O estranho caso do piloto da GP3 que não consegue sair do 2º lugar

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Atual campeão da reorganizada F3 Europeia, Esteban Ocon é uma das esperanças para recolocar a França em papel de protagonismo na F1. O jovem, de 19 anos recém-completados e nascido em Évreux, faz parte da Academia de Jovens Pilotos da Mercedes, um posto a ser considerado, e chegou a participar do primeiro treino livre para o GP de Abu Dhabi do ano passado, guiando pela Lotus. Não fez feio: com a marca de 1min47s066, encerrou a sessão em 16º, um posto e 0s355 atrás do companheiro Pastor Maldonado.

Resultado da segunda bateria em Sóchi veio suado, com direito a excepcional batalha contra Antonio Fuoco
Resultado da segunda bateria em Sóchi veio suado, com direito a excepcional batalha contra Antonio Fuoco

Para este ano, além de fazer testes com a Force India (cliente da montadora alemã), assinou com a estruturada ART para disputar a GP3, entrando na competição como um dos postulantes ao título. Iniciou a campanha confirmando tal condição na rodada de Barcelona, ao vencer e registrar a volta mais rápida na bateria de abertura. Depois, foi sétimo na bateria de encerramento e, na rodada seguinte, em Spielberg, anotou um terceiro e uma desclassificação  – o assoalho de seu monoposto estava abaixo da altura mínima regulamentada -, respectivamente.

Começou o fim de semana em Silverstone em dificuldades, sendo oitavo no grid de largada e sexto na chegada do páreo de abertura. Até aí, nada de anormal: uma oscilação perfeitamente natural para um estreante. A partir da corrida de encerramento no circuito inglês, contudo, Ocon entrou em uma espécie de “maldição”, atentada pelo site WTF1 e que intrigou o Projeto Motor: nas últimas nove baterias da categoria, não conseguiu terminar nenhuma em outra que não fosse a segunda colocação.

Comemorar vitória Ocon só pôde na primeira etapa do ano, em Barcelona
Comemorar vitória Ocon só pôde na primeira etapa do ano, em Barcelona

A marca fica ainda mais surpreendente se lembrarmos que a GP3 trabalha com sistema de grid invertido: os oito primeiros colocados da prova de sábado são listados de maneira reversa na grelha para o páreo de domingo. Isso significa que, nas últimas quatro sprint races, o francês partiu de sétimo na largada, ganhou cinco posições e completou como vice-campeão.

Podemos afirmar que Ocon não sabe o que é terminar fora da colocação intermediária da cerimônia de premiação há mais de três meses. O pior é que, durante todo esse tempo, houve vezes em que o representante da ART esteve muito, muito perto de vencer. Na bateria mais longa de Monza, por exemplo, ele foi ultrapassado na penúltima volta, por fora na Della Roggia, pelo combativo Emil Bernstorff. Confira no vídeo abaixo, a partir dos 06:00 (em inglês):

Duas semanas antes, em Spa-Francorchamps, a situação chegou ao extremo: Esteban cruzou a linha de chegada como vencedor da corrida inicial, mas excedeu o limite de velocidade estabelecido para o chamado “Safety Car virtual” e, punido com 5s no tempo final de prova, acabou remanejado para… segundo.

O calvário continuou no último fim de semana, em Sóchi. Ocon largou da posição de honra na bateria inaugural, mas foi superado pelo rival italiano Luca Ghiotto e completou no cada vez mais íntimo “degrau do meio” no pódio. Um dia depois, arrancou da também já habitual sétima colocação e, com direito a uma brilhante ultrapassagem sobre outro itálico, Antonio Fuoco, fechou novamente em segundo. Confira no vídeo abaixo:

Como diria Nelson Rodrigues, é o “óbvio ululante” concluir que Ocon ocupa… a vice-liderança na tabela de pontuação. Somando todos seus segundos lugares, mais tentos extras por poles e giros mais rápidos, o competidor apadrinhado pela Mercedes soma 194 pontos, contra 196 do líder Ghiotto. Não dá para negar que tamanha consistência tem deixado o francês vivo na luta pelo título. Para ser campeão, contudo, Ocon certamente terá de quebrar esse ciclo maluco nas quatro etapas que faltam e, só para variar, subir um patamar na hora de estourar o champanhe.

Assista à análise do GP da Rússia de 2015 na edição #11 do Debate Motor:

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.