Le Mans 1955: maior desastre do automobilismo completa 60 anos

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Exatas seis décadas atrás, o automobilismo mudou. Duas horas após a largada para a 23ª edição das 24 Horas de Le Mans, um piloto e 83 espectadores morreram num acidente que ainda hoje é considerado o mais atroz da história do esporte. Outros 120, segundo informes da época, se feriram no impacto.

Na verdade, a obscuridade no caso de Le Mans-55 impede, mesmo na era moderna, de se definir o número exato de óbitos. A polícia francesa nunca divulgou os arquivos sobre o acidente. Um veterano chefe de equipe, por exemplo, chegou a estimar a quantidade de falecidos em 130. Já uma reportagem da revista “Life”, de junho de 1955, divulgou que 82 morreram, alguns decapitados por um capô de motor “como uma guilhotina”. Hoje, convencionou-se o número oficial em 84 pessoas mortas – incluindo o piloto francês Pierre Levegh.

É importante destacar que, à época, as 24 Horas de Le Mans em 1955 eram indubitavelmente a principal prova do automobilismo europeu. A F1 era uma categoria embrionária e a grandeza de Le Mans era imponente o bastante para, às vezes, sobrepujar o campeonato de monopostos – diferente do que acontece hoje em dia, onde existe uma rivalidade. Uma vídeo-reportagem inglesa da época rotula a corrida de resistência como “as Nações Unidas do esporte a motor.”

Para a 23ª edição, inscreveram-se as principais marcas do mundo automobilístico, assim como os volantes mais rápidos: Mike Hawthorn, futuro campeão de F1, na Jaguar; o ás argentino Juan Manuel Fangio, ao lado da promessa Stirling Moss, na Mercedes; Luigi Musso, na Maserati; Roy Salvadori e Peter Collins, na Aston Martin; Eugenio Castellotti, na Ferrari; e até o jovem projetista Colin Chapman, correndo com seu veículo independente Lotus.

Pierre Levegh (Divulgação)
Pierre Levegh (Divulgação)

O acidente ocorreu cerca de 120 minutos após a partida. No fim da 35ª volta, o líder Hawthorn, em seu Jaguar D-Type, entrou na reta dos boxes acompanhado por Levegh e Fangio, ambos numa Mercedes 300 SLR. O britânico acabara de superar o retardatário Lance Macklin quando, tardiamente, percebeu o sinal dos pits para reabastecer. Para a surpresa dos volantes atrás, o piloto da Jaguar freou bruscamente – o D-Type, com freio a disco, desacelerava mais rápido que a Mercedes, ainda utilizando travão de tambor. O súbito breque levou Macklin a frear tarde, jogando uma pequena nuvem de poeira na frente de Levegh. O Austin-Healey, então, deslocou-se para a esquerda, tentando descontar sua volta em relação a Hawthorn. Levegh levantou a mão – aparentemente um sinal para Fangio brecar –, mas já era tarde demais.

Pessoas correm do fogo em Le Mans (Jimmy Prickett/AP)
Pessoas correm do fogo em Le Mans (Jimmy Prickett/AP)

A 240 km/h, a traseira esquerda do Austin-Healey tocou o 300 SLR, que decolou em direção à barreira do circuito, aterrisando no topo de um barranco que dividia os espectadores da pista. O impacto no talude foi tão violento que, ainda no ar, o carro de Levegh se dividiu em três partes. A carenagem voou para um lado, o capô e o eixo dianteiro para outro, enquanto o motor explodiu. A videoreportagem abaixo, a partir de 35s, captou bem o momento do acidente. Embora a gravação seja muda, o pânico na arquibancada é perturbador. A colisão ocorreu na frente de uma multidão protegida por nada mais que alguns fardos de feno.

O cenário era como uma zona de guerra. O capô decapitou vários espectadores, o motor explodiu e suas partes atingiram outros. Levegh foi arremessado do carro e seu crânio, brutalmente esmagado. Morreu na hora, aos 49 anos.

Para piorar, o tanque de combustível na traseira do 300 SLR se rompeu e o fogo que se desprendeu do compartimento elevou a temperatura da carroceria, feita de liga de magnésio. Totalmente não familiarizado com a natureza do metal, um atendente tentou apagar os destroços com água, enviando enormes rajadas de chamas brancas em direção à plateia. O carro ardeu por horas e mais pessoas morreram.

Padres realizam extrema unção entre os mortos na pista (Divulgação)
Padres realizam extrema unção entre os mortos na pista (Divulgação)

A corrida continuou. A pedido do piloto inglês John Fitch, a Mercedes convocou uma reunião de emergência para definir se seguiria na prova. Ciente dos melindres envolvendo Alemanha e França, dez anos após o fim da 2ª Guerra, o conselho de Stuttgart se retirou do páreo como sinal de respeito às vítimas. Até então, os carros #19, de Fangio e Moss, e #21, de Karl Kling e André Simon, ponteavam o percurso.

A Jaguar venceu a prova com o D-Type #6 pilotado por Hawthorn e Ivor Bueb. Por muitos anos, a imprensa francesa culpou o ferrarista pelo acidente – a foto abaixo, aliás, serviu muito de tour de force para incriminar Hawthorn –, enquanto este, por sua vez, incriminou Macklin. Uma visão mais jurídica do processo pode ser vista aqui.

Comemoração de Hawthorn não pegou bem entre os franceses (AP)
Comemoração de Hawthorn não pegou bem entre os franceses (AP)

De qualquer forma, o legado do acidente foi aterrador. A Mercedes encerrou suas operações esportivas e França e Suíça proibiram o automobilismo. A França abriu mão do banimento após reforçar a segurança nas pistas locais, mas ainda hoje o esporte a motor é proibido em solo suíço. Várias provas foram suspensas, entre elas o GP da Alemanha e os 1000 km de Nurburgring, e outras foram definitivamente encerradas, como a famosa Carrera Panamericana. Na América do Norte, a American Automobile Association se retirou do esporte e a United States Automobile Club (Usac), o embrião da moderna Indy, passou a sancionar as corridas. Surgiram maiores cuidados em relação à proteção corporal do piloto e também à divisão territorial entre público e pista.

Le Mans ainda é uma das pistas mais perigosas do mundo, mas ainda carrega as almas daquelas 84 pessoas mortas em 11 de junho de 1955. Naquele dia, o automobilismo quase morreu.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Everton Ferreira

    Sinceramente, vendo o vídeo de câmera lenta, realmente faz pensar que deve te sido realmente mais de 84 vítimas.

  • Eli Carlos Miranda dos Santos

    Caramba… Ver aquele capô escorregando em cima da plateia da até náuseas…