Pérez supera demissão da McLaren e reconstrói reputação na F1

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As atenções da temporada de 2015 da F1 vêm sendo voltadas até agora ao domínio esmagador da Mercedes, o bom rendimento de Sebastian Vettel em sua chegada à Ferrari, o surgimento de uma potencial nova estrela em Max Verstappen e o calvário da parceria McLaren-Honda. Contudo, tem passado despercebido pelo público em geral o competente trabalho feito por Sergio Pérez na Force India.

Antes de qualquer tipo de análise, vamos destinar alguns parágrafos para recordar brevemente a passagem de Pérez pela F1 até agora. Apesar do vice na GP2 em 2010, o piloto de Guadalajara chegou à categoria máxima o automobilismo mundial com o rótulo de pagante. Afinal, havia por trás de sua estreia um maciço investimento de Carlos Slim, um dos homens mais ricos do planeta, na equipe Sauber, o que foi simbolizado com os patrocinadores Claro, Telmex e Telcel.

Foi em 2012 que “Checo” enfim começou a mostrar seu real valor na pista, incluindo três pódios em atuações de gala. Falta de consistência e alguns erros ainda incomodavam, mas não se tratava de nada muito anormal para um jovem de 22 anos. Na época, o timing favorável no mercado de pilotos lhe permitiu garantir uma vaga na McLaren, que buscava um substituto para Lewis Hamilton.

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Em 2013, sua passagem pela equipe inglesa não foi de todo ruim. Porém, se o timing havia lhe ajudado no ano anterior, desta vez representou um grande problema.

Pérez chegou na McLaren cercado de expectativas otimistas, falando até mesmo em título mundial. O MP4-28, entretanto, foi uma enorme decepção, o que iniciou uma fase conturbada da equipe que dura até os dias de hoje. Pior que isso, o mexicano deixou uma má impressão dentro do time por seu temperamento, o que dificultou seu relacionamento com engenheiros – ao contrário do que fazia Kevin Magnussen, adorado por todos e que acabou sendo escolhido como seu substituto para o ano seguinte.

“Checo” teve seus serviços dispensados de Woking na fase final de 2013, mas, para sua sorte, abriu-se uma vaga na Force India. O grande ponto de interrogação era como Pérez reagiria psicologicamente ao fracasso.

Desde então, o mexicano teve de carregar, mesmo ainda muito jovem, o fardo de ser rejeitado por sua primeira equipe de ponta na F1 após somente um ano. Mas foi justamente na Force India em que ele se encontrou e voltou a dar mostras de que ainda é o mesmo piloto promissor de poucos anos atrás.

Acidente no fim do GP do Canadá custou a Pérez um potencial pódio (Divulgação)
Acidente no fim do GP do Canadá custou a Pérez um potencial pódio (Divulgação)

Para começar, Pérez se tornou um trunfo da Force India em termos comerciais. Seus patrocinadores mexicanos de longa data o acompanharam em seu novo time, o que estreitou o relacionamento da esquadra com o país. O lançamento do VJM08 aconteceu na Cidade do México, e a Force India está realizando uma série de ações para ajudar a promover o GP que acontece no circuito Hermanos Rodriguez, em novembro.

Dentro da pista, o rendimento também vem se tornando mais animador. Apesar de alguns acidentes desnecessários, Pérez anotou performances fortes, como o terceiro lugar no GP do Bahrein do ano passado e o quinto na Bélgica, já em 2015.

É justamente este ponto que tem se mostrado a grande diferença no duelo interno com Nico Hulkenberg. No geral, a disputa é apertada, mas o mexicano tem estrela e obtém um resultado ou outro de mais destaque, enquanto que Hulkenberg aposta na regularidade.

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A inconsistência de “Checo”, que já foi um grande problema no passado, hoje em dia atrapalha muito menos. O mexicano pontuou em oito das 14 corridas já disputadas em 2015, duas a mais em relação a Hulk. Adotando uma pilotagem cada vez mais madura e com o uso inteligente dos pneus (atributo tão valioso quanto velocidade pura nos dias de hoje), Pérez se coloca à frente de Hulkenberg na tabela de pontos, confirmando seu bom momento na F1.

Não à toa, o mexicano é visto como peça importante para os planos de médio prazo da Force India, já que alia velocidade ao bom potencial comercial – diferentemente de Hulkenberg, que não contribui com o orçamento do time.

Frentzen teve passagem apagada pela Williams
Frentzen teve passagem apagada pela Williams

Existem exemplos no passado de pilotos que souberam se reinventar depois de passagem malsucedida por uma equipe de ponta. No fim da década de 90, Heinz-Harald Frentzen chegou à Williams cheio de moral, com a expectativa de enfim comprovar na prática todo o potencial que havia mostrado em seus tempos de Sauber.

Contudo, o desempenho acabou sendo decepcionante, e o alemão foi dispensado da Williams dois anos depois. Seu refúgio foi a Jordan, que curiosamente lhe permitiu, em 1999, fazer sua temporada mais forte na categoria. Frentzen venceu por duas vezes e chegou à penúltima prova do campeonato com chances matemáticas de título, apesar da desvantagem em relação aos carros de McLaren e Ferrari.

Para Pérez atingir tal nível de “volta por cima” ainda é preciso um pouco mais. “Checo” ainda mostra margem para evolução no aspecto interpessoal e no foco, o que contribuiria para uma melhora ainda mais significativa na pista.

Para sua felicidade, porém, a situação em que se encontra no momento é muito menos dramática do que se via ao término da campanha de 2013. Aos 25 anos de idade, o mexicano ainda é jovem e está em posição estável para continuar criando base para sua evolução como piloto. Cabe apenas a ele decidir se a rara segunda chance na F1 vai ser aproveitada ou não.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Gustavo Segamarchi

    O Perez está realmente fazendo uma boa temporada esse ano. Outro piloto que vale a pena ter uma análise aqui no Projeto Motor, é o Romain Grosjean.

    Vocês podem falar como vem sendo o desempenho dele de 2013 para cá e como ele pode se comportar na Haas.