O penoso retorno de Schumacher à F1 – Parte 3: o duro balde de água fria

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Michael Schumacher seguiu todo o protocolo antes de retornar à F1, na temporada de 2010. Negociou com figuras importantes e fechou com a Mercedes, uma equipe que era nada menos que a continuação da operação que havia conquistado o título do ano anterior. Preparou-se fisicamente de forma ferrenha, como já lhe era de costume. Realizou todos os testes de pré-temporada com seu novo carro e não enfrentou maiores contratempos. 

O cenário já estava todo traçado, e enfim chegava a hora de competir. Porém, quando as corridas chegaram, também veio o duro choque de realidade: se a ambição falava em fazer história e conquistar o oitavo título mundial, Schumacher foi obrigado a rever este discurso em um piscar de olhos. O carro da Mercedes estava longe de ter a competitividade que se esperava, sendo que ele próprio ainda deixava a desejar diante de seu novo parceiro de equipe, o jovem Nico Rosberg. 

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Na terceira parte de nosso especial sobre o penoso retorno de Michael Schumacher à Fórmula 1, relembraremos como que a temporada de 2010 freou, de maneira brutal, as expectativas em torno do heptacampeão. 

Caso você não tenha lido o especial desde o início, acompanhe as duas primeiras partes para ficar por dentro da história completa:

PARTE 1: a chama das competições é reacesa
PARTE 2: encontrando o novo lar na Mercedes

O retorno de Michael Schumacher à F1 – parte 3

(Foto: Bridgestone)

Antes do pontapé inicial da temporada de 2010 da F1, ainda havia um certo mistério no ar. Equipes e pilotos hesitavam em apontar a relação de forças no grid, já que a curta pré-temporada não foi representativa o suficiente para traçar um cenário mais concreto. 

Red Bull, Ferrari e McLaren foram as que deixaram melhor impressão nos testes, mas a Mercedes estava convencida de que poderia se juntar à briga assim que os GPs começassem. O modelo MGP W01 passaria por grandes atualizações antes da prova de abertura do campeonato, com destaque para a chegada de um novo difusor, e quem sabe isso seria suficiente para jogar as Flechas de Prata na disputa entre as ponteiras. 

No duelo dentro da garagem, a Mercedes pregava um discurso de incerteza. O chefe do time, Ross Brawn, via Michael Schumacher e Nico Rosberg em pé de igualdade, embora a comparação tenha sido dificultada pelo fato de que, nos testes, os pilotos não podiam guiar exatamente nas mesmas condições – as regras permitiam apenas um carro por vez na pista. Ou seja, cada piloto guiava em uma condição diferente, o que dificultava o cruzamento de informações. 

A primeira etapa do campeonato de 2010 seria no Bahrein, e a F1 preparava uma ocasião especial para a comemoração de seu aniversário de 60 anos. Além da presença de quase todos os campeões mundiais vivos (apenas Nelson Piquet e Kimi Raikkonen não compareceram), a celebração incluía um traçado de Sakhir em versão especial, 800 metros mais longa que a convencional. 

O choque de realidade foi imediato para Schumacher. O MGP W01 ainda era básico demais para fazer frente a Red Bull, Ferrari e até McLaren – esta última se destacava pela criação do duto frontal, uma solução técnica que ainda daria o que falar na temporada. Schumacher se classificou em sétimo no grid (curiosamente, a mesma posição que teve para sua primeira corrida na categoria, em 1991), duas posições e 0s2 atrás de Rosberg, e a um distante 1s4 do pole, Sebastian Vettel. 

O heptacampeão ultrapassou Mark Webber na largada, mas não conseguiu avançar muito mais depois disso. Ele cruzou a linha e chegada em sexto, 4s atrás de Rosberg, mas, em compensação, logo à frente de Jenson Button, campeão do ano anterior. Não foi o pior dos cenários, mas também ainda estava longe do ideal. 

