O penoso retorno de Schumacher à F1 – Parte 1: a chama é reacesa

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Há dez anos, acontecia um dos retornos mais intrigantes que a F1 já viu. Michael Schumacher, maior recordista da história da categoria, abandonava a aposentadoria aos 41 anos, sendo três deles de inatividade, para colocar seu prestigio à prova contra uma nova geração de rivais. E isso aconteceria a bordo da equipe sucessora da campeã de pilotos e construtores do ano anterior, cujas operações passariam a ser a assumidas por uma marca vitoriosa.

Como todos já sabem, a volta de Schumacher às pistas não chegou perto de cumprir com as expectativas que o próprio alemão havia traçado para si próprio. Os três anos com a Mercedes foram marcados por performances difíceis, erros e poucos momentos promissores, sendo que sequer a hegemonia interna sobre um jovem companheiro de equipe pôde ser estabelecida. 

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De qualquer forma, tratou-se de um capítulo marcante na história da F1, que mostrou que nem sempre o entusiasmo é acompanhado de sucesso – nem mesmo com o piloto mais condecorado da história. 

Nesta série, o Projeto Motor contará em detalhes a jornada de Schumacher rumo ao seu inesperado retorno à Fórmula 1 – a chama voltando a ficar acesa, as negociações com o projeto da Mercedes, as dificuldades dentro da pista e a aposentadoria definitiva.

Na primeira parte, relembraremos como que o heptacampeão lidou com a primeira aposentadoria e passou a ficar, pouco a pouco, atraído pela possibilidade de dar mais um capítulo à sua carreira. 

Parte 1 – a chama de Schumacher volta a ficar acesa

Depois de se aposentar em 2006, Schumacher foi consultor da Ferrari entre 2007 e 2009 (Foto: Ferrari)

No dia 22 de outubro de 2006, um capítulo parecia chegar ao fim na F1. Aos 37 anos de idade, Michael Schumacher completava o GP do Brasil na quarta posição e dava adeus à categoria, despedindo-se da Ferrari com o vice-campeonato de pilotos e uma grande história para contar.

Àquela altura, o discurso de aposentadoria tinha tom de ser algo definitivo. Afinal, Schumacher insistia que sua bateria já não estava mais tão carregada após seus pouco mais de 15 anos no grid. Desde sua estreia, no segundo semestre de 1991, o alemão havia participado de 250 GPs, incluindo momentos de grande estresse nas disputas de 1994, 1997, 2000, 2003 e até mesmo 2006. Neste período, Schumi apenas perdeu corridas em duas circunstâncias: na suspensão de duas provas que recebeu em 94 e na fratura na perna que sofreu em Silverstone, 99, que o afastou de seis largadas naquele ano. Tirando isso, era só “pauleira”. 

Compreensivelmente, Schumacher quis distância dos holofotes no estágio inicial de sua aposentadoria, passando a dedicar seu tempo a ficar próximo de sua esposa, Corinna, e de seus dois filhos, Gina-Maria e Mick. No entanto, a Ferrari também passava por um período de grande reestruturação interna – além da saída de Schumacher, o time também viu Ross Brawn deixar o posto de diretor técnico ao fim de 2006, sendo substituído por Mario Almondo, e Jean Todt teria apenas mais uma temporada como chefe antes de deixar o cargo ao fim de 2007. 

Ferrari quis Schumacher acompanhando as coisas de perto em 2007 (Foto: Ferrari)

Em um cenário de grandes mudanças, a Ferrari queria assegurar que as transições fossem feitas da forma mais suave possível para que a nova dupla, formada pelos jovens Kimi Raikkonen e Felipe Massa (este no time desde 2006), não sentissem dificuldades. Assim, o então presidente da Ferrari, Luca di Montezemolo, persuadiu Schumacher a aceitar ser uma espécie de consultor técnico em 2007, acompanhando de perto o desenvolvimento da equipe para a nova temporada e fazendo uso de sua longa experiência para dar suas sugestões para o novo carro.  

Para que o plano casasse com a nova rotina de Schumacher, a Ferrari enviava ao computador pessoal do alemão, em tempo real, os dados de telemetria dos testes da pré-temporada de 2007. Schumi também teria à sua disposição um escritório fixo na sede de Maranello, mas compareceria apenas quando quisesse, pelo tempo que quisesse. A reverência dada pela Scuderia a Schumacher em seus bastidores gerava até rumores se o agora ex-piloto não estava sendo preparado para assumir o posto de Todt assim que o francês saísse. Porém, ser chefe de uma equipe como a Ferrari era um pepino grande demais para as intenções imediatas do alemão. Em vez de lidar com as dores de cabeça do dia a dia, Schumacher preferia passar mais tempo em casa, descansando, e eventualmente matando sua sede por velocidade com atividades de kart pela Europa. 

