Peter Sauber: o construtor que começou na garagem do pai e chegou à F1

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A Sauber terá um novo dono. Um grupo de investimentos da Suíça chamado Longbow Finance AS adquiriu a totalidade das ações da holding proprietária do Grupo. Em um primeiro momento, as manchetes principais vão todas na direção da sobrevivência da equipe (pelo menos enquanto os novos investidores quiserem seguir com a empresa) e seu futuro.

Só que a informação também é importante para os amantes do automobilismo pelo fato de ter sido acompanhada do anúncio de que Peter Sauber definitivamente se afastará da F1. O suíço já não estava no comando da equipe de corridas desde outubro de 2012, quando passou o bastão para sua CEO, Monisha Kaltenborn.

Mesmo assim, ele permanecia na presidência do Grupo Sauber, que além do time também possui empreendimentos como de prestação de serviços em sua base de Hinwil e venda de know-how técnico. Agora, ele deixa definitivamente suas atividades. E fará falta.

Peter Sauber e seu charuto
Peter Sauber e seu charuto

Sauber é um cara simples, sério e que ama corridas. Ele sempre trabalhou longe dos holofotes, quieto, mas conseguiu ter um time por mais de duas décadas na F1. Antes disso, se manteve por mais de 20 anos no automobilismo, especialmente no endurance com protótipos.

Essa história começou ainda no final dos anos 60. Após terminar seus estudos de eletricista, Sauber se tornou vendedor de carros em Hinwil. Só que, por influência de alguns amigos, ele começou a frequentar corridas. Ele mesmo acabou preparando o fusca que usava para ir ao trabalho e o transformou em um verdadeiro carros de corridas para começar a competir em subidas de montanha.

Empolgado, ele resolveu mergulhar de cabeça na ideia de montar carros para correr em provas de esporte-protótipos. Ele construiu seu primeiro modelo, o C1, na garagem da casa dos pais. O “C” é de Christiane, sua esposa. Essa nomenclatura segue até hoje nos carros de sua equipe de F1, seguindo a sequência numérica.

O C1 era um protótipo simples, com chassi tubular construído pelo próprio Sauber. O motor era um Ford Cosworth 1.0 de quatro cilindros que gerava cerca de 115 cavalos. Ele mesmo competiu com o carro no campeonato suíço de subida de montanhas em 1970, mas logo o passou para frente. Duas unidades foram produzidas e correram nas mãos de vários pilotos por mais de uma década.

Sauber C1
Sauber C1

Em 71, ele desenvolveu o C2, agora em uma oficina dentro da empresa do pai. A evolução seguiu dois anos depois, com o C3, projetado por Guy Boisson, que já passou a participar de corridas de Campeonato Suíço de Esporte-Protótipos. Em 75, foi a vez do C4, primeiro da Sauber em alumínio.

Sauber teve seu primeiro grande acerto com C5. O chassi tinha um conjunto no chão e que aproveitava bem a potência de seu motor BMW de 2 litros e chegou a vencer o Interserie Championship. Seguindo o regulamento Grupo 6, ele chegou a participar das 24 Horas de Le Mans de 77 e 78.

Neste ponto da carreira, Sauber começou a ganhar alguma notoriedade entre os construtores europeus, apesar de não ter nenhum grande triunfo. Em 79, sua equipe deu um tempo na construção de chassis próprios e começou a competir preparando Lolas na F2, com algum sucesso. Na virada para a década de 80, Sauber passou a desenvolver um modelo BMW M1 que venceu uma edição dos 1.000 Km de Nurburgring.

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Para a temporada de 1982, o dirigente conseguiu um bom acordo de patrocínio com a BASF, o que abriu a chance de ele voltar a construir um chassi próprio para competir entre os esporte-protótipos. E foi assim que nasceu o C6, que oficialmente levou o nome de SHS C6, pela participação da empresa de engenharia Seger & Hoffman.

O modelo competiu dentro do regulamento do Grupo C da FIA. Nunca venceu, mas também passou longe de fazer feio nas pistas, deixando a Sauber com a quinta posição no Mundial de Marcas. No ano seguinte, o time continuou investindo e trabalhando em uma evolução, o C7, agora sem o SHS, e que passou a contar com um motor BMW de seis cilindros em linha e 3.5 litros.

A equipe seguiu com resultados apenas medianos, mas sempre consistentes levando-se em conta seu caráter privado no meio do Mundial. Mas a vida de Peter Sauber e seu time mudaria para sempre a partir de 1985, quando ele fecharia uma parceria com a Mercedes. Este envolvimento com a marca da estrela de três pontas seria o fio condutor para a grande transformação da equipe nos anos seguintes.

O passo inicial foi no próprio mundo dos protótipos. O primeiro modelo desenvolvido dentro deste acordo foi o C8, que, ainda sem tanto investimento, nada mais era do que uma evolução do C7 readequado para receber o motor V8 de 5 litros da Mercedes. O carro competiu por duas temporadas com desempenhos apenas satisfatórios.

