O que marcou Emerson, Piquet, Rubinho e Massa no GP do Brasil? Eles contam

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A corrida de F1 em Interlagos é uma das ocasiões mais aguardadas do ano pelo fã brasileiro de automobilismo. Afinal, se trata da única oportunidade de ver de perto a atuação de pilotos e carros da principal categoria automobilística do planeta, em atmosfera única e em uma pista que é palco frequente de corridas agitadas.

Com tantas provas realizadas tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, o GP do Brasil já se tornou parada tradicional do Mundial de F1. E, ao longo de toda essa trajetória, vários pilotos locais se transformaram em verdadeiros protagonistas, vivendo situações que entraram para a história das corridas.

Pouco antes da 40ª edição do GP do Brasil, em 2011, a equipe do Projeto Motor (à época, no hoje extinto Tazio) conversou com vários brasileiros que vivenciaram capítulos de destaque em suas carreiras na etapa de casa. Os irmãos Emerson e Wilson Fittipaldi, Nelson Piquet, Rubens Barrichello e Felipe Massa, entre outros, relembraram os episódios mais marcantes que passaram no Brasil, contando em primeira pessoa momentos que se confundem com todas as fases da corrida.

WILSINHO E O PRIMEIRO CAPÍTULO DA HISTÓRIA (1972)

Wilson Fittipaldi 1972

Um ano antes de sua primeira edição oficial, o GP Brasil foi realizado em formato extracampeonato para que houvesse a homologação do circuito de Interlagos, que havia passado por uma extensa reforma. A prova, realizada em uma quinta-feira, contou com desfalques importantes, como pilotos de Ferrari, Tyrrell, McLaren e Matra, mas mesmo assim a torcida compareceu em peso.

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Então piloto da Brabham, Wilson Fittipaldi liderou brevemente no início, mas acabou superado por seu irmão, Emerson, Carlos Reutemann e Ronnie Peterson. O “Rato” da Lotus ponteava a prova com folga até sofrer uma falha mecânica. Assim, Reutemann venceu, seguido de Peterson e Wilsinho, terceiro colocado em seu quintal.

“Eu estava bastante ansioso para obter o melhor resultado possível, especialmente por estar em meu país. O autódromo estava muito bom perto do que era antes – puseram guard-rails novos em todo o traçado, recapearam a pista inteira e fizeram boxes novos. Enfim, deram uma melhorada de 80%.”

“Tive uma largada excepcional e liderei a corrida por um tempo, mas tive um probleminha na saída da Curva do Sargento e subi na zebra externa forte demais. Ali pensei que havia acontecido algo com o pneu, e realmente aconteceu. Dali em diante, perdi performance, mas consegui ir até o fim e terminei em terceiro. Aquela corrida do Brasil foi o primeiro capítulo da história.”

EMERSON E SUA VITÓRIA MORAL EM CASA (1978)

Fittipaldi 1978

Primeiro brasileiro campeão da F1, Emerson Fittipaldi também viveu dias de glória na corrida em seu país natal. O brasileiro subiu no topo do pódio em duas oportunidades, em 1973 e 1974, ambas em Interlagos. Porém, o episódio que mais lhe marcou não envolveu uma vitória, na estreia de Jacarepaguá no Mundial, em 1978. A bordo do Copersucar F5A, Emerson completou a prova em segundo lugar, o melhor resultado dos oito anos da equipe brasileira na F1.

“Correr no quintal de sua casa é um negócio muito especial. Existe uma pressão e uma responsabilidade muito grandes por ser brasileiro e correr em casa, mas, se levarmos pelo lado positivo, como eu conseguia levar, vira entusiasmo. Este calor humano do brasileiro só motiva o atleta. Obviamente é preciso se proteger para não se desgastar física e psicologicamente com isso, porque, no Brasil, há uma exigência maior.”

“Em 78, o público pulou na pista por conta do que representava um piloto brasileiro em um carro brasileiro chegar em segundo no GP do Brasil. Imagina se isso acontecesse hoje? Foi praticamente uma vitória. Larguei em sétimo e fui buscando um por um até chegar ao segundo lugar. Foi uma corrida muito suada, perdi quase 7 kg durante a prova e saí do carro desidratado. O Patrick Tambay desmaiou em linha reta por conta do calor que fazia. Foi uma das corridas mais difíceis da minha carreira inteira.”

PIQUET E A INVASÃO DE JACAREPAGUÁ (1983)

Piquet 1983

Nelson Piquet viveu dias de sonho e pesadelo em suas participações no GP do Brasil. Ao total, disputou 13 edições e venceu duas (83 e 86), sendo que em uma outra, em 82, perdeu uma vitória ao ser desclassificado por conta da caixa d’água de sua Brabham.