O primeiro discurso falava em colocar os pés no chão. Schumacher admitiu que ainda precisava lapidar arestas para se adaptar 100% à nova F1, sobretudo em ritmo de classificação e no trabalho em acerto para deixar o carro ao seu gosto. O modelo da Mercedes tinha uma grande tendência em sair de frente, tanto por características próprias quanto pelo perfil dos novos pneus da Bridgestone, que eram mais estreitos na dianteira. Isso era bastante ruim levando em consideração o estilo de pilotagem de Schumacher. Portanto, a reação inicial foi de manter uma tranquilidade, mesmo com o revés diante do companheiro de equipe.

A situação não mudou muito duas semanas mais tarde, na Austrália. Schumacher voltou a ficar em sétimo no grid, de novo atrás de Rosberg, e desta vez se queixou do tráfego – tanto que foi dar um puxão de orelha em Fernando Alonso por ter lhe atrapalhado ao fim do Q3. Sem isso, argumentava, poderia ter até lutado por um lugar na segunda fila. 

A corrida foi disputada em pista molhada e Schumacher avançou de forma agressiva: na largada, passou Rosberg e já atacava Button e Alonso de olho na quarta posição. Só que, ainda na primeira curva de corrida, Button tocou no espanhol, que, ao rodar, também atingiu Schumacher. O alemão danificou seu bico e escapou da pista, o que o obrigou a realizar um pitstop prematuro e cair para o fundo do grid. Dali para frente foi questão de limitar os danos: brigou no pelotão intermediário, fez uma ultrapassagem na marra sobre Jaime Alguersuari e cruzou a linha de chegada em décimo, salvando um ponto. 

Desta vez, a Mercedes viu o copo meio cheio. Brawn enalteceu o desempenho de Schumacher e garantiu que, sem o toque na largada, o heptacampeão poderia ter lutado por um pódio ou até mesmo pela vitória em Melbourne. 

Classificação na chuva foi um dos pontos fracos de Schumacher na Malásia (Foto: Daimler)

Na terceira etapa do campeonato, na Malásia, Schumacher não soube tirar proveito das oportunidades que a classificação no molhado trouxe. Nomes como Felipe Massa, Lewis Hamilton, Fernando Alonso e Jenson Button foram eliminados prematuramente, mas Schumi fez uma volta para lá de conservadora no Q3 e foi apenas o oitavo, derrotado por ambas as Williams e por Adrian Sutil, da Force India. Enquanto isso, Rosberg foi mais de 1s mais veloz para fechar a primeira fila ao lado de Mark Webber.

Schumacher escalou para o sexto lugar na largada, mas abandonou na oitava volta, quando a porca de sua roda traseira esquerda se soltou sem motivo aparente. Para deixar a situação mais incômoda para o heptacampeão, Rosberg fez corrida sólida e foi ao pódio, em terceiro lugar. Era a primeira vez que Schumacher era superado por um companheiro de equipe em classificação e em corrida por três GPs consecutivos na F1.

A situação voltou a ficar difícil na China. Batido mais uma vez por Rosberg no grid (e por uma grande margem de 0s7), Schumacher largou de nono e avançou ao superar Robert Kubica no apagar das luzes. Entretanto, ele tomou uma decisão errada ao apostar que a chuva cairia forte ainda nas voltas iniciais, de modo que foi aos boxes para colocar pneus de pista molhada durante um safety car. Ao perceber que não foi a melhor escolha, Schumacher precisou parar novamente para retornar aos pneus de seco, o que arruinou qualquer possibilidade mais ambiciosa. Rosberg, enquanto isso, tomou a decisão correta ao permanecer com os slicks o tempo inteiro, o que o fez até ganhar protagonismo a ponto de liderar a fase inicial da prova. 

De qualquer forma, Schumacher não mostrou poder de reação algum. Foi presa fácil para as investidas de Hamilton e Vettel e terminou a prova somente com mais um décimo lugar na conta, enquanto que Rosberg foi ao pódio pela segunda corrida consecutiva, em terceiro. 

