeira impressão foi que ele era muito solto, mas era algo de se esperar nesta condição.

Reece e Richamon foram então para uma pista de 0,5 milha na região, fizeram alguns acertos e voltaram ao circuito da Honda. Desta vez, a sensação foi bem melhor e Richmond chegou a bater impressionantes 200 mph (320 km/h) sem problemas.

Por que a insistência neste traçado e para que chegar a uma velocidade que provavelmente não seria necessária em traçados curtos? A dupla queria testar a estabilidade do “3×1”. O teste passou confiança e eles partiram então para o novo estágio de desenvolvimento.

Modelo revolucionário de Reece passou por um exaustivo programa de testes (Foto: Char Reece/Reprodução)

A nova base de testes seria o Sandusky Speedway, também em Ohio, num traçado de  0,5 milha. Neste momento, eles sabiam que passariam a ser observados por outras equipes e pilotos, e o segredo em torno do revolucionário modelo deixaria de existir. E além do visual, os tempos chamaram muita atenção, com Richmond alcançando médias entre as mais rápidas do circuito.

O fim frustrante

As notícias sobre o carro de Reece se espalharam. Depois de quase um ano de testes, o projetista chegou à conclusão de que depois de tantos testes, eles estavam prontos para a primeira corrida oficial. A prova escolhida era o evento de 1980 de supermodificados no Oswego Speedway.

Só que os organizadores da corrida, ao ficarem sabendo da iniciativa, ficaram com medo de que ela criasse discussão com outros competidores ou até começasse a atrair modelos “não convencionais”, o que, na opinião deles, poderia tirar parte da credibilidade do evento. Assim, eles resolveram fazer uma mudança de última hora no regulamento, deixando claro que onde as rodas dos carros deveriam ser posicionadas, na configuração tradicional de duas na frente e outras duas atrás.

A mudança seria seguida por todas as outras pistas do calendário de supermodificados, o que deixou o modelo totalmente obsoleto e sem chance de competir. A frustração de Reece foi tão grande que ele resolveu encerrar o projeto por ali. Principalmente pelos mais de U$ 50 mil que ele gastou no carro, que saíram principalmente da venda de um negócio de vasos de plantas que lhe ajudava a financiar suas incursões mais caras no automobilismo.

Ele desmontou o carro, montou um modelo de arrancada para o filho, e destruiu as peças e a parte estrutural que não teriam como ser adaptadas a um carro convencional. E assim, o “3×1” nunca teve sua chance de competir.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.