O tetra de Prost: um título que francês teve poucas razões para celebrar

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Quando Alain Prost recebeu a bandeira quadriculada como segundo colocado do GP de Portugal de 1993, em 26 de setembro daquele ano, as milhões de testemunhas presenciais ou televisivas sabiam que havia ali um pedaço importante de História sendo sedimentado: o pequeno gigante francês se tornava o segundo ás a conseguir pelo menos quatro títulos na F1, sendo ainda o então detentor do recorde de vitórias. Tudo isso perto da merecida aposentadoria.

Só que a ratificação daquele campeonato passou longe, muito longe de surpreender como a decisão de Adelaide em 86. Também não provocou os mesmos sentimentos de amor e ódio que os fãs sentiram durante os epopéicos duelos com Ayrton Senna entre 88 e 90. Tampouco pode ser considerada uma conquista “justa” se refletirmos sobre quem foi o melhor volante daquele ano, bem diferente de seu título inconteste em 85.

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A campanha foi formada por triunfos pouco memoráveis, raros momentos de emoção e muitas contestações pelos vacilos cometidos ao longo das 16 etapas. Tais escorregões, aliás, por certo tempo fizeram os admiradores de Senna sonharem com um inesperado título. Aos poucos Prost tomou as rédeas da tabela de pontos, como se esperava, mas fechar a disputa com um pouco empolgante segundo lugar no Estoril, sem partir para a briga com o vencedor, Michael Schumacher, resume bem o que foi sua temporada.

Por que mais dificuldades do que brilho? O Projeto Motor exporá agora o que Prost enfrentou exatamente no ano de seu tetracampeonato.

Prost ergue uma imponente bandeira da França para comemorar o título selado em Portugal
Prost ergue uma imponente bandeira da França para comemorar o título selado em Portugal

Mais difícil do que parecia

Curiosamente foi em 27 de setembro de 1992, portanto um ano menos um dia antes da consumação do tetra, que Prost foi confirmado como piloto da Williams visando à temporada seguinte. A movimentação forçou a saída do enfim coroado campeão Nigel Mansell para a Indy, ao mesmo tempo em que fechou as portas de Senna para aquela que se havia se tornado a principal escuderia da grelha.

Após ser demitido da Ferrari e passar um ano fora das pistas, Prost estaria de volta com loas e pela porta da frente, pois conduziria o melhor carro disparado da competição. O contrato era de dois anos. O francês de Saint-Chamond jamais admitiu ter reclamado condição de primeiro piloto, mas confirmou posteriormente ter feito uma exigência: Ayrton Senna não poderia ser seu companheiro. O brasileiro o chamaria de “covarde” por isso.

Sem competição interna, o favoritismo de Prost era amplo: afinal, se Mansell, que era Mansell, dominara a F1 da forma que o fez em 92, seria de se imaginar que Prost, um volante mais consistente e inteligente do que o bretão, massacraria ainda mais a concorrência, não é mesmo? Entretanto, diferentemente do inglês, que despontou de maneira até surpreendente como único rival de si mesmo a bordo do imbatível FW14B, Alain Marie encontrou diante de si um ambiente mais hostil.

Aqui vale a primeira ressalva: estamos falando de um piloto de 38 anos que passara mais de 12 meses parado e estava voltando à ativa durante o período de mais rápida e voraz evolução tecnológica já visto na categoria. Alguém que teria de retomar o ritmo e, ao mesmo tempo, aprender a lidar com toda a eletrônica recém-descoberta. Além disso, como o Projeto Motorrelatou neste artigo, os bólidos ativos da Williams demandavam uma pilotagem bastante bruta, o que casava muito mais com o estilo brucutu de Mansell do que com a suavidade do multicampeão.

“Era um carro que eu não podia comparar com nenhum outro, porque era muito mais avançado em termos de tecnologia. Não foi meu tipo favorito de carro para trabalhar ou pilotar, pela forma como eu gosto de trabalhar com o carro e com a equipe, com os engenheiros. Com o carro ativo eu não conseguia trabalhar da mesma forma: tudo era feito por computador, e eu não gostava da sensação [ao pilotar]”, declarou vez o ás em uma entrevista à rede de TV britânica Sky Sports concedida alguns anos atrás.

Vale observar que o FW15C trazia um número pequeno de atualizações em relação ao FW14B usado na estação anterior: bico e rodas estreitados, derivas do aerofólio dianteiro mais altas e pequenas mudanças aerodinâmicas, tudo em conformidade com o novo regulamento técnico a vigir.  O sistema de suspensão ativa era o mesmo, porém aprimorado e com respostas ainda mais rápidas, o que na prática gerou certa dose de instabilidade traseira nas frenagens, principalmente em circuitos com baixa pressão aerodinâmica.

51ª e última vitória de Prost na F1 foi no GP da Alemanha de 93, aproveitando-se de um estouro no pneu do companheiro Damon Hill a três voltas do final
51ª e última vitória de Prost na F1 foi no GP da Alemanha de 93, aproveitando-se de um estouro no pneu do companheiro Damon Hill a três voltas do final

Também foi evoluído o conjunto motor-transmissão, com ganhos na parte de ignição, admissão e combustão do Renault RS5 V10, opção de trocas 100% automáticas das marchas e um inédito sistema de embreagem por botão – embora tanto Hill quanto Prost tenham preferido manter o pedal para uso em corridas, por questão de hábito. Após o fracasso de Donington Park entrou em cena um acelerador eletrônico com controle de giros, enquanto em Magny-Cours a esquadra usou pela primeira vez freios com assistência antitravamento (ABS).