(Foto: Bridgestone)

Estava longe de ser o retorno ideal de Schumacher, e a culpa não era só do carro da Mercedes. Nos quatro primeiros GPs do ano, ele não conseguiu ficar à frente do parceiro de equipe em nenhuma classificação ou corrida. Rosberg marcou cinco vezes mais pontos (50 a 10) e era o vice-líder da tabela, com dois pódios, enquanto que Schumacher era apenas o décimo, empatado com Adrian Sutil – sendo que o compatriota da Force India levava vantagem no desempate.

Mas nada de pânico, pelo menos no discurso. Schumacher, o mesmo que dizia em dezembro de 2009 que o título seria uma meta realista já para 2010, garantiu que já esperava por dificuldades na readaptação à F1. O importante, segundo ele, era progredir de forma contínua e garantir que a competitividade retornasse pouco a pouco. Não foi bem isso o que aconteceu.

A ida à Europa e o início de uma nova fase

A F1 abriria a “fase europeia” da temporada de 2010 na quinta etapa do ano, na Espanha. A ocasião representaria uma oportunidade para que os times introduzissem em seus carros um primeiro conjunto de atualizações mais robusto, e a Mercedes seria uma das equipes mais agressivas neste sentido. 

O MGP W01 teria mudanças dramáticas em Barcelona. A distância entre eixos seria prolongada para tentar melhorar a distribuição de peso e corrigir problemas de equilíbrio. A aerodinâmica seria revista em detalhes, o que incluía uma nova entrada de ar superior com um design inovador. No entanto, o duto frontal ainda não estava totalmente pronto, já que se tratava de um sistema complexo – em vez disso, a Mercedes usava uma solução improvisada, que simulava os mesmos efeitos do mecanismo.

Além disso, Schumacher trocaria de chassi. A equipe detectou um dano no modelo utilizado pelo heptacampeão nas quatro primeiras corridas do ano e decidiu dar ao seu piloto novamente o chassi da pré-temporada.

Schumacher se recuperou com uma boa atuação na Espanha (Foto: Bridgestone)

Isso trouxe resultados na Espanha. Schumacher se sentiu mais confortável com o carro, andou mais rápido que Rosberg durante todo o fim de semana e saiu do zero nos placares de classificação e corrida. Schumi largou em sexto lugar e terminou em quarto, ganhando posições de Hamilton (que abandonou) e de Button após um pitstop, com uma arrojada manobra por fora na Curva 1. A má notícia é que a distância para os ponteiros parecia ter aumentado ainda mais, sobretudo em comparação com a Red Bull, que dominou em Barcelona. 

Schumacher voltou a largar atrás de Rosberg em Mônaco, em sétimo, mas superou o parceiro logo na largada – só que a dupla da Mercedes também foi superada por Rubens Barrichello, o que manteve o heptacampeão na sétima colocação. No desenvolvimento estratégico, voltou a passar o ex-companheiro de equipe brasileiro, mas também perdeu posição para Fernando Alonso, que havia largado do fundo do grid. O sétimo lugar parecia ser a sua sina em Monte Carlo. 

A quatro voltas para o fim, Jarno Trulli, da pequenina Lotus, fez uma atabalhoada manobra sobre Karun Chandhok, da Hispania, na curva Rascasse. O italiano foi parar em cima do carro do colega e provocou a entrada do safety car, o que dava a entender que as posições seriam mantidas nos giros finais, com todos os pilotos alinhados atrás do carro de segurança. Mas aí aconteceu um dos lances mais famosos para Schumacher em 2010.

Na última volta, quando os carros estavam prestes a cruzar a linha de chegada, a Mercedes informou ao alemão que a corrida estaria valendo novamente depois da primeira linha do safety car, nas duas últimas curvas, da Anthony Noghes em diante. Schumacher aproveitou para ultrapassar Alonso e completar a corrida em sexto. Mas, na verdade, isso descumpria o regulamento, e Schumacher sofreu uma punição dura: 20s adicionados em seu tempo de prova, o que, com o pelotão compacto com o safety car, o fez cair de sexto para 12º, fora da zona de pontuação.

