Oito provas de que não, ases da F1 atual não são “pilotos de videogame”

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Há vários motivos para se criticar a F1 atual. O Projeto Motor, inclusive, já o fez várias vezes: a forma como a evolução tecnológica alterou os desafios da pilotagem); a distribuição absurdamente desigual do dinheiro; a falta de carisma de seus personagens; a restrição cada vez maior de acesso aos fãs (escancarada pelo recente caso em que a FOM obrigou Romain Grosjean a apagar das redes sociais dois vídeos em que mostrava bastidores de sua nova escuderia, a Haas); o desespero em adotar medidas paliativas que não corrigem o imo alquebrado e apodrecido do produto.

Todavia, a crise do principal evento automobilístico mundial tem levado a um fenômeno típico da consciência coletiva descrita de Durkheim: as críticas ganham vida própria e passam a existir per si, saindo do controle. Muitas delas não possuem embasamento contextual ou histórico, mas se transformam em sofismas que servem apenas para reforçar a ideia de que tudo está errado, mesmo aquilo que, na verdade, é igual ou até melhor do que antes.

Um exemplo é a birra que se pegou das atuais unidades motrizes híbridas. Por causa do ronco baixo, criou-se um mito de que o motor V6 turbo de 1,6 litro também seria mais fraco do que seu antecessor, o V8 naturalmente aspirado. Uma grande mentira já abordada em nosso site). Outro: “no passado as corridas eram puras, ninguém tinha que ficar poupando combustível e pneus como agora”. Ou ainda: “antigamente só entrava na F1 quem tinha talento. Não existia essa de pagante”. Todas são afirmações que não se sustentam historicamente, demonstrando como a força do determinismo pode distorcer a percepção tanto do passado quanto do presente.

Estamos querendo dizer que a F1 é perfeita? Não, claro que não. O objetivo, na verdade, é tentar manter os pés no chão quanto ao que realmente tem de ser contestado.

Vejam o caso dos pilotos que compõem o grid contemporâneo. Você certamente já leu/ouviu alguém afirmar que “não passam de meros volantes de videogame”, pois guiam bólidos extremamente fáceis, cheios de assistências eletrônicas, e sequer conseguiriam trocar uma marcha caso sentassem suas bundinhas de veludo no habitáculo de um carro “de verdade” dos anos 70 ou 80.

Resolvemos caçar oito “provas” de que tal argumento não passa de falácia. Se há algo do qual não se pode reclamar atualmente, é quanto à qualidade dos ases atuais (pelo menos os que compõem a parte da frente da grelha). A F1 conta atualmente com um dos melhores grids de sua história. Competidores ruins, limitados e/ou que pagam para comprar uma vaga sempre existiram e, muito provavelmente, nunca serão extintos. Só que o certame continua a ser o celeiro dos melhores automobilistas do mundo, e por alguma margem. Confira por quê:

Verstappen pilota Red Bull RB7 sobre a neve

Grande revelação da temporada 2015, Max Verstappen participou de uma exibição curiosa a bordo do Red Bull RB7 (2011). O neerlandês teve de conduzir a “barata” num percurso sobre a neve montado na estação de esqui de Kitsbühel (Áustria). Correntes foram presas aos calçados de chuva extrema da Pirelli a fim de melhorar a parca aderência. Em meio ao frio e ao ar rarefeito, o jovem deu conta do desafio e proporcionou um grande espetáculo aos presentes.

Vettel controla Ferrari SF-15T com maestria na chuva

A inesperada vitória no GP da Itália de 2008, a bordo da humilde Toro Rosso, mostrou ao mundo o que Sebastian Vettel era capaz de produzir sobre piso molhado. No ano passado, durante a etapa de Silverstone, o germânico fazia uma atuação apagada até que começou a chover. A partir de então, usando ótima tática e contando com a perícia digna de um tetracampeão, subiu de sexto para terceiro em sete voltas. Veja no vídeo como o alemão, ainda calçado com pneus lisos, tem que brigar com sua Ferrari no meio da reta, durante o trecho mais molhado do traçado, enquanto se aproxima rapidamente do companheiro Kimi Raikkonen.