Por mais que guarde com carinho sua primeira participação no Brasil, em 79, Piquet destacou a edição de 83. Na ocasião, o piloto largou em quarto, ganhou uma posição na largada, ultrapassou Alain Prost e Keke Rosberg na Curva Sul de Jacarepaguá, em manobras separadas, e venceu com 20s de vantagem.

“O melhor GP do Brasil é sempre o primeiro em que corremos. Mas um bem especial foi o de 83, que ganhei com a Brabham em Jacarepaguá depois de passar o Keke Rosberg que estava à frente. Era a abertura da temporada e o autódromo estava lotado. Quando cruzei a linha de chegada, o pessoal começou a invadir a pista. Foi um dia muito bom.”

GUGELMIN E O PÓDIO AO LADO DE GIGANTES (1989)

Gugelmin 1989

A despedida de Jacarepaguá da F1 contou com a presença de um brasileiro no pódio – mas isso não aconteceu com os consagrados Ayrton Senna e Nelson Piquet, e sim com Maurício Gugelmin, terceiro colocado em 89 com a March. Naquele dia, o catarinense sobreviveu a uma corrida desgastante no calor do Rio para receber a bandeirada atrás de Nigel Mansell e Alain Prost, para aquele que seria seu único pódio na F1.

“Para qualquer piloto que gosta da sua pátria e quer representar bem o seu país na frente do próprio povo, o GP do Brasil se torna o mais importante da temporada. Naquela época, as cobranças eram diferentes em comparação a hoje. O foco estava naqueles que estavam lá em cima, com o Nelson e o Ayrton. Mas havia um outro aspecto: quando um jovem chegava à F1, já havia a expectativa da continuidade dos bons resultados para o Brasil.”

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“Para a corrida, a estratégia era evitar problemas. Os pneus se desgastavam absurdamente, já que Jacarepaguá era um circuito muito abrasivo e estava muito quente. Eu queria chegar à metade da corrida dosando o carro para ter mais pneu, ou seja, mais armas para o final. Lembro que eu tinha um carro que poderia chegar em segundo ou até mesmo pressionar o Mansell pela liderança, mas o meu problema foi com o superaquecimento da água. Aquele carro tinha radiadores muito pequenos, então, quando me aproximei do Prost e forcei o ritmo, a temperatura foi lá para cima. O motor estava à beira de explodir.”

“Acabamos escolhendo não forçar por nunca ter feito um pódio, especialmente em casa. Se fosse em outra circunstância, teria optado por forçar um pouco mais. Mas foi uma realização pessoal, porque estava ao lado de gigantes como Ferrari e McLaren e de dois pilotos consagrados – isso dá uma satisfação enorme.”

CHRISTIAN E O DILÚVIO DE INTERLAGOS (1993)

O GP do Brasil de 1993 entrou para a história da F1 com a atuação de Ayrton Senna sob a chuva, o que contribuiu para a segunda vitória do tricampeão em casa. Entretanto, um outro brasileiro participou, mesmo sem querer, de um dos lances mais importantes da prova.

Na 29ª volta, um verdadeiro dilúvio caiu no circuito de Interlagos, o que pegou desprevenido o então líder absoluto da corrida, Alain Prost. Para a alegria da torcida presente, o francês aquaplanou pouco antes do “S do Senna” e colidiu com Christian Fittipaldi, que também havia perdido o controle de seu carro. Ambos abandonaram.

“Eu estava indo bem, mas começou a chover no meio da corrida. Alguns pilotos foram ao box e outros não. Eu, juntamente com o Prost e com mais alguns outros carros, optamos por não entrar para trocar pneus. Além de ter chovido forte, choveu em metade da pista, com a outra parte completamente seca. Como eu não sabia disso, decidi ficar de pneu slick. Achava que a pista ficaria totalmente seca em cinco ou dez voltas. Não compensaria fazer duas paradas.”

“Quando cheguei à frente do box, nunca imaginei que teria tanta água. Tinha tanta, tanta água na pista que todo mundo começou a rodar na reta, antes da freada. Vi aquela quantidade de água e levantei o pé, ainda de pneu slick, mas comecei a rodar e fiquei assim por 200 metros, rodando. O Prost veio atrás, fez o mesmo e bateu no meu carro. Aquilo foi uma situação completamente fora do controle, não foi erro de ninguém. Estávamos tentando passar por uma quantidade de água que fazia o carro flutuar.” 