Temporada de Schumacher saiu de vez dos trilhos em meados da fase europeia (Foto: Daimler)

As coisas voltaram a melhorar na sétima corrida do ano, na Turquia. A Mercedes atualizou sua solução de duto frontal, e Schumacher, apesar de uma rodada no final do Q3, se classificou novamente à frente de Rosberg, em quinto, naquela que seria a sua melhor posição de grid em toda a temporada. O heptacampeão tentou lutar com Button por uma posição, mas só conseguiu avançar ao quarto lugar após o abandono de Vettel em seu famoso acidente com Webber.  Schumacher controlou a vantagem para Rosberg e igualou seu melhor resultado no ano. 

No geral, parecia que a maré estava virando. Schumacher progredia pouco a pouco e vinha endurecendo o jogo contra Rosberg com as atualizações do carro, e dois quartos lugares em um intervalo de três corridas coroavam a recuperação. Era exatamente o tipo de progresso que a Mercedes e o próprio alemão projetavam. 

Mas havia uma tendência que poderia resumir o que foi o retorno de Schumacher em 2010. Em momento algum o alemão conseguia emplacar uma fase minimamente boa de forma duradoura, já que qualquer sinal mais animador era freado por dolorosos baldes de água fria. Isso foi visto na etapa seguinte, no Canadá: errou na classificação, tomou 0s4 de Rosberg no Q2 e ficou apenas com o 13º lugar no grid, sua pior posição de largada na temporada até então. 

Na corrida, o pelotão inteiro sofreu com o alto desgaste dos pneus, e o fato de Schumacher estar batendo cabeça com o equilíbrio de seu carro não ajudou em nada neste sentido. O heptacampeão não fez a borracha funcionar, se envolveu em toques com Robert Kubica e Felipe Massa e foi presa fácil para alguns concorrentes, o que o fez cruzar a linha de chegada somente em 11º lugar, enquanto que Rosberg foi sexto.

O saldo permaneceu negativo em Valência. Mesmo que a Mercedes estreasse uma versão inicial do difusor soprado (recurso que redirecionava o ar da saída do escapamento para o difusor, o que aumentava significativamente a pressão aerodinâmica), Schumacher voltou a ser eliminado no Q2, desta vez com o consolo de que Rosberg também caiu na mesma fase – embora três posições à frente. A situação persistiu sob dificuldade durante a corrida, com erros estratégicos da Mercedes e um discreto 15º lugar na bandeirada – que era, àquela altura, seu pior resultado em uma corrida na F1.

Contraste para Rosberg marcou atuação apagada de Schumacher em Silverstone (Foto: Daimler)

Em Silverstone, o calvário chegou ao ponto de Schumacher ter um impressionante déficit de 0s8 para Rosberg na classificação, posicionando-se também atrás de nomes como Rubens Barrichello e Pedro de la Rosa, da Sauber. Partindo de décimo, o alemão teve corrida tumultuada, chegou a se esbarrar com Adrian Sutil e subiu somente ao nono lugar, salvando mais dois pontos. A questão é que, mais uma vez, Rosberg foi bem mais competitivo e fechou a rodada britânica no pódio, em terceiro. 

O multicampeão em xeque 

A queda brusca de Schumacher durante a fase europeia da temporada naturalmente fez surgir questionamentos sobre um possível arrependimento do alemão por seu retorno. Afinal, se o objetivo inicial de tudo isso era o oitavo título mundial, agora a luta de Schumacher era para fugir do pelotão intermediário e ser uma presença constante na parte superior da zona de pontuação. Lutar com Rosberg, que domava de forma mais eficiente o MGP W01 com as atualizações e era oportunista para capitalizar bons resultados, parecia uma meta distante. 