Em seu novo cargo, Schumacher também compareceu a algumas corridas da F1 em 2007 para dar os seus “pitacos” – em Nurburgring, foi homenageado com o nome de uma curva e subiu ao pódio para dar a Ron Dennis, da McLaren, o troféu de vencedor da prova entre os construtores.

Mas a Ferrari queria mais. Para a temporada de 2008, a F1 ajustaria seu regulamento e voltaria a proibir o controle de tração. Os titulares de Maranello tinham pouca experiência com o carro nestes moldes – Raikkonen guiou sem controle de tração por apenas algumas provas da temporada de 2001, e Massa estreou na categoria quando o recurso já estava totalmente liberado. Assim, a Ferrari queria que Schumacher, que competiu por muito tempo sem o controle de tração, se envolvesse de forma mais próxima para apontar um caminho mais claro de desenvolvimento. 

Schumacher retornou em um teste oficial em novembro de 2007 (Foto: Ferrari)

Entre os dias 13 e 14 de novembro de 2007, três semanas após o término da temporada, Schumacher foi escalado pela Ferrari para participar de testes coletivos no circuito de Barcelona, na Espanha. O alemão estrearia a bordo do modelo F2007 e voltaria a um carro de F1 de forma oficial pela primeira vez desde o GP do Brasil de 2006.

Nos dois dias de atividades, Schumacher completou 153 voltas e liderou a tabela de tempos em ambas as jornadas.O plano funcionou bem tanto para a Ferrari quanto para o alemão, de modo que os laços voltaram a ficar mais estreitos no desenvolvimento para a temporada de 2008. 

Um Schumacher mais ativo

Se a participação de Schumacher em testes era incerta quando ele se tornou consultor da Ferrari, a situação mudou nos preparativos para 2008. Depois dos treinos de Barcelona, o alemão voltou a ser convocado para novas atividades em Jerez de la Frontera, no começo de dezembro de 2007, quando voltaria a focar em coletar dados do carro sem o controle de tração e experimentaria os novos pneus slick – que retornariam à F1 em 2009.

Schumacher novamente atuou por dois dias, somou 125 voltas e registrou melhores tempos que os titulares Raikkonen e Massa e que o piloto de testes, Marc Gené. Claro, a tabela de tempos tem importância secundária durante testes, mas isso mostrava que o alemão ainda levava jeito para a coisa.

Schumacher ganhou o Desafio das Estrelas de 2007 (Foto: WikiCommons)

Na virada de 2007 para 2008, Schumacher participou de algumas competições do esporte a motor – algumas com tom mais festivo, outras nem tanto. Primeiro, venceu o Desafio Internacional das Estrelas, antigo evento de kart organizado por Massa em Florianópolis. Depois, no estádio de Wembley, na Inglaterra, foi vice-campeão individual do Race of Champions, sendo derrotado por Mattias Ekstrom, do DTM, na decisão. Porém, ao lado de Sebastian Vettel, conquistou o título na Copa das Nações para a Alemanha.

Schumacher também testou a Ducati GP7, moto com a qual Casey Stoner conquistou o título da MotoGP em 2007. No traçado de Valência, o alemão registrou um tempo apenas 5s mais lento do que virou Dani Pedrosa, da Honda, na etapa final do campeonato daquele ano, poucos dias antes.

Isso atiçou Schumacher a desbravar de forma mais intensa o mundo das motos. Em março de 2008, o alemão participou de uma corrida que misturou profissionais e amadores em Pannonia-Ring, na Hungria. Para equilibrar as coisas, os profissionais não tiveram tempos registrados na tomada de classificação, de modo que o terreno ficou aberto para que Schumacher cravasse a pole entre os demais amadores. Só que, na corrida, Schumi decidiu se juntar aos profissionais no fundo do grid e foi escalando o pelotão durante a prova – ele terminou em terceiro entre 27 concorrentes.  

Uma semana mais tarde, voltou a competir de moto em uma categoria monomarca da KTM em Misano, na Itália, onde foi quarto colocado. 

Isso só deixou Schumacher com ainda mais vontade. Ele se inscreveu na etapa de Oschersleben do campeonato alemão de Superbikes, sob o pseudônimo de “Marcel Niederhausen” na tentativa de chamar menos atenção. Só que ali o nível era mais alto: foi 28º na primeira bateria e abandonou ao cair na segunda. 