BARRICHELLO E A CORRIDA “BOA E RUIM” (2003)

Barrichello 2003

A história de Rubens Barrichello no GP do Brasil é preenchida de momentos de felicidade e de decepção. Em sua terra natal, o veterano brasileiro fez a alegria da torcida com três pole positions e com o quarto lugar em 94, mas teve pontos baixos com os diversos abandonos e acidentes.

Entre alegrias e tristezas, Rubinho aponta a edição de 2003 como a mais marcante em seu país, justamente pelos sentimentos alternados. Largando na frente pela primeira vez em casa, o então piloto da Ferrari chegou a perder terreno no molhado, caindo para sexto, mas se recuperou ao passo que a pista secava. Na 45ª volta, assumiu a liderança e fez a torcida explodir em festa.

Porém, a má sorte do piloto em Interlagos voltou a dar as caras pouco depois. Duas voltas mais tarde, ficou sem combustível na saída da Curva do Lago, abandonando a prova pela décima vez em casa.

“O GP do Brasil de 2003 foi inesquecível para mim pelo bom e pelo ruim. Infelizmente acaba caindo no ruim, porque foi aquela corrida em que acabou a gasolina. Aproximadamente 20 minutos depois que a prova acabou, eu estava na reunião e escutei um carro ligando. Ou seja, colocaram gasolina no carro e ele pegou. Aquela falha humana me machucou demais. Era uma prova que eu ganharia com o pé nas costas, então aquilo me marcou.”  

“Mas tenho momentos fantásticos no Brasil. Aquelas classificações em que fiz a pole, ou quando classificava lá na frente com carros nem tão competitivos, com o público gritando… Podem falar o que quiser, quem está lá curte. Não tenho dúvidas que, para mim, ter vencido no Brasil seria tão especial quanto ganhar um campeonato.”

MASSA E O TÍTULO QUE QUASE VEIO (2008)

Felipe Massa Brasil 2008

Durante a melhor fase de sua carreira na Ferrari, Felipe Massa teve desempenho irretocável no GP do Brasil: venceu em 2006, contribuiu com a vitória (e o título) de seu companheiro, Kimi Raikkonen, em 2007, e voltou a triunfar em 2008.

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Contudo, o brasileiro sentiu na pele aquele que talvez seja o maior exemplo de “sentimento agridoce” já visto em toda a história da F1. Com uma atuação impecável em 2008, Massa dominou a prova por completo, mas acabou vendo o tão sonhado título mundial escapar pelos dedos literalmente nos metros finais da prova, quando Lewis Hamilton ultrapassou Timo Glock e marcou os pontos necessários para se sagrar campeão pela primeira vez.

Mesmo assim, Massa cita a corrida de 2008 como um grande momento marcante de sua trajetória no Brasil – depois desta entrevista, ele voltaria ao pódio de Interlagos mais duas vezes, em 2012 e 2014.

“Para falar a verdade, todas as corridas boas que tive no Brasil foram superespeciais. Tive a minha primeira vitória no Brasil, que era um sonho muito distante de vencer em casa. Vencer em casa é como ganhar um campeonato, e foi assim em 2006, uma emoção incrível.”

“E 2008 foi pole position, volta mais rápida e vitória. Quase, passou perto a conquista do campeonato em casa. Não sei porque isso aconteceu, mas foi por um motivo: se eu vencesse o campeonato em casa, dali para frente não sei se teria forças para continuar correndo, porque seria uma emoção histórica não só para mim, mas para o Brasil também.”

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Dieki

    Eu lembro dessa do Barrichelo, que caé do cara, velho! Essa corrida de 2003 foi sensacional. Mas ele abandonou quase todas as realizadas aqui. E o pior, quase nunca por culpa dele. As do Senna foram excepcionais, porque tiveram um tempero extra.
    A primeira do massa, foi bem legal também!

  • Gustavo Segamarchi

    Mais uma grande matéria do Projeto Motor. Gostei bastante e até já recomendei.

    É muito legal ouvir as palavras dos pilotos sobre o momento que mais marcou para eles, principalmente em Interlagos.

    Fiquei aborrecido com o Ricciardo essa semana, pois ele falou que Interlagos é um circuito que não traz a mesma emoção para ele do que o resto dos circuitos da F1.

    Para ele, correr na Rússia é mais emocionante do que Interlagos. Ele falou que Interlagos tem poucas curvas.

    O estranho, é que NUNCA vi nenhum piloto da F1 falar isso de Interlagos, pois Interlagos é um templo sagrado do automobilismo mundial. Até os gringos reconhecem a magia do circuito.

    Mais uma vez, parabéns pela excelente matéria. Às vezes não leio todas as matérias, mas diariamente acesso ao site.

    Boa Tarde a Todos.