Pode-se dizer que o C9 foi o primeiro Sauber-Mercedes real. O carro teve algumas dificuldades em seu primeiro ano, em 87, mas em 88 já conseguiu terminar com o vice-campeonato mundial, atrás da Jaguar.

Sauber Mercedes C9
Sauber Mercedes C9

A grande vitória aconteceu em 89, com a dobradinha nas 24 Horas de Le Mans, um triunfo importantee também para a história da marca alemã. O time ainda ficou com o título mundial de equipes, batendo a Joest e seu Porsche 962C e as quatro primeiras posições no campeonato de pilotos.

O sucesso continuou em 90, quando a montadora alemã resolveu colocar seu nome no novo Mercedes C11. Curiosamente, Sauber preferiu pular o “C10” por conta da pronúncia em alemão, que ficaria esquisita. Equipe e marca decidiram não correr em Le Mans, mas concentraram esforços e levaram o Mundial de 90.

Peter Sauber e seu trio de pilotos da Mercedes em 91: Michael Schumacher, karl wendlinger e Hans-Harald Frentzen
Peter Sauber e seu trio de pilotos da Mercedes em 91: Michael Schumacher, karl wendlinger e Hans-Harald Frentzen

Em 91, com o fim do Grupo C e a implantação de um novo regulamento de motores no Mundial de Marcas com limitação em 3.5 litros, a equipe suíça desenvolveu o Mercedes C291, que sofreu com problemas no propulsor e conjunto. O time teve que apelar, inclusive, para o C11 adaptado em Le Mans. Nesta edição, um tal de Michael Schumacher, participante do programa de jovens pilotos da fabricante alemã, competiu pela equipe em Sarthe.

Paralelo a este trabalho, Peter Sauber e Mercedes começaram neste mesmo ano a se planejar para dar mais um passo definitivo de entrar na F1. Ainda no meio de 91, Sauber contratou o famoso projetista Harvey Postlethwaite para começar a trabalhar no carro e abriu uma nova fábrica em Hinwil para empreitada.

Só que o final do ano, por conta de questões ligadas à economia, a Mercedes resolveu entrar com um time oficial de fábrica. Sauber, mesmo assim, teve a chance de ficar com o dinheiro já investido e resolveu encarar o desafio de qualquer jeito.

O time teve 92 inteiro para se estruturar e entrar definitivamente na categoria no ano seguinte com o modelo C12 equipado com motores produzidos pela Ilmor (rebatizados de Sauber) e os promissores pilotos Karl Wendlinger, vindo do programa da Mercedes, e JJ Letho. Apesar de não ter uma participação direta, a montadora alemã marcou território ao colocar seu nome na carenagem do carro desde a primeira corrida.

Karl Wendlinger com o Sauber C12, no GP do Brasil de 1993, em Interlagos
Karl Wendlinger com o Sauber C12, no GP do Brasil de 1993, em Interlagos

O começo foi bastante interessante, com pontos logo na primeira etapa, na África do Sul, conquistados através de um quinto lugar de Letho, e um sétimo lugar entre os construtores ao final da temporada com 12 tentos. Empolgada, a Mercedes passou a entrar de vez na F1 em 94 dando nome aos motores da equipe. A parceria, no entanto, durou apenas um ano, já que montadora resolveu apostar em uma associação com a McLaren a partir de 95.

Mesmo sem o apoio de uma montadora, a Sauber não só sobreviveu como se estabeleceu de vez na F1. Nunca chegou a crescer a ponto de desafiar os grandes, mas, pelo menos em sua primeira fase, até 2005, ficou longe de passar vergonha, sempre administrada dentro de sua realidade pelo homem que lhe dava seu nome.

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Entre 2006 e 2009, o time passou para o controle da BMW, o que já parecia apontar para uma aposentadoria de Peter Sauber. Só que quando a montadora alemã resolveu deixar repentinamente a categoria, o dirigente voltou ao controle, principalmente para não ver a empresa fechar do dia para a noite e os vários funcionários perderem seus empregos.

Mesmo com muito esforço, o time passou, nesta segunda fase a partir de 2010, a sofrer muito para conseguir se manter ativo, sendo que nas últimas duas temporadas bateu no fundo do poço, chegando a atrasar salários.

Mesmo assim, Sauber nunca desistiu de tentar encontrar um caminho para deixar seu legado vivo. Mesmo que seja nas mãos de um grupo financeiro que ninguém sabe direito de onde veio e para onde vai, sua história, que começou com um chassi tubular lá na garagem dos pais, vai ficar para sempre marcada e lembrada pela persistência e o sonho de ser um construtor.

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Douglas Pacheco

    Essa história daria um ótimo filme!!