Kvyat esmerilha um Lada Riva para tirar CNH na Rússia

O hábito da Red Bull de apostar em ases muito jovens cria situações inusitadas. Sebastian Vettel, Daniil Kvyat e Max Verstappen, por exemplo, já eram profissionais da F1 antes de terem idade para tirar carteira de habilitação em seus países natais. Quando Kvyat enfim pôde requisitar sua licença na Rússia, a marca de energéticos aproveitou para fazer uma brincadeira e simulou como teria sido o teste: o ás sentando a bota em um Lada Riva e cumprindo a prova prática de uma forma para lá de inusitada. Detalhe: estamos falando de um projeto do fim dos anos 70, sem qualquer tipo de auxílio e ainda dotado de transmissão manual.

Ricciardo vira “piloto de táxi” com um Renault Clio

Este é um experimento meio bobo, mas vale pela demonstração de habilidade de Daniel Ricciardo, atual primeiro piloto da Red Bull. O australiano atuou como motorista de táxi em um Renault Clio IV RS, em apresentação realizada num campo de provas da montadora francesa. Slaloms, drifts e zerinhos fizeram parte do espetáculo.

Raikkonen e Pic brincam na neve com um Renault Duster

Há alguns anos, quando ainda representava a Lotus, Kimi Raikkonen participou de uma corridinha na neve contra Charles Pic. À época, tanto o finês quanto o francês (então na Caterham) competiam empurrados pelos motores Renault, e por isso usaram para o duelo exemplares do Renault Duster, SUV bastante conhecido por aqui. O resultado foi um tanto surpreendente. Também curioso é que, antes disso, Raikkonen deu uma carona à repórter da Sky Sports britânica, Natalie Pinkham, com o objetivo de ensiná-la a andar na neve. Qual a chance de dar certo? Pois é… Não deu.

Kvyat leva Renault Sandero RS ao limite em pista molhada

Entre as diversas atividades promocionais feitas pelas equipes/fabricantes antes do GP do Brasil de 2015, a Renault levou alguns jornalistas para andar com Daniil Kvyat em um recém-lançado Sandero RS (versão esportiva do hatch criada exclusivamente para nosso mercado). O evento ocorreu no kartódromo Speedland, em São Paulo. Garoava no dia, o que deixou a voltinha um pouco mais emocionante. Novamente ao volante de um veículo sem assistências ou câmbio automatizado/automático, o russo entusiasmou o comunicador que gravou essas imagens amadoras.

Vettel dá entrevista enquanto deixa Ferrari F12 de lado

O jornalista Will Buxton, do canal americano NBC, recebeu uma tarefa nada fácil antes do GP dos Estados Unidos do ano passado: fazer uma brincadeira de “Verdadeiro ou Falso” com Sebastian Vettel enquanto o alemão acelerava uma Ferrari F12 no Driveway Motorsports Park, um pequeno circuito usado como escola de pilotagem nas redondezas do autódromo de Austin. O volante da Ferrari se mostrou bem mais confortável ao responder e dirigir ao mesmo tempo do que o apresentador, que só que tinha que perguntar e, claro, se segurar.

Brundle demonstra dificuldade ao pilotar um F1 atual

A última mostra não traz um piloto atual conduzindo um automóvel do passado, mas sim o contrário: Martin Brundle, conhecido membro da F1 nos anos 80/90 e atual comentarista da BBC, experimentou o Force India VJM07 (2014) numa configuração encurtada do traçado de Silverstone. Diferentemente do que se propaga, o ex-piloto sentiu na pele o maior nível de torque que os propulsores turbocomprimidos trouxeram à categoria. Mesmo com toda sua experiência, o britânico encontrou dificuldades para controlar o monoposto, a ponto de encarar um pequeno imprevisto entre 3:30 e 4:00.

DEBATE MOTOR #16: equipe recebe Luis Fernando Ramos para analisar pré-temporada da F1:

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Akina SpeedStars

    Que braço do Vettel hein?!!!

  • Alexander NotTheKing

    Fantástico a matéria, e tem o famoso falastrão, Nick Lauda dizendo que até um macaco pilotaria a Jaguar e ele conseguiu a proeza de ser 10s mais lento e rodar 3x na mesma volta, isso em 2000 o 2001.

    • Leonardo Felix

      Verdade, Alexander. O curioso é que já naquela época se criticava a F1 por estar “fácil demais”, e hoje muita gente cultua aquela época devido à força dos motores V10. Coisa de maluco hahaha.

      Abraços!