O que vale mais: uma vitória em Le Mans ou UMA na F1?

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O peso de um triunfo nas 24 Horas de Le Mans e na F1 mudou com o tempo e já faz algumas décadas que a categoria de monopostos é o grande sonho da maioria esmagadora dos pilotos de todo mundo. Mas ainda é possível compará-las? Sim, mas é preciso ter consciência de que não se pode levar em consideração apenas um lado da história.

Já tive a oportunidade de conversar com vários pilotos sobre o assunto, entre brasileiros, como Lucas di Grassi, a estrangeiros, como André Lotterer, Allan McNish e o monstro de Sarthe, Tom Kristensen. E é claro que todos esses nomes exaltam a tradição de Le Mans, as particularidades da prova e tal. Mas, por outro lado, se você chega para um piloto que venceu uma ou duas provas de F1 na carreira inteira, será que ele trocaria esse triunfo por um da corrida de resistência? Acho difícil.

Não imagino um Jean Alesi, Alessandro Nannini , Jean Alesi, Olivier Panis, Jarno Trulli, Robert Kubica, Heikki Kovalainen ou Pastor Maldonado trocando seus míseros momentos de glória na F1 por um nas 24 Horas.

Jarno Trulli celebra sua única vitória na F1, no GP de Mônaco de 2004
Jarno Trulli celebra sua única vitória na F1, no GP de Mônaco de 2004

O último piloto que venceu em Le Mans e que também tem vitórias na F1 foi Michele Alboreto, em 1997. Antes dele, Johnny Herbert, em 91, antes de seus triunfos na categoria de monopostos. Em 2015, temos Mark Webber fazendo uma nova tentativa, talvez na melhor condição que já teve por lá. Será que ele faria a troca?

Pilotos que chegaram à F1 doaram sua vida inteira a esse objetivo. Principalmente quando falamos dos últimos 30 anos. Desde o kart, sonhavam em conseguir alinhar no grid da categoria. Há alguns anos, Le Mans é uma consequência de outros caminhos que os volantes do mundo acabam tomando na carreira. Claro que alguns como Schumacher, Prost, ou qualquer outro que tenha subido ao lugar mais alto do pódio em mais de 15 ou 20 provas do Mundial de fórmulas, pode até pensar em trocar alguma ali. Mas, a maioria, não trocaria.

Existe mais um fator muito importante para isso acontecer. Todos lembram que a Audi, a Porsche, a Mazda, a Jaguar, a Ford, entre outras, venceram a corrida de Sarthe. Mas a verdade que nem sempre é fácil lembrar todos os pilotos que estavam participando em cada carro. Na F1, todos lembram os campeões Senna, Lauda, Fittipaldi, Jones e por aí vai. Será que as pessoas lembram como foi o campeonato de construtores na mesma temporada? Nem todo mundo.

Por isso tudo, fazer a pergunta de o que vale mais, uma vitória em Le Mans ou UMA na F1, é muito difícil para um piloto. O significado maior está para nós, os fãs. E sim, F1 é o que existe de mais legal para acompanhar como campeonato no automobilismo. Mas a verdade é que, para quem gosta de carro de corrida, nada mais fascinante do que o evento 24 Horas de Le Mans. Nem o GP de Mônaco ou 500 Milhas de Indianápolis, que também possuem um grande valor próprio.

Trio Marcel Fassler, Andre Lotterer e Benoit Treluyer levam Audi à vitória em Le Mans-2014
Trio Marcel Fassler, Andre Lotterer e Benoit Treluyer levam Audi à vitória em Le Mans-2014

Ali conseguimos ver diferentes tipos de carros, utilizando diversas soluções mecânicas ou aerodinâmicas, lutando muito perto do extremo da resistência, do consumo de combustível, da exigência do circuito e da velocidade. Isso sem mencionar o lado físico, técnico e de concentração dos pilotos.

O evento francês, ao contrário das etapas da F1, é insubstituível. Não pode ser trocado por outra corrida em Abu Dhabi ou Azerbaijão. E não vale os mesmos pontos das outras corridas do Mundial. Aliás, que se dane o Mundial, ela está acima de qualquer campeonato que a contenha no calendário. Pilotos e equipes trabalham por um ano inteiro para aquele final de semana. O que vier a mais, é lucro.

Para uma marca, claro que aparecer bem na F1 traz um retorno de publicidade maior. Hoje, provavelmente, não faz muito sentido para a Mercedes investir em um protótipo para as 24 Horas. Mas a verdade é que reverência de quem gosta de carros vem de uma vitória em Le Mans. Não seria o Hamilton ou o Schumacher, mas a Mercedes campeã. Sem falar que o custo-benefício é muito maior perante aos gastos astronômicos da categoria de monopostos.

Diante tudo isso, é injusto avaliarmos o que vale mais apenas na visão do piloto. Por que em Le Mans, o piloto é apenas mais um componente deste grande espetáculo do automobilismo, que faz os amantes do esporte a motor irem ao delírio. E para o fã, nada como ouvir um ronco de motor no entardecer de Le Mans.

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.