Até havia dúvidas se o heptacampeão se manteria em seu contrato de três anos ou se o balde de água fria havia sido forte o suficiente para que ele desistisse no meio do caminho. Porém, Schumacher chegou à sua corrida de casa, na Alemanha, com o discurso de que sua motivação estava intacta. Havia apenas uma mudança de foco: 2010 passava a ser uma fase de transição, enquanto que o título de 2011 era sua nova prioridade.

Em Hockenheim, novamente Schumacher foi eliminado durante o Q2, em 11º, apenas 0s008 atrás de Rosberg. As largadas, porém, se mantinham como um dos poucos pontos positivos que apresentava: subiu para oitavo, inclusive à frente do parceiro, mas foi novamente superado durante as paradas de box e cruzou a linha de chegada em nono, 3s atrás de Rosberg. 

Mas é como diz o ditado: nada não é tão ruim que não possa piorar. Ainda antes da pausa para as férias de agosto, Schumacher viveu um dos momentos mais baixos de sua segunda passagem pela F1, já que apresentou não apenas falta de ritmo, mas também trouxe à tona um comportamento dentro da pista que lembrava suas maiores polêmicas. 

Na Hungria, Schumacher decidiu concentrar seus esforços em um set-up de corrida, deixando a classificação em segundo plano. O problema é que isso lhe deu somente o 14º lugar no grid, enquanto que Rosberg conseguiu colocar a outra Flecha de Prata em sexto.

Schumi chegou a escalar para o décimo lugar na corrida, também ajudado pelos abandonos de Rosberg e Hamilton, mas a estratégia que adotou o deixou com pneus em frangalhos nas voltas finais. O alemão se viu sob o ataque de Rubens Barrichello, que estava com compostos mais novos em sua Williams. 

Disputa com Barrichello foi um dos pontos baixos de Schumacher em 2010 (Foto: Reprodução)

Na volta 64, Schumacher cometeu o vacilo que permitiu o ataque do ex-companheiro de equipe: balançou na saída da última curva e abriu espaço para o avanço do brasileiro, mas não sem antes espremê-lo no muro, em alta velocidade. Barrichello não cedeu e concluiu a manobra, roubando de Schumacher o último ponto. Além de ter sido relegado ao 11º lugar na bandeirada, Schumacher também foi alvo da compreensível irritação do piloto da Williams, que entrou no rádio imediatamente para pedir a desclassificação do alemão.

A direção de prova até concordava com o ponto de vista do brasileiro. Derek Warwick, ex-piloto que atuou como comissário convidado em Hungaroring, disse que a possibilidade de bandeira preta para Schumacher foi seriamente considerada, até para servir de exemplo para os competidores mais jovens. Porém, como tudo aconteceu nas últimas voltas da corrida, não havia tempo hábil para desclassificá-lo. A saída, então, foi aplicar a Schumacher uma punição de dez posições no grid na corrida seguinte, na Bélgica.

Isso simbolizava o quão sofrível foi a primeira fase do retorno de Schumacher à F1. A Mercedes se perdeu no desenvolvimento técnico e, em vez de incomodar as ponteiras, parecia relegada ao pelotão intermediário. Na comparação entre os pilotos, Schumacher viu Rosberg se distanciar tanto em termos de pontuação como em termos de ritmo, o que colocava o jovem em posição de hegemonia interna. A polêmica com Barrichello trouxe, ainda por cima, o mesmo questionamento sobre sua integridade que houve em episódios como Austrália-1994, Jerez-1997 e Mônaco-2006. 

Diante de tal cenário, a Mercedes começou a estabelecer um plano de longo prazo para seu desenvolvimento. Havia um grande pacote de atualizações sendo trabalhado para o GP de Singapura, em setembro, mas o foco do time estava já voltado majoritariamente para o modelo de 2011. Resumindo em poucas palavras: se a situação estava difícil, não havia indícios concretos de que ela iria melhorar na segunda metade da temporada. 

