O dia em que Tazio Nuvolari calou o nazismo em Nurburgring

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O período dourado dos Grandes Épreuves, os eventos que deram origem à F1 moderna, ainda é, para boa parte dos fãs, um ponto obscurecido na história do esporte. Seja por ignorância, desinteresse ou mesmo pela falta de dados disponíveis para avaliação, é raro, quando nos deparamos com listas de melhores pilotos ou afins, se deparar com nomes como Jean-Pierre Wimille, Tazio Nuvolari ou Bernd Rosemeyer. É fato, porém, que às vezes a historiografia nos trai: quanto mais distante na linha temporal, mais difícil avaliar os episódios que ocorreram em um determinado período.

De qualquer forma, não é por tais restrições de investigação que os acontecimentos desta era mereçam o limbo da história automobilística. Principalmente tratando-se do GP da Alemanha de 1935, que completou 80 anos no último dia 28 de julho. Neste páreo, o extraodinário mantovano Tazio Nuvolari, a bordo de um Alfa Romeo desatualizado, quebrou uma sequência de oito vitórias consecutivas de carros alemães na temporada. No que foi o clímax do esporte naquele ano, o triunfo de Nuvolari não apenas surpreendeu os cerca de 300 mil germânicos à espera de uma vitória de Auto Union ou Mercedes como encolerizou os oficiais mais poderosos do Partido Nacional Socialista – ou, como preferirem, o Partido Nazista – que estavam presentes ao evento. Incluindo seu líder, o famigerado Adolf Hitler.

Nuvolari com Bernd Rosemeyer: dois ídolos dos anos 30 (Divulgação)
Nuvolari com Bernd Rosemeyer: dois ídolos dos anos 30 (Divulgação)

A ideologia de Hitler

Antes de prosseguir, é preciso descrever o contexto da época. De certa forma, 1935 deu início à fase mais agressiva do Partido Nazista no poder. Dois anos antes, Hitler declarou um boicote nacional às empresas judias na Alemanha, um episódio que serviu de lobby para vários ataques violentos à população semita no país. Pouco depois da corrida em Nurburgring, o Führer aprovou as Leis de Nuremberg, que proibiam casamentos entre alemães e judeus e suspendiam a cidadania dos semitas residindo em território germânico. Foi uma medida social que chamou a atenção dentro e fora da Alemanha e prenunciou a catástrofe que estaria por vir.

Como o leitor provavelmente sabe, por trás disso, não apenas estava o ataque à hegemonia econômica da população judia no país, mas uma teoria de eugenia racial. Para Hitler, os germânicos e os nórdicos em geral eram uma raça pura à qual o mundo deveria prestar condolências. Em sua vil interpretação da história, os alemães, como descendentes dos povos que esfacelaram o Império Romano, possuíam uma superioridade intelectual, física e psicológica em relação aos outros povos. Uma condição que à época os racistas do Partido Nazista consideravam sine qua non.

Para provar tal superioridade, os investimentos esportivos de Hitler foram enormes. No automobilismo, as principais beneficiadas foram a Mercedes-Benz, que concedia seus carros ao Führer, e a bávara Auto Union, um embrião do que hoje chamamos de Audi. Cada uma recebia 250 mil marcos anuais para desenvolver seus carros no circuito de GPs.

O ano de 1935 viveu o domínio da Mercedes. Construído por Hans Nibel, Max Sailer, Albert Heess e Max Wagner, o W25, com um motor 4.3 de oito cilindros em linha, venceu a maioria dos GPs na temporada e seu piloto principal, Rudolf Caracciola, se sagrou campeão europeu – o equivalente ao que seria hoje o campeão da F1. Justamente no páreo caseiro, porém, tanto o W25 quanto o Auto Union B pereceram frente ao desatualizado P3 Tipo B da Alfa Romeo, pilotado por Tazio Nuvolari.

Mercedes-Benz W25: o carro dominante de 1935 (Divulgação)
Mercedes-Benz W25: o carro dominante de 1935 (Divulgação)

A corrida

A prova em Nurburgring foi realizada sob condições instáveis. A duas horas da largada, uma forte chuva caiu na região das colinas Eifel, o que acabou deixando o asfalto úmido e com pouca aderência para os carros.

Inicialmente, o grid seria definido por um teste de aceleração na linha de chegada. A ideia da organização era evitar que um carro mais lento segurasse os concorrentes mais rápidos no início do percurso. Mas a maioria dos pilotos se opôs ao procedimento e decidiu-se então que a fixação da grelha se daria por sorteio, como comumente ocorria nos anos 1930.

A bordo do W25, Caracciola assumiu a ponta na primeira volta, acompanhado de Nuvolari, em sua Alfa, e Luigi Fagioli, na outra Mercedes. No giro seguinte, o italiano forçou muito o ritmo do P3 e acabou derrapando na Bergwerk, uma rápida subida à direita, caindo para sexto lugar. Rosemeyer, da Auto Union, então tomou a vice-liderança, trazendo atrás as Mercedes de Manfred von Brauchitsch e Fagioli.