Schumacher ajudou no desenvolvimento da F2008 antes do começo da temporada (Foto: Ferrari)

Schumacher conciliava suas aventuras nas duas rodas com participações esporádicas em testes com a Ferrari – experimentou a F2008 em fevereiro, em Barcelona, antes da temporada de 2008 começar, além de ter guiado novamente em abril, em Jerez de la Frontera, desta vez para voltar a experimentar os pneus slick.

Apesar de uma rotina agitada dentro das pistas, o heptacampeão garantia que aquilo não tinha relação alguma com sua “irrevogável” aposentadoria da F1. Seu plano imediato era seguir com sua vida mais relaxada, fazendo o que quisesse, quando quisesse, além de eventualmente dar uma mão à Ferrari durante testes. Além disso, ele teve outras atribuições incomuns – foi ele, por exemplo, um dos responsáveis por decidir o que seria feito com o dinheiro da multa paga pela McLaren à FIA no escândalo de espionagem que agitou a F1 em 2007.

Só que era possível perceber uma certa inquietação de sua parte. Nas poucas entrevistas que dava, dizia que “ainda precisava definir seu futuro”, mas que todas as possibilidades sobre as quais era questionado “não lhe pareciam interessantes”. Em certas ocasiões, definiu-se como uma figura “incansável”, que sempre buscava novos desafios. Ele até citou que um de seus objetivos àquela altura era obter sua licença de paraquedista. Ou seja, por um lado, Schumacher queria ser um homem aposentado em descanso; por outro, ainda havia uma busca por adrenalina que teimava em não ir embora.

Pinta a chance real de voltar – e pela Ferrari

Ao fim de 2008, Schumacher repetiu as participações nas corridas que havia feito na conclusão do ano anterior. No Race of Champions, foi eliminado por Carl Edwards, da Nascar, na competição individual, mas voltou a conquistar a Copa das Nações ao lado de Sebastian Vettel. Já no Desafio das Estrelas de kart, não repetiu o sucesso do ano anterior e viu a vitória ficar com Rubens Barrichello em Florianópolis.

A busca pela adrenalina, porém, deu o primeiro grande susto a Schumacher em fevereiro de 2009. Durante testes para o Alemão de Superbikes em Cartagena, na Espanha, o heptacampeão perdeu o controle durante a freada para a veloz Curva 1 e sofreu uma forte queda. Ele precisou ser transportado ao hospital, onde realizou exames de precaução. Àquela altura, Schumacher garantiu que estava bem e que não lhe foi detectada nenhuma lesão, mas meses mais tarde descobriríamos que não foi bem assim.

Schumacher sofreu um forte acidente de moto em 2009 (Foto: Reprodução)

Enquanto isso, sua relação com a Ferrari deu uma esfriada. Não que as duas partes tenham entrado em desacordo – pelo contrário, o alemão continuava como embaixador da marca e consultor técnico. O que aconteceu foi que a F1 restringiu fortemente os testes em pista a partir da temporada de 2009, o que impediu que Schumacher tivesse novas experiências ao volante.

Desta forma, começaram a surgir de forma natural os primeiros ruídos. No GP da Malásia, prova à qual Schumacher compareceu, o alemão foi apontado como culpado pela imprensa italiana por ter sugerido uma estratégia de troca de pneus que arruinou a corrida de Kimi Raikkonen. A Ferrari negou que o heptacampeão tivesse tal influência, mas já começava a se questionar se Schumacher teria grande utilidade sem poder testar o carro e estando inativo há mais de dois anos.

Mas, em julho de 2009, veio a grande reviravolta na história. Felipe Massa sofreu seu famoso acidente na sessão classificatória para o GP da Hungria, sendo que as fraturas no crânio deixariam o brasileiro afastado até o término da temporada. Como sua ausência seria longa, a Ferrari precisaria de um substituto confiável, experiente, e não apenas um “tapa buraco”. É claro que o nome de Schumacher foi o primeiro a ser cogitado.

A questão era se Schumacher toparia deixar a aposentadoria para se testar contra uma nova geração, sobretudo em um carro que ainda estava longe de ser competitivo. O então empresário do alemão, Wili Weber, chegou a dizer que tinha “200% de certeza que Schumacher não retornaria à F1 pela Ferrari”.

Para a surpresa geral, o alemão imediatamente aceitou o desafio, disse que estava “pronto” para voltar e que faria a preparação necessária para facilitar sua readaptação à F1. Portanto, estava para acontecer: Schumacher retornando ao grid, pela Ferrari, dois anos e meio após a emocionante despedida de Interlagos. Seria uma história que o mundo do automobilismo certamente pararia para ver. 