Apesar dos pesares, houve alguns sinais levemente positivos na Bélgica, quando a F1 retornou das férias. Andou à frente de Rosberg durante todos os treinos e se classificou uma posição à frente do parceiro (11º contra 12º). Entretanto, a punição o jogou para 21º, enquanto que Rosberg também perdeu cinco posições no grid por trocar de câmbio. 

Schumacher fez boa corrida de recuperação em Spa (Foto: Bridgestone)

A garoa que caiu no domingo representaria uma boa oportunidade para as Mercedes se recuperarem, e foi isso o que aconteceu. Schumacher tirou proveito dos acidentes que teve à sua frente e ganhou posições, mas enfrentou sustos ao ter encontrões com Rosberg na Les Combes em dois momentos distintos. No fim, terminou na sexta posição, logo atrás do parceiro. Mesmo assim, era  seu melhor resultado em quase três meses.

Mas a realidade voltou a bater na Itália. Schumacher sempre apresentava maior dificuldade que Rosberg com a tendência do carro em sair de frente, e isso ficava ainda mais visível nas curvas de baixa velocidade. Monza, apesar das longas retas, tinha essa característica em vários pontos (especialmente na Variante del Rettifilo, Della Roggia e nas Di Lesmo).

Schumacher andou atrás de Rosberg o tempo inteiro e caiu novamente no Q2, em 12º, inclusive perdendo para Adrian Sutil e Nico Hulkenberg. Saltou na largada para oitavo, mas foi ultrapassado por Mark Webber e relegado a uma solitária corrida até chegar em nono, anotando mais dois pontos. Rosberg mais uma vez conseguiu um resultado bem melhor, em quinto, andando embolado no pelotão da frente, enquanto que Schumacher parecia ganhar cadeira cativa em disputas no bloco intermediário. 

Na primeira visita de Schumacher a Singapura, não havia como fazer milagres. Desta vez, ao menos, houve o consolo de ter retornado ao Q3, em nono, mas ainda 0s2 e duas posições atrás de Rosberg.

Mas a corrida foi um desastre. No meio do pelotão, Schumacher se viu envolvido em duas confusões distintas com os pilotos da Sauber: primeiro, tocou-se com Kobayashi e até chegou a bater nas barreiras de proteção; depois, numa tentativa desastrada de ultrapassagem, jogou Nick Heidfeld no muro e danificou seu bico. Tudo isso afetou negativamente as suas estratégias e o fez despencar. Ele terminou em 13º, enquanto Rosberg mais uma vez tirou leite de pedra, fez uma corrida limpa e ficou em quinto. A situação, que antes era apenas difícil, começava a se desenhar constrangedora. 

Houve um alento no restante da perna asiática do calendário. Voltou a perder para Rosberg na classificação do Japão, mas conseguiu saltar de décimo para sétimo na prova, o que virou sexto lugar depois do companheiro de equipe abandonar com um problema na roda. Mais oito pontos para a conta. 

Schumacher igualou seu melhor resultado no ano na Coreia do Sul (Foto: Bridgestone)

Na primeira visita da F1 à Coreia do Sul, tomou 0s4 de Rosberg na classificação, ficando em nono, com o colega quatro postos à frente. Ainda por cima, recebeu uma reprimenda por atrapalhar Barrichello durante o Q2. Mas o domingo foi marcado por um dilúvio, e Schumacher conseguiu ganhar muito terreno no molhado. Superou Robert Kubica e Jenson Button e herdou posições com abandonos, o que o fez saltar para quarto – igualando seu melhor resultado na temporada, ao lado de Barcelona e Istambul.

No Brasil, Schumacher quebrou a sequência de Rosberg nas classificações e voltou a largar à frente do parceiro, que caiu no Q2. No entanto, o heptacampeão não conseguiu tirar proveito das oportunidades do Q3 no molhado e obteve só o oitavo posto no grid, bem longe do surpreendente pole Nico Hulkenberg, da Williams. A corrida foi confusa: perdeu terreno no S do Senna, quando um encontrão com Robert Kubica o fez ir para a grama e cair posições. Mesmo assim, conseguiu avançar ao sexto lugar, o que virou sétimo quando deixou Rosberg (que tinha pneus muito mais novos) passá-lo no fim. 