Isso tudo deveria facilitar a vida de Prost, claro, mas a verdade é que o veterano enfrentou dificuldades para lidar com volante e pedais, principalmente por conta da necessidade de ser totalmente abrupto e nada progressivo nos comandos. O desconforto ficou evidente especialmente em situações como largadas e arrancadas. Quantas vezes não vimos o supervencedor Prost deixar o FW15C morrer, como se fosse um iniciante, ao tentar sair da imobilidade com seu carro naquele campeonato?

Para apimentar um pouco mais o cenário, McLaren e Benetton correram atrás do déficit tecnológico e desenvolveram chassis bastante refinados em 93. Inclusive já detalhamos os predicados de MP4-8 e B193. O que manteve a Williams à frente, basicamente, foi a sofisticação ainda imbatível da suspensão ativa, bem como os mais de 60 cv de vantagem gerados pelo Renault de 10 cilindros em relação ao Ford Cosworth V8 usado pelas duas principais rivais.

“Em 1993 houve, sem dúvida, superioridade dos Williams-Renault. No entanto, a oposição se aproximou muito mais, a ponto de o diferencial que existiu ser menor do que se esperava, principalmente no final da temporada, quando foi nulo”, analisou o jornalista inglês Alan Henry em editorial publicado em português no anuário Fórmula 1 1993-1994, de Francisco Santos.

Tudo isso colocou enorme pressão sobre Prost. Um favorito absoluto, mas que não se sentia confortável no monoposto e ainda teve de lidar logo no começo do ano com frustrações como a do Brasil, em que ficou na pista com pneus lisos em meio a uma forte chuva por causa de uma falha em seu rádio, e acabou batendo. Ou então o fiasco – para não dizer “mico” – do GP da Europa, que rendeu a ele e à Williams uma enxurrada de críticas.

“Prost fechou sua carreira com um ano decepcionante, para ele e para todos nós, apesar de a imprensa francesa o colocar nos píncaros com um saudosismo piegas, esquecendo-se de todos os ataques que lhe desferiu após Donington”, comentou Alan Henry no mesmo editorial mencionado antes, dando o tom de como seu desempenho foi encarado à época.

Eis o que o próprio Prost afirmou sobre sua campanha em 93, ainda à Sky Sports.

Eu diria que foi uma temporada estranha, porque eu estava a todo momento ouvindo que tinha o carro mais rápido, que Ayrton era um ‘pobrezinho ‘pilotando um ‘carrinho’…. Houve corridas perdidas em que tivemos muita falta de sorte, como Brasil e Donington, no início da temporada, e aí comecei a ter problemas de motivação logo cedo.”

A sombra de Senna

Por falar no “pobrezinho” Senna, outra verdade dolorida para Prost é que seu nêmesis vindo da América Latina se apresentou como uma incômoda sombra ao longo de quase todo o ano. Primeiro na pista, ao conquistar três memoráveis triunfos em Interlagos, Donington e Monte Carlo, fechando a sequência das seis primeiras etapas do certame como inesperado líder. Depois, nos bastidores, com a iminente possibilidade de assinar com a Williams e assumir seu posto em 94.

“Eu tinha um contrato de dois anos, mas por volta de julho [de 93]Frank me explicou que estava sofrendo pressão da Renault para contratar Ayrton. Eu o relembrei que não aceitaria aquilo. A coisa foi seguindo, eu fui me sentindo cada vez mais pressionado e aí, em agosto, ele me ligou para dizer que queria negociar um acordo [de rescisão]. Fiquei feliz. Não totalmente feliz, claro, mas ao menos feliz por encerrar a questão”, revelou à Sky Sports.

A ultrapassagem que tomou de Senna na volta inaugural do GP da Europa talvez tenha sido o momento mais emblemático de 93
A ultrapassagem que tomou de Senna na volta inaugural do GP da Europa talvez tenha sido o momento mais emblemático de 93

Assim, Prost anunciou a aposentadoria e confirmou o tetra num cenário em que estava quase totalmente ofuscado pelos rumores do iminente casamento entre Senna e Williams. A sensação que ficou, exceção talvez aos interessantes duelos com o velho adversário em Kyalami e Silverstone, foi a de que tudo que Prost fez de positivo em 93 não passou de protocolo.

“Este meu quarto título foi, de certa forma, um pouco estranho para mim do ponto de vista psicológico, porque pensavam que o campeonato já estava decidido antes mesmo de começar. Isso torna tudo mais difícil e até menos divertido. As vitórias são tomadas quase como uma obrigação, e quando não se ganha acham desastroso”, analisou o piloto em entrevista coletiva concedida em Suzuka, etapa subsequente à de Portugal.

Sim, a conquista deixou uma sensação aquém das expectativas, mas também merece ser rememorada num bom sentido. Afinal, mostrou que um dos maiores gênios do esporte a motor ainda retinha dentro de si gana para encontrar soluções e enfim entregar o que dele se esperava, mesmo estando na fase crepuscular da carreira e sem precisar provar mais nada a ninguém.

José Miguel Barros, jornalista português que cobriu a F1 por anos, soube reconhecer o esforço do francês: “Convirá não esquecer que Alain Prost alcançou seu quarto título mundial depois de ter ficado um ano afastado das pistas, perdendo não só ritmo, mas também o contato com uma categoria que tinha evoluído de forma sensível”, escreveu, também no anuário de Francisco Santos.

Prost pode não ter sido brilhante em 93, e realmente não foi. Mas o pequenino francês tinha créditos com a F1, e encerrar a carreira com o tetracampeonato acabou sendo um simbólico prêmio pelos excepcionais serviços prestados outrora.

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.