Nas voltas seguintes, Nuvolari recuperou terreno. Na quinta volta, o italiano se valeu do abandono do companheiro Louis Chiron para tomar o quinto lugar. Em seguida, otimizou o P3 nas seções onde o motor dos carros alemães perdia torque – curvas mais ventosas e descidas – para ganhar tempo. Foi assim que ele superou von Brauchitsch na luta pelo quarto, com uma bela manobra pelo lado externo da Karussell.

von Brauchitsch era o favorito a vencer em Nurburgring, mas ignorou o desgaste de pneus (Divulgação)
von Brauchitsch era o favorito a vencer em Nurburgring, mas ignorou o desgaste de pneus (Divulgação)

Pouco antes disso, Rosemeyer fora para os boxes com um problema na roda traseira direita e Fagioli perdera rendimento no W25. Desta forma, Nuvolari já era o vice-líder na nona passagem, virando quase 30s mais rápido que Caracciola. No fim da décima volta, a Alfa tomou a ponta.

Os três ponteiros – Nuvolari, Rosemeyer (recuperado do problema mecânico) e von Brauchitsch – pararam então nos boxes para trocar pneus e reabastecer. Brauchitsch saiu primeiro dos pits, depois Rosemeyer e então Caracciola, que havia caído para quarto, mas passara Nuvolari nos boxes. Na correria, os mecânicos do italiano haviam quebrado a alavanca da bomba de reabastecimento e derramado combustível dos bidões. Com isso, não apenas Nuvolari perdeu a liderança como mais de 1min em relação ao bolo da frente.

Problema no pitstop quase acabou a corrida de Nuvolari (Divulgação)
Problema no pitstop quase acabou a corrida de Nuvolari (Divulgação)

Mas o italiano não perdeu as forças. Conseguiu se manter no mesmo ritmo dos líderes, mesmo 1min atrás, e passou a perseguir os alemães como um lunático. Primeiro, se livrou de Caracciola novamente e depois se valeu de um novo problema mecânico com Rosemeyer, desta vez no acelerador do Auto Union.

Ciente da ameaça de Nuvolari, von Brauchitsch começou a apertar o ritmo. Mas enquanto tentava fugir da Alfa, não se atentou para o desgaste dos pneus nem para o maltratado asfalto do Ring. Alfred Neubauer, chefe executivo da Mercedes, gritava para Manfred diminuir a velocidade. Mas ele continuava a acelerar e acelerar.

Na última volta, todos os alemães já acenavam para a vitória de von Brauchitsch, a primeira dele no ano. Mas quem apareceu foi o pequenino Tazio, na P3 vermelha (veja no vídeo abaixo). O pneu traseiro direito do W25 havia explodido a poucos metros da linha de chegada e deixado Manfred na mão. Como relata a revista “Autosport” daquela semana: “Um silêncio mortal se instaurou.”

O legado da vitória

Muitos avaliam o triunfo de Nuvolari no Ring como uma das maiores da história do automobilismo. Primeiro, ele foi inteligente: apesar do erro na segunda volta, manteve-se no mesmo ritmo dos líderes, à espera de um problema mecânico com os carros alemães que eram altamente superiores.

Nuvolari: vitória “impossível” em Nurburgring (Divulgação)
Nuvolari: vitória “impossível” em Nurburgring (Divulgação)

Depois, manteve-se tenaz: não deixou de brigar pela vitória mesmo com um pitstop ruim que o jogou para o pelotão intermediário. E, por último, velocidade: quando o mano-a-mano foi necessário, não teve medo de encarar nomes como Fagioli, Stuck e Caracciola, ainda que não tivesse o melhor equipamento à disposição.

Também foi uma vitória simbólica. A cena dos generais do nazismo, atônitos, assistindo ao triunfo de Nuvolari não deixou de significar um pequeno golpe numa teoria que mais tarde seria denunciada como pseudociência e jogada ao Tártaro da história. Encaremos os fatos: nenhum daqueles oficiais imaginaria que o triunfo nórdico seria “maculado” pelo atarracado, mas veloz sujeito de camisa amarela. Para falar a verdade, os organizadores confiavam tanto numa vitória alemã que sequer o vinil com o hino nacional italiano estava disponível, caso ocorresse uma vitória da Alfa. Mas Tazio estava sempre com o disco da “Marcia Reale” na mala e foi assim que aquele dia, um dos mais impressionantes na história do automobilismo, terminou.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Frank Rock

    eles não são lendas e mitos de mentira, não
    assim como ocorre no futebol, quando alguém menciona esses nomes do passado em redes sociais, as pessoas não dão o devido valor
    parabéns pelos textos da época preta-e-branca

  • Dênis Adriano Machado

    Gosto muito de ler estes artigos que falam da história do automobilismo antes de 1950, são fascinantes!

    E meus parabéns ao Projeto Motor, ótimo trabalho!

    • Que bom que você gostou, Dênis! E obrigado pelas palavras. Na nossa seção “História” temos alguns outros artigos sobre essa época fantástica do automobilismo, então espero que você goste. Abraços!