Schumacher terminou o ano em Abu Dhabi se classificando à frente de Rosberg mais uma vez, em oitavo, ligeiramente à frente do parceiro. Só que aquela acabou sendo sua prova mais curta da temporada. Ainda nas primeiras curvas, Rosberg atacou Schumacher e fez a Curva 6 lado a lado com o companheiro. Schumacher, na tentativa de evitar um contato, acabou rodando e ficando de frente para o restante do pelotão. Vitantonio Liuzzi não conseguiu desviar e atingiu o alemão, subindo no carro Mercedes e quase atingindo seu capacete. O desfecho da campanha era uma metáfora para o que foi sua desastrosa temporada. 

O saldo da temporada de 2010

(Foto: Mercedes)

O balanço da temporada de retorno de Michael Schumacher à F1 era cruel. Em classificações, acabou derrotado por Nico Rosberg pelo amplo placar de 14 a 5. Na pontuação, foram apenas 72 pontos e o nono lugar no campeonato, enquanto que o jovem colega marcou quase o dobro de pontos (142) e foi sétimo. Mais: foi sua primeira temporada completa na F1 sem ter uma pole, volta mais rápida, vitória ou pódio.

E, se os números já não fossem brutais o bastante, uma leitura mais detalhada deixa a decepção maior para o seu lado. Em vez de progredir com o passar da temporada, deixando de ficar enferrujado, Schumacher na verdade perdeu bastante terreno para Rosberg na fase intermediária da campanha. O heptacampeão simplesmente não conseguiu se adequar aos pneus mais estreitos que a F1 adotou a partir de 2010, o que feria bastante o seu rendimento em curvas de média e baixa velocidades. E, nas raras vezes em que tinha certo ritmo, teve o azar de se envolver em confusões sem culpa (como na Austrália), ou em querer apostar na malandragem, ser punido e desperdiçar pontos (como em Mônaco). Enquanto isso, Rosberg era oportunista e salvava pontos valiosos sempre que podia.

Numa situação assim, o mundo da F1 ficava intrigados pelas explicações. Uma delas indicava que Schumacher teve seu processo de trabalho prejudicado por sentir enjoos quando usava o simulador da Mercedes (o que foi confirmado oficialmente pela própria equipe mais tarde). Ou seja, enquanto Rosberg simulava e chega aos GPs com o set-up mais encaminhado, facilitando sua familiarização com as pistas, Schumacher iniciava o trabalho de acerto já no circuito e tinha todo um trabalho pela frente durante os treinos livres. 

Mas a decepção também recai, de certa forma, sobre a Mercedes. O MGP W01 não se desenvolveu bem ao longo do ano – o carro não tinha uma base tão forte quanto a concorrência, mas ainda assim o time desceu na relação de forças. A chefia da equipe não conseguiu desenvolver com rapidez o duto frontal e tropeçou para fazer o difusor soprado funcionar sem problemas de superaquecimento. Além disso, o uso dos pneus foi uma vulnerabilidade do modelo, já que havia um problema crônico de distribuição de peso e na tendência em sair de frente. 

O retorno de Schumacher à F1 foi uma das histórias que mais esfriaram ao longo da temporada de 2010. Se os olhos do mundo estavam curiosos no começo da campanha para ver se o heptacampeão bateria de frente com a nova geração, ao fim do campeonato, sua situação era tratada com certa indiferença. Mas ainda era cedo demais para admitir a derrota: tanto Schumacher quanto Mercedes tinham motivos para acreditar que a situação seria dramaticamente diferente em 2011. Este será o tema da próxima parte de nosso especial.  


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de edições das 24 Horas de Le Mans e provas de categorias como Indy e WTCC.