O que significa a concentração inédita de montadoras na Fórmula E

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A Fórmula E chegou em 2013 já fazendo um grande estardalhaço com seus carros elétricos, monopostos com uma cara diferente, meio futuristas, grid cheio de pilotos com passagens pelas mais importantes categorias e eventos em algumas das mais importantes cidades do mundo. E, em pouco tempo, conseguiu a atenção das grandes montadoras automotivas, o que está gerando uma das maiores concentrações de marcas do setor em uma mesma série na história do automobilismo.

Isso deixa muitas dúvidas na cabeça de todos os envolvidos com o esporte a motor, desde dirigentes e pilotos até os fãs: isso significa que a F-E é o futuro das corridas de carros? O que será dos outros certames?

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Entre as companhias que já fazem parte do grid e as que anunciaram sua participação para as próximas temporadas estão Renault, Audi, Jaguar, Mahindra, DS (Citroen), BMW, Mercedes e Porsche. Some ainda as já especializadas em veículos elétricos NIO e Venturi. Outras, como Ferrari, também já avisaram que estão de olho.

Obviamente que outros campeonatos sofrem. Se a F1 ainda não está sentindo tanto, com uma boa participação de quatro montadoras na atualidade, um bom número se olharmos para o histórico, DTM e WEC, por outro lado, estão em maus lençóis. A Mercedes já anunciou que deixará o campeonato alemão de turismo para se concentrar na F-E. Audi e BMW estarão com os pés nas duas barcas (com a empresa de Munique também trabalhando em um retorno na classe GT do WEC em 2018), mas não se sabe por quanto tempo.

Já na competição de endurante, segundo informações da imprensa especializada inglesa e alemã, a Porsche deve encerrar seu programa na classe LMP1 para se concentrar na F-E, deixando a Toyota sozinha. Será que os japoneses também vão querer ficar por muito tempo lá em ninguém para medir forças? Difícil.

Pelotão da F-E
Pelotão da F-E

O carro de rua como conhecemos está mudando. Isso todos sabemos. O motor a combustão está com os dias contados. A Alemanha até mesmo já avisou que pretende banir veículos que utilizem este tipo de propulsão até 2030. Parece longe, mas são apenas 13 anos. Se nas ruas a transformação está em curso sem volta, o que acontecerá com o automobilismo? Aqui no Projeto Motor temos um texto que analisa profundamente este tema, principalmente sobre a ótica do que o fã deve esperar.

As questões que ficam aqui são: a F-E é realmente o único caminho para as montadoras? Ela se tornará nos próximos anos o principal campeonato do esporte a motor internacional por causa delas? Calma, a coisa não é tão simples assim. Não é por que existe uma concentração de montadoras que o futuro do certame está garantido. A própria F1 já passou por bons períodos com pouquíssima participação das marcas. De qualquer maneira, vale analisarmos mais de perto.

Por que a Fórmula E está atraindo tantas montadoras?

Existe um eterno discurso, talvez até mesmo internamente nas grandes montadoras, que para entrar em uma competição as grandes marcas querem que o campeonato ofereça oportunidades de se testar tecnologias em situações extremas, que tenha um regulamento técnico relevante para o desenvolvimento de carros de rua e blablabla.

Sim, o automobilismo já prestou esse serviço. Mas a sua importância dentro neste âmbito é menor a cada dia que passa por diversos motivos. Primeiro, pela própria evolução tecnológica e da difusão de métodos e equipamentos que simulam as condições necessárias para os estudos e evolução de novas criações sem a necessidade de se ir para uma pista de corridas.

Segundo, pela mudança da relação entre as pessoas e seus carros. Diferente do que acontecia até os anos 90, os consumidores olham cada vez mais para conforto e economia e menos para desempenho bruto do equipamento. Um V8 que consome 1 litro de combustível por quilômetro ou um compacto fácil de estacionar e que tem consumo de 20 km/l? E aí, o automobilismo deixa de ser tão relevante.

Renault investe na parceria com a equipe Dams na F-E
Renault investe na parceria com a equipe Dams na F-E

Então, por que elas continuam competindo? Nenhuma montadora jamais vai admitir isso publicamente, mas o que elas procuram no automobilismo é impulsionar suas marcas. Marketing. Vencer a corrida de domingo para aparecer nas manchetes de todo o mundo e assim conseguir uma boa publicidade e vender mais carros.

