O grande trunfo de Alain Prost: ser o rei na terra de seus arquirrivais

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Há certas nuances que tornam a história do automobilismo que mais se parecem sarcasmo divino. A história do GP do Brasil, por exemplo. Os três maiores vencedores em mais de 40 anos de evento são verdadeiros “vilões” do torcedor brasileiro: Carlos Reutemann (1977, 78 e 81, além do GP extra-oficial realizado em Brasília, em 74), um argentino; Michael Schumacher (1994, 95, 2000 e 2002), o homem que “roubou” os recordes que deveriam pertencer a Ayrton Senna. E Alain Prost, “inimigo” do tricampeão e também grande rival de Nelson Piquet.

O francês, por sinal, ocupa o topo da lista, com seis triunfos, sendo cinco em Jacarepaguá (1982, 84, 85, 87 e 88) e um em Interlagos (1990). Tal número se equivale à soma de todas as conquistas obtidas pelos campeões brasileiros em solo natal. Ao contrário dos brasileiros que quase nunca encontraram sucesso na França (até hoje foram meras duas vitórias de Piquet, 85, e Felipe Massa, 2008), aqui o baixinho francês era rei.

Neste artigo, o Projeto Motor recupera especial preparado para o extinto Tazio, em 2011, sobre todas as vezes em que Prost recebeu a quadriculada como vencedor em nossa terra. Confira:

A vitória sem liderança

Prost venceu no Brasil em  82, 84, 85, 87, 88 e 90
Prost venceu no Brasil em 82, 84, 85, 87, 88 e 90

A sorte sempre esteve ao lado de Prost no Brasil. Não por acaso, sua primeira vitória foi conquistada numa corrida a qual ele não liderou uma volta sequer: 1982. Ainda piloto da Renault, Prost largou da pole, caiu para terceiro e passou a corrida toda disputando no pelotão intermediário até cruzar em… terceiro.

Só que os dois primeiros colocados, Nelson Piquet e Keke Rosberg, acabaram desclassificados por uso de um sistema irregular de freios refrigerados a água, que deixavam o carro abaixo do peso mínimo regulamentar conforme o líquido contido em um tanque de refrigeração era eliminado. Prost foi declarado vencedor e despontou como favorito ao título, algo que uma série de erros próprios e a falta de confiabilidade do Renault RE30B minaram sua campanha.

O “tam tam tam” da Globo

Prost não apenas deitou e rolou na terra de Senna (que nunca conseguiu dar o troco, seja em Paul Ricard ou Magny-Cours): o tetracampeão teve o privilégio de ser o único cidadão não brasileiro a ser homenageado com o Tema da Vitória em uma transmissão da Globo. Tudo bem que essa história é meio manjada, mas vale a simulação de surpresa: “Tema da vitória para Prost? Como pode tamanha ignomínia?”.

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O incidente ocorreu após sua segunda vitória em Jacarepaguá, em 84. Explicação: a música começou a ser usada pela emissora em 1983, como forma de homenagear o vencedor do GP do Brasil, independentemente da nacionalidade. Calhou que quem levou a fatura naquele ano foi Nelson Piquet e, com isso, tudo ficou em casa. Na época seguinte, porém, quem brilhou foi Prost, em sua primeira corrida pela McLaren. Conforme previa o protocolo, o Tema da Vitória foi colocado para saudar a conquista. Se você foi pego de surpresa e ainda não acredita, assista ao vídeo:

O domínio até 88

Prost 1990 Brasil
Prost venceu no retorno da F1 a Interlagos, em 90

A vitória em 84 seria apenas a primeira de uma série de quatro triunfos em cinco anos, sequência quase hegemônica que teve apenas uma interrupção em 1986, com Piquet. Tanto sucesso lhe rendeu o status “rei de Jacarepaguá”. Em 85, ano do primeiro título, Prost não foi tão bem na classificação e largou em sexto, mas teve um ritmo de corrida impecável e assumiu a liderança na volta 18, para não mais se desfazer dela. Dois anos depois, voltou a contar com o fator sorte: as Williams de Mansell e Piquet eram francas favoritas, mas um problema de superaquecimento dos pneus arruinou a corrida de ambos deixaram Prost à vontade para abraçar a taça de primeiro colocado.

Tendo novamente o melhor carro em 88, a maior dificuldade do então bicampeão seria controlar o ímpeto de seu novo e velocíssimo companheiro de McLaren, Senna, que buscava o primeiro triunfo em casa. O paulistano partiria da pole, mas sofreu um problema de transmissão antes da largada e ficou empacado na volta de apresentação. Ele até teve tempo de pegar o carro reserva e arrancar dos boxes, mas foi desclassificado porque o prazo para solicitação do carro reserva já havia terminado. Sem outros adversários à altura, Prost controlou a prova com facilidade.

Interlagos também se curvou ao francês

Se era tão eficiente em Jacarepaguá, Alain Prost mostrou que poderia brilhar em Interlagos, que regressou ao calendário com uma edição mais curta de traçado em 1990. Naquela temporada, a sorte veio em forma de erro: o arquirrival Senna escolheu mal o momento de passar o retardatário Satoru Nakajima e, ao colocar o MP4-5B por dentro de forma afobada na entrada do Bico de Pato, bateu no japonês da Tyrrell e danificou a asa dianteira.O novo momento de desastre para ele representou mais uma tarde de deleite para Prost. O francês conquistaria sua primeira vitória pela Ferrari, a sexta e última no Brasil.

Os reveses

Nem só de momentos felizes viveu Alain Prost durante os GPs do Brasil. Houve algumas edições em que ele também sofreu com reveses. Uma delas foi a de 1989, quando o pequeno gênio tinha tudo para subir ao habitual lugar mais alto do pódio – especialmente porque Senna saiu do páreo logo de cara, ao se chocar com Gerhard Berger na primeira curva. Após passar as primeiras voltas em quarto, Prost superou rivais e assumiu a liderança durante a primeira rodada de troca de pneus.

Prost liderou no começo do GP do Brasil de 93, mas abandonou na chuva
Prost liderou no começo do GP do Brasil de 93, mas abandonou na chuva

Só que, depois disso, a embreagem da McLaren nº. 2 quebrou e o francês passou a lidar com dois problemas simultâneos: dificuldade em trocar de marcha e impossibilidade de parar novamente para trocar os arcos desgastados (se o carro ficasse inerte, morreria). Assim, tornou-se presa fácil para Nigel Mansell, que ficou com as láureas do primeiro lugar em sua estreia como ás da Ferrari. O resultado só não foi pior porque Maurício Gugelmin corria com o fraco motor Judd em seu Leyton House e não conseguiu ultrapassá-lo pelo segundo lugar, embora tenha pressionado por várias voltas.

O momento mais emblemático, porém, veio em 1993, curiosamente no GP do Brasil em que Prost era mais favorito do que nunca. Com o poderoso FW15C da Williams, ele largou da pole e liderava de ponta a ponta até começar a chover. Uma forte tempestade encharcou o asfalto e levou o time a chamá-lo para colocar pneus de chuva. Por um problema de sinal no rádio, Prost entendeu a mensagem de forma contrária e seguiu na pista.

Com compostos lisos em condições totalmente adversas, Prost não conseguiu segurar a “barata” no ponto de frenagem para o S do Senna, chocando-se com a atravessada Minardi rodada de Christian Fittipaldi. Ao côro de “eu, eu, eu, Prost se f…”, ecoado carinhosamente pela torcida, o já consagrado automobilista saiu atônito do carro, amargando a maior derrota em um país onde se acostumou a vivenciar grandes láureas.

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.