Porém, havia um série de desafios que Schumacher teria pela frente. Primeiro, ele não era familiarizado ao circuito de rua de Valência, que seria a primeira corrida de seu retorno. Segundo, devido às limitações do regulamento, ele nunca havia testado o modelo F60, que era totalmente contrastante em relação ao que estava acostumado – o regulamento de 2009 tinha aerodinâmica diferente, asas dianteiras móveis e pneus slick. Aliás, Schumacher não guiava um F1 oficialmente havia mais de um ano, desde abril de 2008.

Schumacher testou F2007 com pneus de GP2 em Mugello (Foto: Ferrari)

Com as limitações, restou a Schumacher se apegar às alternativas viáveis. O alemão usou seu prestígio para entrar em contato com os membros do F1 Clienti, grupo de ricaços que possuem carros antigos de F1 da Ferrari, para sondar quem poderia emprestar-lhe um modelo para realizar testes de preparação. Afinal, o regulamento não impunha restrições a testes realizados com carros de dois anos ou mais. Assim, para se desenferrujar, Schumi descolou um modelo F2007 e o levou à pista em Mugello, na Itália, com pneus slick da GP2. 

“Depois de algumas voltas, pude marcar tempos de forma constante e estou feliz com a performance. Agora, vamos ver como meu corpo e músculos respondem nos próximos dias”

Schumacher, logo após a sessão em Mugello

A Ferrari tentou ir além. A equipe italiana planejou aproveitar o longo intervalo entre os GPs da Hungria e de Valência para tentar uma liberação especial para Schumacher realizar um teste com o carro de 2009. Para que a ideia recebesse luz verde, todas as outras equipes deveriam aprovar de forma unânime, o que não aconteceu: Red Bull, Williams e Toro Rosso rejeitaram com o argumento de que, em Hungaroring, o jovem Jaime Alguersuari estrearia na F1 sem nunca ter guiado um carro da categoria antes, e tal exceção não lhe foi dada. Por que, então, fariam diferente com um heptacampeão tão experiente?

Então, Schumacher se preparou da forma que podia. Ele continuou na preparação física, inclusive perdendo de três a quatro quilos, para estar o mais leve possível – o que era fundamental para carros com KERS, como era o caso da Ferrari. Também havia o plano de fazer mais um teste em pista, novamente com a F2007 “emprestada”, desta vez especificamente para verificar a se o seu pescoço aguentaria o tranco.

Mas o novo teste nunca aconteceu. Em meados de agosto, o alemão informou a Ferrari de que não poderia retornar à ativa, já que de fato o seu pescoço não estaria apto o suficiente para suportar as forças físicas dentro do carro. Participar de um GP de forma competitiva, então, era improvável. Ainda havia sequelas daquela queda de moto na Espanha, sendo que as lesões eram mais graves do que o próprio alemão havia dito à altura do acidente. 

“Infelizmente, não consegui me familiarizar com a dor que tive no pescoço durante o teste em Mugello, mesmo que tenhamos tentado de tudo do ponto de vista médico e terapêutico. As consequências daquela queda de moto, com fraturas na área da cabeça e pescoço, infelizmente se mostraram muito severas.”

Schumacher, após desistir do retorno

Restou à Ferrari, então, confirmar o reserva de longa data Luca Badoer para a vaga. O que era para ser um retorno de um heptacampeão, que despertaria a curiosidade dos fãs mundo afora, se mostrou uma verdadeira ducha de água fria, com duas performances bastante apagadas, para dizer o mínimo, para o pobre italiano.

Mas a história ainda estava longe de acabar. Schumacher não escondeu sua frustração com o desdobramento do episódio. Afinal, ele vinha se preparando intensamente para o desafio, e ter o plano interrompido por um motivo que está além de seu controle o deixou arrasado. 

Para Schumacher, a jornada não podia acabar assim. A chama pela competição já estava reacesa, e não havia outra forma de apagá-la. O retorno ao grid da F1 era algo que ele já havia colocado em sua mente. Dentro da Ferrari, no entanto, isso não iria acontecer, já que a equipe italiana estava comprometida com a chegada de Fernando Alonso. Faltava, então, encontrar um outro projeto adequado às suas ambições. A resposta para isso estava em uma marca velha conhecida, capitaneada por um antigo aliado: Ross Brawn e a Mercedes. Falamos disso na próxima parte do nosso especial. 

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O retorno de Schumacher – Parte 2: encontrando a nova casa


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de edições das 24 Horas de Le Mans e provas de categorias como Indy e WTCC.