E dentro de todo esse cenário, a F-E surge para as fabricantes de carro como um lugar realmente espetacular para elas se alojarem. O discurso tecnológico se enquadra perfeitamente, pois o campeonato nasceu com a suposta premissa de desenvolvimento de um novo conceito de propulsão, que está cada vez mais presente nos carros de rua, mas que precisa ainda evoluir muito. Tanto nas pistas quanto nos veículos convencionais. E para melhorar ainda mais, é uma plataforma de marketing que as companhias estavam procurando. E isso, neste momento é o ponto principal. Alguém neste mundo vai reclamar de um certame que propõe um carro menos poluente?

Todas essas companhias já trabalham com carros elétricos ou híbridos no mercado. Elas precisam reposicionar suas marcas não apenas para vender potência e sexualidade, mas também economia e sustentabilidade. O recém escândalo envolvendo marcas do Grupo Volkswagen sobre fraude de emissões fora do padrão em seus carros nos Estados Unidos, também acelerou esta busca mercadológica dentro do conglomerado e nas empresas automotivas alemães.

Motor elétrico da Jaguar na F-E
Motor elétrico da Jaguar na F-E

A desconfiança no começo ainda existia mais sobre se a organização da competição iria conseguir colocar tudo que estava prometendo de pé. Por isso mesmo, algumas marcas como Renault e Audi entraram primeiro na competição apenas como um apoio a parceiros, enquanto outras preferiram esperar a movimentação. E ao chegarmos na reta final da terceira temporada, tudo parece ir bem. Daí, quem ainda estava dentro de forma disfarçada já está colocando seu nome sem vergonha nos carros, e quem estava fora resolveu entrar.

É um caso único na história do esporte a motor de concentração de tantos grandes nomes do setor automotivo em um mesmo grid. Só que existem algumas perguntinhas que ficam e que serão respondidas apenas com o passar dos anos:

– com desenvolvimento do trem de força pelas montadoras, como segurar os custos?
– com tantos nomes importantes, quantos deles vão permanecer a longo prazo, andando atrás de concorrentes? Afinal, nem todo mundo consegue vencer
– o quão sustentável segue a organização do campeonato caso o público do automobilismo não mostre interesse por este tipo de competição?

A Jaguar entrou na F-E na temporada 2016-17
A Jaguar entrou na F-E na temporada 2016-17

Se já mostrou que consegue atrair nomes importantes do setor manufatureiro, de equipes (Penske também se envolverá nos próximos anos) e pilotos, a F-E ainda precisa encantar os fãs. Carros sem potência e que não fazem barulho, circuitos apenas de rua, que além de serem muito parecidos, não impõe novos desafios, e carros desinteressantes são alguns itens que afastam os espectadores normais de corridas. E cara que defende o carro elétrico, mas não assiste normalmente provas de automobilismo, não vai assistir às competições só por conta do veículo.

Ter as fabricantes em seu grid não é tudo, e mantê-las por um longo período, como mostra a história do automobilismo em diversas categorias, é extremamente difícil. Se existe algo que as pessoas logadas às corridas já aprenderam é que as montadoras vêm e vão.

A verdade é que pelo menos para os próximos três ou quatro anos, a F-E realmente se tornará a casa das montadoras no automobilismo. Neste mesmo período, a F1 seguirá sendo a principal categoria, enquanto outras, mais dependentes da participação das marcas, como DTM e o WEC, precisarão se reinventar para sobreviver. Além disso, algumas marcas devem seguir em mais de uma competição. Sem esquecer ainda o WRC, que ainda possui três grandes nomes em seu campeonato, o RallyCross, que sem tanto alarde, também possui diversas equipes oficiais em suas duas principais competições internacionais.

Durante a próxima década, quando o apelo da novidade elétrica não poder ser utilizado como única novidade, uma consolidação deve ocorrer para formar um novo cenário do esporte a motor, o que pode causar um mudança (ou não) no caminho do dinheiro das fabricantes de carros. E tenha em mente: as marcas querem mais do que tudo espaço para marketing. Se tiverem um retorno maior com outro tipo de competição, seja elétrica, combustão ou qualquer outra coisa que venha surgir, é para lá que elas vão. Para a F-E conseguir se manter como destino por um longo período, ainda falta muito trabalho.

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Czar_SP

    Ok, mas no final das contas o que significa esta concentração na Formula-E?

    O texto apenas dá voltas sobre informações já disseminadas no mercado automobilístico.

    • Lucas Santochi

      Significa que as montadoras estão atrás de uma plataforma de marketing, não necessariamente de desenvolver seu produto, o que não quer dizer que é o fim das outras categorias. Para a F-E se tornar a grande série, precisa de muito ainda. Tudo isso está no texto.